Um século de ausência, uma redescoberta nas alturas e os desafios para salvar o Lóris-de-testa-azul de Buru (Charmosyna toxopei):


 No arquipélago de Maluku, no leste da Indonésia, existe uma ilha chamada Buru que guarda segredos biológicos ainda não inteiramente decifrados pela ciência. Entre eles, nenhum é tão emblemático quanto o Lóris-de-Buru (Charmosyna toxopei), um pequeno papagaio nectarívoro com poucos registros confirmados ao longo de mais de um século. Endêmico da ilha, pertencente à família Psittacidae e à tribo Lorini, a ave é conhecida na literatura internacional como Lóris-de-testa-azul, denominação que alude à leve coloração azulada da coroa frontal. Seu nome local, utu Papua, é mencionado esparsamente pelos moradores das margens do Lago Rana — um dos poucos grupos humanos que afirmam ter contato regular com a espécie.

A ave foi registrada cientificamente pela primeira vez em 1921 por Hendrik Cornelis Siebers, entomologista holandês em expedição à Ilha de Buru. A descrição formal, baseada em sete espécimes coletados na década de 1920, foi publicada em 1930 por Lambertus Johannes Toxopeus — outro entomologista, não um ornitólogo —, fato que já revela o quanto a exploração da biodiversidade no leste da Indonésia era incipiente naquele período. Desde então, a espécie praticamente desapareceu dos registros científicos, tornando-se objeto de incerteza: era extremamente rara, estava extinta ou simplesmente habitava regiões de difícil acesso?

Morfologia e comportamento de uma espécie pouco conhecida

O lóris-de-Buru é uma ave pequena, com cerca de 16 centímetros de comprimento. Sua plumagem é predominantemente verde-brilhante, com toque suave de amarelo. A tênue coroa azul na região frontal da cabeça é o traço mais distintivo e o que origina seu nome internacional. A base da cauda apresenta contraste marcante em vermelho vivo. O bico é pequeno, curvo e alaranjado — estrutura típica dos papagaios nectarívoros —, assim como os pés, também alaranjados, com morfologia robusta adaptada a empoleirar-se e escalar galhos.

O dimorfismo sexual é sutil: nos machos, a coroa azul tende a ser mais pronunciada e brilhante; nas fêmeas, a coloração é mais discreta. A identificação do sexo em campo exige observação cuidadosa. A principal especialização biológica da espécie é a língua com ponta em forma de pincel, adaptação exclusiva dos lorikeets que permite a sucção eficiente de néctar e a coleta de pólen. Esse atributo confere à ave um papel funcional relevante na polinização de plantas da floresta tropical, especialmente das famílias Myrtaceae.

O lóris-de-Buru é nômade local, deslocando-se de acordo com a disponibilidade de alimento e as épocas de floração, o que dificulta o mapeamento preciso de sua distribuição. É geralmente avistado em pares ou pequenos grupos de até dez indivíduos. Seu voo é reto e constante, em velocidade moderada. O chamado é um grito agudo e estridente, frequentemente transcrito como "ti-ti-ti-ti-ti" — sinal acústico relevante para identificação em campo. Os dados sobre reprodução são escassos: estima-se, por extrapolação com outras espécies do grupo, que a postura seja de dois ovos, com incubação entre 23 e 25 dias e independência dos filhotes em dois a três meses. Os ninhos, presumivelmente localizados em cavidades de árvores altas, ainda não foram documentados diretamente.


Um século de ausência: lacunas e buscas frustradas

Por décadas após a descrição formal da espécie, os registros confirmados foram virtualmente inexistentes. Em 1985, o pesquisador Smiet registrou a ave em floresta de planície perturbada em Buru, sugerindo alguma tolerância à alteração do habitat — dado que, paradoxalmente, alimentou a esperança de que a espécie pudesse sobreviver em ambientes degradados. Em 1995, a BirdLife International, por meio da Fundação Ornitológica da Indonésia, realizou uma expedição ao Monte Kapalat Mada e ao Lago Rana em busca da espécie. Os únicos dados obtidos vieram de relatos de dois caçadores que afirmaram tê-la capturado para consumo alimentar nas proximidades do Lago Rana.

No ano seguinte, 1996, a busca foi expandida para outras partes da Ilha de Buru e para a Baía de Kayeli, sem resultados conclusivos. Os moradores das margens do Lago Rana, contudo, afirmavam que na década de 1990 o utu Papua era facilmente encontrado, frequentemente visto a se alimentar de néctar e pólen em árvores floridas. Esse contraste entre a memória local e a ausência nos registros científicos ilustra a fragilidade dos métodos de levantamento disponíveis à época.

A situação de incerteza prolongou-se até novembro de 2014, quando o ornitólogo e observador de aves britânico Craig Robson, durante uma excursão da Birdquest, fotografou dois indivíduos da espécie na Ilha de Buru — a cerca de 1.300 metros de altitude. Foi o primeiro registro visual moderno confirmado em décadas, encerrando especulações sobre a extinção da espécie. Contudo, após esse avistamento, o lóris-de-Buru voltou a desaparecer dos registros. Em 2024, a iniciativa internacional Search for Lost Birds — parceria entre a American Bird Conservancy (ABC), a Re:wild e a BirdLife International — adicionou o papagaio à sua lista de aves perdidas. A Lista Vermelha da IUCN, que classificara a espécie como Criticamente em Perigo (CR) desde 2000, migrou-a em 2024 para a categoria Dados Insuficientes (DD) — não por melhora em seu estado de conservação, mas pela falta de informações suficientes para avaliar o risco de extinção com precisão.

Entre 2023 e início de 2025, a Konservasi Kakatua Indonesia (KKI) realizou levantamentos diretos em diversos pontos da Ilha de Buru, especialmente ao redor do Lago Rana e na área de Kepalat Mada, no sul da ilha. Os resultados foram inconclusivos: nenhum indivíduo foi detectado. A expedição confirmou, entretanto, a devastação em curso: o desmatamento em larga escala, causado por empresas madeireiras, havia avançado sobre quase toda a área da Ilha de Buru até 1.400 metros de altitude. Essa atividade destrói simultaneamente o habitat, as fontes de alimento e os sítios de nidificação do lóris-de-Buru, comprometendo ainda 32 espécies endêmicas da Indonésia — das quais 14 espécies e 14 subespécies são exclusivas de Buru.

A redescoberta de abril de 2026: processo, acasos e conquistas

A virada veio de uma conjunção entre alpinismo local e ornitologia de campo. Em novembro de 2025, montanhistas do grupo Kanal Buru mapearam uma nova rota até o pico mais alto da ilha — o Monte Kapalatmada, com 2.713 metros de altitude. Suas florestas montanhosas de alta altitude haviam permanecido praticamente inexploradas até então, em razão dos penhascos íngremes, da vegetação densa, do terreno escorregadio e das condições climáticas adversas. A abertura dessa rota criou a oportunidade que a ciência vinha aguardando.

Em abril de 2026, uma expedição de 14 dias seguiu a trilha recém-mapeada. A equipe foi liderada pelo Kanal Buru, com participação de membros da American Bird Conservancy (ABC) e da iniciativa Search for Lost Birds, da Birdtour Asia e da Yayasan Planet Indonesia. Após seis dias de escalada intensa, a paisagem transformou-se: o calcário irregular coberto de vegetação deu lugar a uma floresta nebular musgosa de encanto singular, repleta de sons de aves.

O primeiro encontro com o lóris-de-Buru ocorreu de forma inesperada. Dois pássaros pequenos voaram para uma árvore próxima à equipe. Com auxílio de binóculos, um dos membros da expedição reconheceu o lorikeet verde com bico laranja e testa azul. A identificação foi imediata, mas as aves partiram antes que qualquer fotografia pudesse ser registrada. Dois dias depois, um novo indivíduo pousou por alguns segundos na copa musgosa de uma árvore — e desta vez a equipe conseguiu fotografá-lo, produzindo o primeiro registro fotográfico da espécie em mais de uma década. Na última manhã nas terras altas, o grupo observou mais dois indivíduos voando entre árvores floridas e capturou as primeiras gravações sonoras dos chamados agudos da espécie — um avanço científico de grande valor para estudos futuros de identificação e monitoramento.

A redescoberta corroborou uma hipótese que há muito circulava entre especialistas: o lóris-de-Buru provavelmente sempre preferiu, ou ao menos refugiou-se, nas florestas montanhosas de alta altitude, anteriormente inacessíveis. Todos os registros confirmados acumulados até hoje provêm de altitudes entre 850 metros e o topo do Monte Kapalatmada — nunca das florestas de planície onde as buscas foram mais intensivas. Isso explicaria décadas de ausência nos levantamentos realizados em zonas de menor altitude.

Ameaças persistentes e perspectivas para a conservação

A redescoberta, por si só, não resolve a vulnerabilidade da espécie. A Konservasi Kakatua Indonesia documentou extensa destruição de habitat por empresas madeireiras e de mineração entre 2023 e 2025, em altitudes entre 500 e 1.200 metros — faixa relevante para o lóris-de-Buru, conforme indicam registros históricos. Além do desmatamento, a caça para consumo e comércio afeta diversas espécies de papagaios em Buru. A Burung Indonesia, parceira nacional da BirdLife International, alerta que o principal desafio enfrentado pela espécie é estar sujeita a ameaças que permanecem em grande parte desconhecidas, habitando áreas sob pressão contínua, com uma população estimada como extremamente pequena e vulnerável.

Um fator adicional de risco é, paradoxalmente, a própria redescoberta: a abertura de novas rotas até as terras altas do Monte Kapalatmada pode tornar acessíveis habitats que até recentemente funcionavam como refúgios naturais protegidos pela inacessibilidade. Medidas de conservação são, portanto, urgentes antes que a pressão antrópica alcance as últimas áreas de ocorrência conhecida da espécie.

No plano legal, o lóris-de-Buru conta com proteção formal: a Lei nº 5 de 1990 sobre Conservação dos Recursos Naturais Biológicos e a Portaria Ministerial nº P.106 de 2018, que regulam as espécies vegetais e animais protegidas na Indonésia. A CITES também incluiu a espécie em seu Apêndice II. Contudo, a efetividade dessa proteção depende de fiscalização ativa e de levantamentos populacionais que ainda não foram realizados de forma sistemática.

As organizações envolvidas com a espécie — a BirdLife International e sua parceira nacional Burung Indonesia, a American Bird Conservancy, a Search for Lost Birds, a Birdtour Asia, a Yayasan Planet Indonesia, a Konservasi Kakatua Indonesia e o grupo comunitário Kanal Buru — reconhecem que a redescoberta é apenas o ponto de partida. As prioridades imediatas incluem: estimar o tamanho e a distribuição da população; mapear os habitats efetivamente utilizados pela espécie em diferentes altitudes; avaliar as ameaças diretas nas áreas de ocorrência confirmada; e proteger as florestas montanhosas remanescentes de Buru em articulação com as comunidades locais, que conhecem o Monte Kapalatmada e seu entorno como ninguém.

A redescoberta do lóris-de-Buru oferece ainda um sinal de esperança mais amplo: se uma espécie considerada potencialmente extinta sobreviveu em silêncio nas alturas inacessíveis de uma ilha remota, outras aves na mesma situação podem ainda estar presentes em habitats inexplorados. O lóris-de-Buru sobreviveu. Se sobreviverá a longo prazo depende da capacidade coletiva de estudar e proteger seus refúgios antes que eles também desapareçam.

Fontes: MDIG, Good News from Indonesia, Burung Indonesia, Kumparan, Artensterben, Bird Life International

Fotos: Lóris-de-testa-azul_by John C. Mittermeier; segunda foto:_by James Eaton; terceira foto: _by John C. Mittermeier;