Tiriba-do-Paranã e a luta pela sua conservação nas matas secas do Cerrado


A tiriba-do-paranã (Pyrrhura pfrimeri) é uma das aves mais ameaçadas e menos conhecidas do Cerrado brasileiro. Sua ocorrência está limitada às matas secas associadas aos afloramentos calcários da bacia do rio Paranã, entre o nordeste de Goiás e o sudeste do Tocantins. Essa distribuição reduzida torna a espécie particularmente vulnerável à destruição e à fragmentação de seu habitat. A transformação acelerada da paisagem regional provocou uma diminuição populacional expressiva nas últimas décadas e colocou a ave na categoria Em Perigo de extinção (EN).

Uma espécie exclusiva das matas secas do Cerrado

A tiriba-do-paranã pertence à família Psittacidae, que reúne papagaios, periquitos, araras e outras tiribas. Também conhecida regionalmente como tiriba-de-pfrimer, ciganinha, chiriri, barreirinha e periquito-do-morro, mede aproximadamente 22 centímetros de comprimento e está entre as menores espécies do gênero Pyrrhura. Sua plumagem combina coroa azulada, face castanha e arroxeada, dorso verde, partes inferiores avermelhadas e asas com tonalidades verdes, vermelhas e azuis.

A espécie é endêmica do Brasil e não realiza migrações sazonais. Sua distribuição acompanha uma estreita faixa de florestas estacionais deciduais e semideciduais, conhecida como mata seca, paralela à Serra Geral. Essa faixa estende-se por aproximadamente 300 quilômetros no sentido norte-sul, mas geralmente não ultrapassa 60 quilômetros de largura. A ave ocorre principalmente em altitudes inferiores a 700 metros, em florestas estabelecidas sobre afloramentos de calcário ou solos formados a partir dessas rochas.

As matas secas apresentam dossel relativamente fechado, sub-bosque com cipós e presença de cactáceas em áreas alteradas. Durante o período de estiagem, grande parte das árvores perde as folhas, característica que diferencia essa formação de outras paisagens florestais do Cerrado. A relação da tiriba com esse ambiente é bastante estreita. Em geral, os bandos permanecem a menos de 500 metros das bordas florestais próximas aos maciços calcários, embora alguns registros demonstrem que a espécie pode atravessar áreas abertas para alcançar fragmentos mais preservados.

Alimentação, comportamento e importância ecológica

A tiriba-do-paranã vive em grupos que normalmente reúnem até dez aves, mas concentrações maiores podem ocorrer em determinadas épocas. Os bandos são facilmente percebidos durante o voo por suas vocalizações intensas. Quando repousam ou procuram alimento entre as copas das árvores, entretanto, tornam-se menos visíveis e mais silenciosos.

Sua alimentação inclui flores, frutos e sementes de mais de 20 espécies vegetais. Aroeira, angico, tarumã e vaqueta estão entre as plantas utilizadas ao longo do ano. Em paisagens modificadas, a ave também visita pomares e consome frutos cultivados, como manga e goiaba. Essa capacidade de aproveitar alguns recursos presentes em ambientes alterados representa uma adaptação importante, mas não elimina sua dependência das matas secas.

Ao transportar e eliminar sementes em diferentes pontos da floresta, a tiriba participa da regeneração da vegetação e da manutenção da diversidade vegetal. Sua proteção beneficia, portanto, outras espécies associadas às matas secas e aos ambientes calcários, incluindo aves, mamíferos, plantas e animais que vivem em cavernas. Também foi observado o consumo de solo e minerais em barrancos, margens de córregos e paredões de calcário, comportamento conhecido como geofagia. Ainda existem importantes lacunas sobre sua reprodução, seus locais de nidificação e seus deslocamentos, o que reforça a necessidade de pesquisas continuadas.

Um declínio populacional acelerado

As estimativas disponíveis indicam que a população total atual provavelmente se encontra entre 18 mil e 30 mil indivíduos, dos quais aproximadamente 12 mil a 20 mil seriam adultos reprodutivos. Embora os levantamentos apresentem variações decorrentes das diferentes metodologias empregadas, todos demonstram uma redução muito acentuada.

Na década de 1990, algumas estimativas apontavam a existência de mais de 160 mil indivíduos, podendo a população histórica ter ultrapassado 200 mil aves. Levantamentos posteriores encontraram contingentes muito menores. A substituição de bandos formados por centenas de tiribas por grupos de 20 ou 30 aves também foi percebida pelas comunidades locais. A comparação entre os estudos indica que a população pode ter diminuído entre 70% e 90% em poucas décadas.

A tiriba-do-paranã é classificada como Em Perigo tanto na avaliação brasileira quanto na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. A tendência populacional continua sendo de declínio, impulsionada pela redução da extensão, da continuidade e da qualidade de seu habitat.

A destruição e a fragmentação do habitat

O desmatamento das matas secas constitui a principal ameaça à sobrevivência da espécie. A expansão de pastagens e lavouras, a retirada seletiva de madeira, sobretudo da aroeira, e o uso recorrente do fogo eliminaram grande parte da vegetação original. Em Goiás, a participação da mata seca na cobertura vegetal regional caiu de 15,8% em 1990 para 5,8% em 1999. Entre os remanescentes identificados naquele período, menos de 1% possuía área superior a 100 hectares.

As florestas situadas em áreas planas são mais facilmente convertidas para atividades agropecuárias. Por essa razão, os remanescentes mais conservados concentram-se nas escarpas, serras e terrenos rochosos de difícil ocupação. Mesmo nesses locais, a espécie enfrenta a mineração de calcário e fosfato, incêndios florestais e intervenções destinadas à instalação de pequenas centrais hidrelétricas. A inundação de vales e formações calcárias pode eliminar áreas de alimentação, repouso e reprodução, enquanto a sequência de vários empreendimentos em uma mesma bacia amplia os impactos acumulados.

A expansão agrícola também provoca conflitos com proprietários rurais. Ao procurar alimento em plantações de arroz e milho, algumas tiribas são perseguidas como pragas. A captura para o comércio ilegal ocorre em menor escala do que entre outros psitacídeos, mas representa uma pressão adicional sobre uma população já reduzida.

Áreas protegidas com proteção ainda insuficiente

O Parque Estadual de Terra Ronca, no nordeste de Goiás, representa o principal refúgio da tiriba-do-paranã. A região abriga extensas formações calcárias, cavernas e fragmentos de mata seca essenciais à espécie. Entretanto, a proteção estabelecida legalmente não se converteu integralmente em proteção efetiva. A regularização fundiária incompleta, a presença de gado e outros usos conflitantes dentro dos limites do parque reduzem sua capacidade de conservar o habitat.

Estudos de campo e registros em plataformas de ciência cidadã identificaram a espécie em cinco unidades de conservação com diferentes graus de proteção. Além do Parque Estadual de Terra Ronca, ela ocorre na Floresta Nacional Mata Grande, na Área de Proteção Ambiental das Nascentes do Rio Vermelho e na Área de Proteção Ambiental Vale do Rio Manso, em Goiás, e na Reserva Particular do Patrimônio Natural Aurora Natura, no Tocantins. A Reserva Extrativista Recanto das Araras de Terra Ronca também protege ambientes utilizados pela ave e amplia a participação das comunidades locais na conservação da paisagem.

As áreas de proteção ambiental admitem atividades econômicas e ocupações humanas, o que torna indispensáveis a fiscalização, o ordenamento territorial e o controle do desmatamento. A simples inclusão de uma área nos limites de uma unidade de conservação não assegura a integridade da mata seca quando faltam regularização fundiária, recursos financeiros, equipes permanentes e planos de manejo efetivamente executados.

Pesquisa, cooperação institucional e medidas imediatas

Criado em 2012, o Projeto Tiriba-do-Paranã contribuiu para reduzir a escassez de informações sobre a espécie. Desenvolvida inicialmente com o apoio do Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Aves da Universidade Federal do Tocantins, a iniciativa realizou levantamentos sobre distribuição, alimentação e utilização do habitat. Uma nova etapa iniciada em 2019 ampliou as buscas para áreas situadas além dos locais onde a ave era habitualmente registrada.

A Universidade Federal do Tocantins teve papel central na produção de conhecimento científico e na organização das expedições. A continuidade das atividades contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, da American Bird Conservancy e do Neotropical Bird Club. Em diferentes fases, a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza também contribuíram para o projeto. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade participa da gestão de unidades federais e do planejamento de ações para aves ameaçadas do Cerrado, enquanto órgãos estaduais são responsáveis por áreas protegidas importantes em Goiás e no Tocantins.

A conservação imediata da tiriba depende da regularização e da gestão efetiva das unidades existentes, da restauração de corredores entre fragmentos e da criação de novas áreas protegidas. As propostas do Parque Estadual Serra da Prata, do Parque Estadual de Aurora e do Parque Estadual Vale do Rio Palmeiras ampliariam de maneira considerável a proteção da espécie. A criação de reservas particulares, refúgios de vida silvestre e monumentos naturais também permitiria resguardar fragmentos menores, cavernas, paredões calcários e rotas de deslocamento.

Essas medidas precisam ser acompanhadas pelo monitoramento periódico da população, pelo controle do fogo, pela fiscalização da mineração e do desmatamento e pela aproximação com moradores e produtores rurais. A valorização dos nomes populares e do conhecimento das comunidades favorece o reconhecimento da tiriba como patrimônio regional. Sem a proteção integrada das matas secas, dos afloramentos calcários e dos recursos hídricos do Vão do Paranã, as iniciativas isoladas permanecerão insuficientes para interromper seu declínio.

Fontes: Ecoa, Wiki Aves, Zoo DF, EBird, Revista de Ciências Ambientais, Inaturalist, DataZone BirdLife,  SAVE/ICMBio,  O Eco


Fotos: Tiriba-do-paranã_by  Daniel Branch; segunda foto: _Ester Ramirez;terceira foto:_ by Karina Avila; quarta foto:_by Lucas Ninno; quinta foto: _ by Eduardo Borges