Perema-do-Pará e os desafios de proteger uma nova tartaruga no Arco do Desmatamento


 A descrição da perema-do-Pará (Mesoclemmys sabiniparaensis) revelou uma espécie de tartaruga de água doce até então desconhecida pela ciência em uma das áreas mais transformadas da Amazônia. Encontrada no sudeste paraense, em igarapés associados ao Parque Estadual Serra dos Martírios-Andorinhas, sua presença amplia o conhecimento sobre os quelônios amazônicos, mas também expõe um problema urgente. A espécie foi reconhecida quando seu habitat já se encontrava pressionado pelo desmatamento, pela mineração, pela pecuária e por outras alterações da paisagem. Conhecê-la, portanto, não constitui apenas um avanço taxonômico. É o primeiro passo para impedir que uma espécie de distribuição ainda pouco conhecida desapareça antes que sua ecologia e o tamanho de sua população sejam compreendidos.

Uma espécie reconhecida a partir de coleções científicas

Os exemplares que permitiram a descrição haviam sido coletados em 2011, em um igarapé de fundo arenoso e pedregoso da sub-bacia do rio Araguaia, no município de São Geraldo do Araguaia. Seis indivíduos permaneceram preservados na Coleção de Herpetologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, sem identificação como espécie distinta. O acervo, considerado o maior da região amazônica, reúne cerca de 100 mil espécimes de anfíbios e répteis e demonstra a importância das coleções zoológicas para revelar uma biodiversidade que nem sempre pode ser reconhecida no momento da coleta.

A investigação começou em 2018, em estudos conduzidos pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pelo Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia (NEAP/UFPA). As diferenças foram examinadas por meio do sequenciamento de fragmentos de DNA, de comparações morfológicas, morfométricas e anatômicas e de informações sobre a história natural dos animais. O trabalho levou quatro anos e contou ainda com a Turtle Conservancy, a Chelonian Research Foundation e a Re:wild. A descrição científica foi publicada on-line em 14 de dezembro de 2022 na revista internacional Chelonian Conservation and Biology.

Características que distinguem a perema-do-Pará

A perema-do-Pará pertence ao gênero Mesoclemmys e é o menor membro conhecido desse grupo. O comprimento médio de sua carapaça é inferior a 15 centímetros. A porção superior do casco é predominantemente escura, assim como o alto da cabeça e as patas, enquanto a parte inferior apresenta tonalidade amarelo-pálida ou amarelo-queimada. A cabeça pequena e o padrão bicolor, que combina tons escuros, marrom-avermelhados e amarelados, estão entre os traços que auxiliam sua diferenciação em relação às demais espécies do gênero.

As características visíveis não seriam suficientes para reconhecer formalmente um novo táxon. A validação exigiu comparar forma, medidas corporais, anatomia e material genético com os de espécies já descritas, reduzindo o risco de confundir variações individuais ou regionais com diferenças entre espécies. As evidências confirmaram que os animais do Museu Paraense Emílio Goeldi representavam uma linhagem própria, ampliando para 21 o número de espécies de quelônios aquáticos, semiaquáticos e terrestres então reconhecidas na Amazônia.

Distribuição restrita e população desconhecida

Até o momento a ocorrência conhecida da espécie permanecia limitada ao sudeste do Pará. Os registros provinham de igarapés próximos ou situados no entorno do Parque Estadual Serra dos Martírios-Andorinhas, uma unidade de conservação criada em 1996, com aproximadamente 24 mil hectares. A área protege ambientes florestais e aquáticos na região de São Geraldo do Araguaia e funciona como um refúgio em meio a uma paisagem submetida a intensa ocupação humana.

Não existe atualmente uma estimativa do número de peremas-do-Pará que vivem na natureza. Os seis exemplares usados na descrição constituem material científico e não podem ser interpretados como o tamanho da população remanescente. Também não se sabe se a espécie ocorre apenas na localidade conhecida ou se ocupa outros cursos d’água da sub-bacia do Araguaia. Essa ausência de dados impede avaliar sua abundância, extensão de ocorrência, área de ocupação e tendência populacional, informações indispensáveis para determinar com segurança seu grau de ameaça.

Uma tartaruga no Arco do Desmatamento

O único núcleo de ocorrência conhecido está inserido no Arco do Desmatamento, onde a floresta vem sendo substituída ou fragmentada. As fontes relacionam a região à mineração em grande escala, à pecuária, ao desmatamento, à especulação imobiliária e a alterações dos rios e da floresta primária. Para uma pequena tartaruga associada a igarapés, a remoção da cobertura vegetal pode modificar a temperatura da água, o sombreamento, a disponibilidade de alimento e a estabilidade das margens, além de aumentar o assoreamento e isolar trechos de habitat.

A espécie também pode estar exposta a pressões comuns aos quelônios amazônicos. Entre elas estão a captura de adultos e ovos para consumo, o comércio ilegal de filhotes, o represamento de rios e as mudanças climáticas. Não há, contudo, comprovação de que todas essas ameaças incidam diretamente sobre a perema-do-Pará. O risco mais evidente e documentado decorre da transformação acelerada do ambiente onde ela foi registrada. Sua distribuição aparentemente pequena agrava a preocupação, pois impactos concentrados em poucos igarapés podem comprometer uma parcela elevada de uma população ainda desconhecida.


Instituições científicas e proteção territorial

A Universidade Federal do Pará e o Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia conduziram a pesquisa taxonômica, enquanto a coleção do Museu Paraense Emílio Goeldi preservou os exemplares que tornaram a descrição possível. Turtle Conservancy, Chelonian Research Foundation e Re:wild integraram a cooperação, aproximando a pesquisa amazônica de redes internacionais dedicadas à conservação de quelônios.

No campo da gestão pública, o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio) administra as unidades de conservação estaduais e reconheceu que a descoberta exige novas ações de manejo conforme a localização dos registros. O órgão também destacou o apoio à pesquisa, à educação ambiental e à conservação da biodiversidade. A existência do Parque Estadual Serra dos Martírios-Andorinhas oferece uma base territorial decisiva, mas a menção a exemplares encontrados em igarapés do entorno indica que a proteção não deve se limitar às fronteiras formais da unidade. A conservação da água, da vegetação ciliar e das conexões entre os cursos d’água precisa alcançar toda a paisagem utilizada pela espécie.

Prioridades para uma proteção imediata

O primeiro passo deve ser a realização de expedições sistemáticas nos igarapés da área do parque, de seu entorno e de outros trechos da sub-bacia do Araguaia. Os levantamentos precisam localizar novas populações, estimar abundância, identificar locais de alimentação e reprodução e esclarecer o comportamento, a dieta e o ciclo reprodutivo. A pesquisa genética de novos indivíduos poderá ainda revelar o grau de isolamento entre populações e indicar quais áreas são essenciais para manter a diversidade da espécie.

Paralelamente, o Ideflor-Bio, as instituições científicas e as organizações parceiras podem estruturar um programa específico de monitoramento, com protocolos de longo prazo e participação das comunidades locais. A fiscalização deve priorizar o desmatamento, a mineração, a degradação de nascentes e igarapés e a captura ilegal de fauna. Os resultados das pesquisas deverão subsidiar o plano de manejo do parque, a definição de zonas de amortecimento e, se necessário, a ampliação da proteção territorial. Também será indispensável avaliar formalmente o risco de extinção da perema-do-Pará e incorporá-la às listas e aos instrumentos de conservação pertinentes. A continuidade da pesquisa, acompanhada de proteção efetiva do habitat, permitirá transformar uma descoberta científica recente em uma estratégia capaz de assegurar a permanência da espécie na natureza.

 

Fontes: Chelonian Conservation and Biology, Mongabay, O Eco, UFPA, Portal Amazônia, Conexão Planeta, G1Globo, Fauna News, Novataxa, Liberal Amazon, Portal Belém.com.br, Jornal Fatos e Noticias

Fotos: Perema-do-Pará_by Marinus Hoogmoed; segunda foto_by Fábio Cunha e terceira foto: Divulgação.