O apuim-de-costas-pretas
(Touit melanonotus) é um
pequeno psitacídeo exclusivo da Mata Atlântica brasileira.
Descrito em 1820, pertence à família Psittacidae e não possui subespécies
reconhecidas. Sua presença discreta nas copas, a distribuição descontínua e as
dificuldades de identificação tornam a espécie pouco conhecida. A conservação
dessa ave depende tanto da proteção das florestas quanto de pesquisas capazes
de esclarecer onde vive, como se desloca e quais recursos utiliza ao longo do
ano.
Características e identificação
Com aproximadamente 15
centímetros, apresenta plumagem predominantemente verde, região central do
dorso escura, peito e ventre com tonalidades acinzentadas, bico claro e anel ao
redor dos olhos alaranjado. A cauda curta possui penas laterais vermelhas com
marcas negras, parcialmente ocultas quando a ave está pousada.
A coloração favorece
sua camuflagem na vegetação. Embora possa permanecer silencioso enquanto se
alimenta, em voo emite chamados agudos de timbre metálico. Essas vocalizações
podem ser confundidas com as de outros psitacídeos, especialmente o cuiú-cuiú. Fotografias
e gravações verificadas são, portanto, importantes para confirmar sua
ocorrência.
Um estudo publicado em
2023 na revista Diversity,
com análise de 34 exemplares de museus e sexagem molecular, mostrou que
diferenças de plumagem anteriormente atribuídas ao sexo correspondiam a
variações individuais. Esse resultado aperfeiçoa a identificação e evita
interpretações equivocadas sobre a composição dos bandos. O exame de aves
preservadas em coleções científicas, associado às técnicas moleculares, mostra
a contribuição dos museus para investigar uma espécie de difícil acompanhamento
na natureza.
Distribuição, alimentação e
reprodução
Sua distribuição
abrange localidades do sul da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de
Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Habita florestas úmidas, incluindo
ambientes próximos ao nível do mar e áreas montanhosas. Há registros até
aproximadamente 1.400 metros no Parque Nacional do Itatiaia.
A alimentação inclui
frutos de Clusia, araçás e recursos
de outras plantas nativas. Também existem registros de consumo de frutos de
ervas-de-passarinho. São sugeridos deslocamentos sazonais e altitudinais
acompanhando a frutificação, mas suas rotas e regularidade permanecem
insuficientemente esclarecidas.
Observações publicadas
em 2012 na revista Cotinga,
realizadas em Ubatuba durante 96 horas de campo em janeiro e fevereiro de 2011,
detalharam a alimentação em Clusia criuva.
As aves consumiam frutos imaturos, retirando-os da planta para manipulá-los em
outro galho ou comendo-os ainda presos ao pedúnculo. Nesse acompanhamento, os
grupos variaram de seis a 21 aves, e um bando com aproximadamente 70 foi
observado em voo.
A concentração sazonal
junto a árvores frutificando ajuda a compreender por que uma espécie difícil de
encontrar pode aparecer em números expressivos num ponto específico.
Entretanto, uma agregação alimentar temporária não equivale a uma população
residente nem permite extrapolar sua abundância para toda a região.
A reprodução permanece
pouco esclarecida. Há relatos de nidificação em cupinzeiros arbóreos e
atividade entre outubro e dezembro.. Esses dados não estabelecem um calendário
único para toda a distribuição. Faltam informações consistentes sobre tamanho
da postura, incubação, sobrevivência dos filhotes e sucesso reprodutivo. O
acompanhamento de ninhos é necessário para esclarecer essas diferenças e
orientar sua proteção.
População e categorias de ameaça
A estimativa adotada
pela BirdLife
International situa a população entre 2.500
e 9.999 indivíduos maduros. Esse intervalo corresponde às aves em idade
reprodutiva, não ao total de exemplares incluindo filhotes e jovens. Trata-se
de uma estimativa, e não de um censo completo.
Na avaliação global
atual, a espécie é classificada como Quase
Ameaçada. No Brasil, permanece vulnerável,
conforme a lista nacional atualizada pela Portaria MMA nº 1.704, de junho de
2026. As categorias diferem porque as avaliações têm escalas e critérios
próprios.
A revisão global foi
fundamentada, entre outros aspectos, no reconhecimento de uma distribuição
maior do que anteriormente considerada. Não deve ser interpretada como
comprovação de recuperação populacional. Os hábitos discretos dificultam as
contagens, e a ampliação dos registros pode refletir maior conhecimento, sem
representar aumento efetivo da população.
Um exemplo das
dificuldades de interpretar novos registros é o Parque Estadual da Cantareira.
Um estudo publicado em 2021 no Journal
of Threatened Taxa, vinculado à
Universidade Federal de São Carlos e à área de manejo de fauna da Prefeitura de
Guarulhos, apresentou o primeiro registro da espécie numa localidade com cerca
de 120 anos de estudos ornitológicos. Documentou também o consumo de frutos de Ocotea. A pesquisa discutiu se as aves
haviam chegado recentemente ou passado despercebidas. O registro evidencia a
necessidade de investigar permanência, deslocamentos e uso dos remanescentes
metropolitanos.
Ameaças e insuficiências da proteção
A destruição,
degradação e fragmentação do habitat constituem as principais ameaças. Expansão
urbana, ocupação imobiliária, agricultura, pastagens e exploração florestal
reduzem áreas de alimentação e interrompem a continuidade entre ambientes
costeiros e serranos.
Uma pesquisa publicada
em 2013 documentou sua ocorrência em sete localidades do litoral paranaense e
destacou a importância das florestas de terras baixas. O estudo identificou
pressões inclusive nas áreas de proteção ambiental de Guaratuba e Guaraqueçaba.
Isso evidencia que a existência de uma unidade de conservação precisa ser
acompanhada por fiscalização e controle dos usos incompatíveis com a manutenção
da floresta.
Há também mortalidade
associada ao ambiente construído. Em 2020, uma colisão de um bando com uma
janela no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, resultou na morte
de 29 indivíduos. O episódio fundamenta a recomendação de avaliar superfícies
envidraçadas em locais de circulação das aves e adotar medidas preventivas. A
prevenção deve envolver os responsáveis pelas edificações, com identificação
dos pontos de colisão e aplicação de soluções que tornem as barreiras visíveis
às aves.
A espécie está
incluída no Apêndice II da CITES, que submete seu comércio internacional a
controles. A captura ilegal merece vigilância, mas não deve ser
apresentada como principal causa de declínio sem evidências específicas. Sua
reduzida presença em cativeiro tampouco comprova que a criação comercial possa
recuperar as populações naturais. A prioridade demonstrada pelas pesquisas
continua sendo o habitat.
Reservas, instituições e avanços
científicos
A rede de áreas com
ocorrência da espécie inclui os parques nacionais de Itatiaia, Serra dos
Órgãos, Tijuca e Serra da Bocaina, além dos parques estaduais da Serra do Mar,
Ilha do Cardoso, Intervales e Desengano. Essas unidades oferecem núcleos de
habitat, mas registros de presença não comprovam, isoladamente, populações
reprodutivas estáveis.
No Paraná, destacam-se
a Reserva Natural Salto Morato, mantida pela Fundação Grupo Boticário de
Proteção à Natureza, e a Reserva Bicudinho-do-brejo. A Fundação também apoiou
pesquisas de campo que contribuíram para documentar a distribuição da espécie.
Outro exemplo é o
Parque das Neblinas, entre Mogi das Cruzes e Bertioga, administrado pelo
Instituto Ecofuturo. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Zoologia
consolidou duas décadas de informações sobre sua avifauna e incluiu o apuim
entre os registros obtidos num inventário em área do Sesc Bertioga contígua ao
parque. A reserva abrange aproximadamente 7.000 hectares e inclui a RPPN
Ecofuturo, de 518 hectares, criada para reforçar a proteção de florestas
preservadas.
O trabalho associa
pesquisa, observação de aves e gestão de uma paisagem com histórico de
desmatamento e cultivo de eucalipto. A presença do apuim acrescenta valor
conservacionista à região, mas não autoriza afirmar que a espécie já teve sua
população recuperada pela restauração. Para isso, seria necessário
acompanhamento demográfico específico.
A Universidade Federal
do Paraná, a Universidade Estadual Paulista, a Pontifícia Universidade Católica
do Paraná e o Instituto Mater Natura participaram da produção de conhecimento
sobre sua ocorrência no Sul. A revisão de gravações corrigiu uma identificação
equivocada, demonstrando a importância da validação científica dos registros.
Em 2025, uma pesquisa
vinculada à Universidade de São Paulo e à Universidade Federal de São Carlos
analisou material genético dos 29 indivíduos mortos em Guarulhos. Encontrou
diversidade genética maior do que a esperada e ausência de sinais de depressão endogâmica
no grupo, embora tenha identificado declínio histórico do tamanho efetivo
populacional. Os resultados favoreceram a prioridade de conservar e restaurar o
habitat, sem indicar necessidade imediata de manejo genético.
Planejamento público e avaliação dos
resultados
O apuim integra
expressamente o segundo ciclo do Plano de Ação Nacional para a Conservação das
Aves da Mata Atlântica, aprovado pela Portaria ICMBio nº 3.369, de outubro de
2023. O ciclo tem vigência de novembro de 2023 a novembro de 2028 e contempla
114 táxons nacionalmente ameaçados, além de outros incluídos no planejamento.
Coordenado pelo Centro
Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres, o CEMAVE, o plano
prevê proteção, restauração e ampliação de habitats, redução da caça e do
tráfico, controle de espécies exóticas invasoras e manejo com finalidade
conservacionista. Prevê também monitoramento anual, avaliação intermediária e
avaliação final.
Essas diretrizes
fornecem uma estrutura institucional para a cooperação. Contudo, o avanço de um
plano coletivo precisa ser distinguido dos resultados obtidos para cada
espécie. No caso do apuim, é necessário demonstrar quais ações alcançaram suas
áreas de ocorrência, quais ameaças foram reduzidas e se houve melhora na
ocupação e reprodução.
A correção de
identificações, a ampliação da distribuição conhecida e as pesquisas
morfológicas e genéticas constituem avanços científicos comprovados. A
insuficiência permanece na passagem desse conhecimento para séries contínuas de
acompanhamento populacional. Sem elas, não é possível atribuir uma recuperação
a um programa ou interpretar mudanças nas listas de ameaça como sucesso de
manejo.
Prioridades para o futuro imediato
As propostas
divulgadas pela ONG
Greenday incluem levantamento de áreas de alimentação e nidificação e
plantio de Clusia criuva. A entidade
também recomenda acompanhamento dos deslocamentos altitudinais e monitoramento
por anilhamento. São propostas relevantes, mas precisam de planejamento,
autorizações e avaliação; sua divulgação não demonstra que tenham sido
executadas. A oferta de uma única planta não garante crescimento populacional;
a restauração deve considerar diversidade vegetal e disponibilidade de alimento
em diferentes estações.
Uma agenda imediata
deve integrar monitoramento padronizado, proteção das florestas de terras
baixas e manutenção de conexões com as encostas. A seleção de áreas para
restauração deve considerar os locais efetivamente utilizados pelas aves e a
distribuição sazonal dos alimentos, evitando concentrar o investimento apenas
onde a observação é mais fácil.
O acompanhamento de
ninhos deve preservar informações sensíveis e permitir estimar o sucesso
reprodutivo. Para avaliar resultados, programas de conservação precisam
acompanhar ocupação das áreas, sobrevivência, reprodução e qualidade do
habitat. Financiamento contínuo e cooperação entre órgãos ambientais,
universidades, ONGs e proprietários de reservas são necessários para
transformar registros dispersos em proteção verificável.
Fontes: CORNELL LAB OF ORNITHOLOGY, WORLD PARROT TRUST, COTINGA,JOURNAL OF THREATENED TAXA, ZOOLOGIA, Birdlife InternationalMinistério do Meio Ambiente e Mudança do Clima,, ICMBIO, Iheringia, série zoologia, Diversity,Ornithological Applications , Fundação Grupo Boticário, Inaturalist, Wikiaves, Ebird, Greenday, Birds of the World, UNESP
Fotos: apuim-de-costas-pretas_by Dario Sanches, segunda foto: _by Gabriel Bonfá e terceira foto:_by Robison Araújo Silva.jpeg


