O colobo-do-Congo e a urgência de proteger uma espécie recém-descoberta


 O colobo-do-Congo (Colobus congoensis), conhecido pelas comunidades locais como likweli, é uma espécie de primata identificada em uma área restrita das florestas tropicais do centro-leste da República Democrática do Congo. Sua descrição científica, publicada na revista PlosONe em julho de 2026, ampliou para sete o número de espécies reconhecidas no gênero Colobus e confirmou que a Bacia do Congo ainda abriga uma biodiversidade pouco conhecida pela ciência.

A descoberta também produziu um alerta imediato. Embora a espécie tenha sido formalmente reconhecida apenas recentemente, sua pequena distribuição, a baixa frequência de avistamentos e a crescente pressão humana sobre seu habitat indicam que ela já enfrenta risco de extinção. Sua conservação dependerá da proteção efetiva do Parque Nacional de Lomami, do fortalecimento das instituições congolesas e da participação das comunidades que vivem ao redor da área protegida.

Uma identificação construída ao longo de quase duas décadas

Os primeiros indícios da existência do colobo-do-Congo surgiram em 2008, quando pesquisadores fotografaram um macaco desconhecido na copa das árvores da região de Lomami. A imagem, parcialmente encoberta pela vegetação, não permitiu determinar se o animal representava uma espécie distinta ou uma variação de outro colobo já conhecido.

Somente em 2018 foram obtidas fotografias suficientemente nítidas para revelar características incomuns. O animal apresentava pelagem predominantemente preta e uma mancha de pele nua, de coloração rosada a creme-alaranjada, ao redor da boca, do filtro labial e da parte inferior das narinas. Novos levantamentos realizados entre 2018 e 2022 reuniram observações de campo, registros acústicos, dados genéticos e informações anatômicas.

A pesquisa também utilizou coleções de museus para comparar crânios, dentes, esqueletos e peles com os de outras espécies africanas. As diferentes linhas de evidência demonstraram que não se tratava apenas de uma população isolada, mas de uma linhagem evolutiva própria. As análises genéticas indicaram que seu parente mais próximo é o colobo-preto, Colobus satanas, encontrado a mais de 1.200 quilômetros de distância. As duas espécies teriam se separado há aproximadamente 4 a 5 milhões de anos.

Características físicas e comportamento

O colobo-do-Congo é menor do que os demais representantes conhecidos do gênero. Seu peso corporal é estimado em cerca de sete quilogramas. Possui cauda longa, pelagem preta lisa e brilhante e pelos mais compridos na parte superior dos ombros e das costas, formando em alguns indivíduos uma aparência semelhante a uma pequena capa.

A mancha clara ao redor da boca constitui sua característica externa mais evidente. O restante do rosto é escuro, com áreas acinzentadas ao redor dos olhos, das maçãs do rosto e das têmporas. As orelhas são grandes, pretas e dobradas nas bordas. Machos e fêmeas apresentam uma mancha branca ao redor do ânus, mais extensa e sem pelos nas fêmeas e parcialmente coberta por pelos finos nos machos.

A espécie é arborícola e passa a maior parte do tempo nas camadas superiores da floresta. Os grupos observados continham, em média, pouco mais de seis indivíduos. Em diversas ocasiões, o likweli deslocava-se ao lado de outras espécies de primatas, entre elas o colobo-vermelho-de-Parmentier e o colobo-de-Angola.

Seu comportamento silencioso e discreto ajuda a explicar por que permaneceu desconhecido durante tanto tempo. Quando percebe a presença humana, o grupo tende a subir para as partes mais elevadas das árvores, onde permanece observando. A espécie também emite rugidos profundos, ouvidos principalmente ao amanhecer. A sequência, a frequência e a presença de um som semelhante a um grunhido entre os rugidos permitem diferenciá-la de outros colobos.

Uma distribuição extremamente limitada

A distribuição conhecida do colobo-do-Congo ocupa aproximadamente 1.700 quilômetros quadrados, entre os rios Lomami e Lilo, nas províncias de Tshopo e Maniema. A maior parte dessa área encontra-se no Parque Nacional de Lomami e em sua zona de amortecimento.

A espécie vive principalmente em florestas altas, antigas e de dossel fechado, desenvolvidas sobre solos argilosos profundos. Também utiliza ilhas de floresta de terra firme cercadas por áreas sujeitas a inundações sazonais. A dependência de formações florestais específicas restringe ainda mais o habitat efetivamente disponível.

O rio Lomami, com largura superior a 200 metros em vários trechos, forma uma barreira natural que impede a dispersão para o oeste. No limite oriental, o rio Lilo é mais estreito, mas está associado a terrenos arenosos, pobres em nutrientes e periodicamente inundados. Essas condições produzem uma vegetação diferente daquela utilizada pelo primata e podem funcionar como uma barreira ecológica.

A distribuição conhecida não significa que a espécie esteja presente de maneira uniforme em toda a área. Das 114 detecções realizadas entre 2018 e 2022, 104 ocorreram em florestas localizadas a menos de dez quilômetros do rio Lomami. A concentração dos registros em uma faixa estreita demonstra que a área efetivamente ocupada pode ser consideravelmente menor que os 1.700 quilômetros quadrados delimitados pelos levantamentos.

Quantos colobos-do-Congo ainda existem

Ainda não existe uma estimativa científica confiável do número total de exemplares. Os 114 registros divulgados não correspondem necessariamente a 114 animais diferentes, pois um mesmo grupo pode ter sido observado em mais de uma patrulha ou levantamento.

As pesquisas registraram grupos com média de 6,2 indivíduos, mas os dados disponíveis são insuficientes para calcular a densidade populacional em toda a área. A espécie apareceu em apenas 20 das 76 quadrículas percorridas por patrulhas e em dez dos 351 levantamentos realizados para registrar vocalizações ao amanhecer. Em mais de 3.000 quilômetros de patrulhamento terrestre, a taxa média foi de apenas uma detecção a cada cem quilômetros.

Esses resultados permitem afirmar que a população é pequena e localizada, mas não determinar se restam centenas ou alguns milhares de indivíduos. A realização de novos censos, com métodos padronizados, monitoramento acústico, armadilhas fotográficas e identificação dos grupos, deverá ser uma das prioridades imediatas. Qualquer número populacional apresentado antes desses estudos seria apenas especulativo.

Caça, desmatamento e ocupação humana

O isolamento natural que contribuiu para a evolução da espécie também aumenta sua vulnerabilidade. Uma população restrita a uma pequena região pode sofrer perdas significativas mesmo quando as alterações ambientais atingem áreas relativamente reduzidas.

A caça constitui uma ameaça direta. Em 2021, agentes do Instituto Congolês para a Conservação da Natureza apreenderam três exemplares mortos na zona de amortecimento do Parque Nacional de Lomami. O episódio demonstrou que a espécie pode ser abatida, mesmo quando não é o alvo principal das expedições de caça.

A zona de amortecimento reúne comunidades cuja subsistência depende, em diferentes proporções, da agricultura itinerante, da pesca e da caça. O crescimento dos povoados, a abertura de áreas agrícolas e a procura por carne silvestre podem aumentar a pressão sobre as florestas de terra firme utilizadas pelo primata. Entre 2015 e 2023, pelo menos 15 novos povoados foram estabelecidos dentro ou nas proximidades de sua área de distribuição.

A perda das florestas altas e antigas representa um risco especialmente grave porque o likweli parece pouco adaptável a ambientes degradados. A fragmentação pode separar grupos já pequenos, reduzir a disponibilidade de alimento e impedir o deslocamento entre as áreas adequadas.

Instituições locais no centro da descoberta

A identificação do colobo-do-Congo resultou de uma cooperação internacional, mas teve participação decisiva de instituições, agentes e pesquisadores congoleses. As patrulhas do Parque Nacional de Lomami, os exploradores naturalistas locais e o Instituto Congolês para a Conservação da Natureza realizaram grande parte do trabalho de campo, percorrendo milhares de quilômetros de floresta e reconhecendo características que diferenciavam o animal dos demais primatas.

Toda a pesquisa foi conduzida com autorização do Instituto Congolês para a Conservação da Natureza, órgão governamental responsável pela administração das áreas protegidas do país. A instituição também participou das apreensões de animais caçados e da incorporação dos registros às pesquisas científicas.

A Fundação de Pesquisa da Vida Selvagem de Lukuru mantém atividades de investigação e conservação na paisagem de Lomami e participou dos levantamentos que confirmaram a espécie. A Sociedade Zoológica de Frankfurt apoiou patrulhas, documentação e proteção do parque. Universidades, museus, fundações e organizações internacionais contribuíram com análises genéticas, anatômicas e acústicas, além de recursos financeiros para os trabalhos de campo.

O conhecimento das comunidades Balanga e Mituku também foi incorporado ao estudo. O nome likweli é utilizado por moradores Balanga, enquanto comunidades Mituku o chamam de kasaba nkoni, expressão que significa “aquele que sacode os galhos”. Apenas oito das 52 aldeias consultadas conheciam o animal e conseguiam descrevê-lo corretamente, o que confirma sua raridade e seu comportamento discreto.

Prioridades para a conservação imediata

Os pesquisadores recomendaram provisoriamente a classificação do colobo-do-Congo como espécie Em Perigo. A avaliação considera sua distribuição reduzida, a provável pequena população, a dependência de florestas preservadas e a expectativa de aumento da caça e da conversão do habitat. A classificação ainda deverá passar pelos procedimentos formais da União Internacional para a Conservação da Natureza.

A proteção do Parque Nacional de Lomami constitui a medida mais importante para sua sobrevivência. Isso exige patrulhamento permanente, condições adequadas de trabalho para os agentes congoleses, controle da caça e acompanhamento das mudanças no uso do solo. A vigilância precisa alcançar também a zona de amortecimento, onde a ocupação humana e a abertura de áreas agrícolas avançam com maior intensidade.

A cooperação com as comunidades deverá combinar educação ambiental, participação no monitoramento, alternativas econômicas e regras claras para reduzir a caça. Proibir atividades sem oferecer condições de subsistência tende a produzir resultados limitados. Moradores treinados podem colaborar no registro de grupos, na localização de áreas de reprodução e na identificação de mudanças na presença da espécie.

Também será necessário realizar um censo populacional, estudar sua alimentação e reprodução, delimitar com maior precisão a área ocupada e estabelecer indicadores de longo prazo. A descoberta do colobo-do-Congo representou um importante avanço científico, mas sua verdadeira importância dependerá da capacidade de transformar o conhecimento recém-adquirido em proteção concreta. A espécie foi reconhecida antes de desaparecer, porém ainda é necessário garantir que sua descrição científica não se converta apenas no registro de uma biodiversidade perdida.

Fontes: Science, Plos One, Washington Post, Discover Magazine, Nova Taxa, New Scientist, CNN, YALE News, Down to Earth, Florida Atlantic University

Fotos: Colobo-do-Congo_by Daniel Rosengreen; segunda foto: _by Bravo Bofenda; terceira foto:_by Daniel Rosengreen.