Descoberta do Leopardus tilcayo amplia a diversidade dos felinos sul-americanos


A divulgação científica internacional de 17 de setembro de 2026 anunciou a identificação de Leopardus tilcayo, pequeno felino encontrado nas florestas montanhosas da Bolívia. Trata-se da primeira espécie vivente da família Felidae inteiramente nova para a ciência a ser formalmente descrita em mais de um século. O reconhecimento não decorreu apenas de diferenças na aparência do animal, mas de uma investigação iniciada dez anos antes, que combinou observações de campo, conhecimentos das comunidades locais, amostras biológicas, exemplares preservados em museus e análises genômicas. Publicado na revista Current Biology, o estudo modificou a classificação dos gatos-do-mato-pequenos sul-americanos e revelou que a diversidade do grupo era muito maior do que indicavam as classificações tradicionais.

Um felino conhecido pelas comunidades e desconhecido pela ciência

A história científica do tilcayo começou em 2016, quando um morador encontrou um filhote próximo a uma estrada, nas proximidades de uma floresta da região boliviana dos Yungas. Por sua reduzida dimensão, ele foi inicialmente confundido com um gato doméstico e permaneceu durante aproximadamente um ano com uma família. O comportamento do animal, entretanto, demonstrou que se tratava de um felino silvestre. Ele foi então encaminhado ao Refúgio de Animais Senda Verde, instituição localizada na região subtropical do departamento de La Paz.

O episódio evidencia a importância das organizações de resgate de fauna para a produção de conhecimento científico. Sem a entrega voluntária e o acolhimento pelo Senda Verde, provavelmente o animal não teria sido examinado por especialistas. O refúgio passou a manter sob cuidados humanos o único exemplar conhecido da espécie em cativeiro protegido, um macho que, em 2026, tinha aproximadamente dez anos.

A bióloga boliviana Paola Nogales-Ascarrunz, pesquisadora da National Geographic Society e fundadora do Programa de Investigación de Félidos Bolivia (PIF Bolivia), foi chamada para observar o animal. Ela registrou extensamente suas características, mas inicialmente considerou que poderia ser um exemplar incomum de Leopardus tigrinus, denominação então utilizada para diferentes populações de gatos-do-mato-pequenos distribuídas pela América Central e pela América do Sul.

Em 2019, durante a preparação de uma publicação sobre os felinos bolivianos, as diferenças tornaram-se mais evidentes. O gato dos Yungas apresentava padrão de pelagem, dimensões e proporções que não correspondiam adequadamente às referências disponíveis, baseadas sobretudo em animais brasileiros. As rosetas eram maiores e mais irregulares, a cabeça parecia mais curta, as orelhas eram pequenas e arredondadas e a cauda mostrava-se relativamente fina. Surgiu então a pergunta científica que orientaria os anos seguintes de investigação: qual gato-do-mato realmente habitava as florestas bolivianas?


Uma descoberta construída durante dez anos

O esclarecimento exigiu uma articulação internacional. Paola Nogales-Ascarrunz forneceu o conhecimento de campo e o acompanhamento dos exemplares bolivianos. O brasileiro Eduardo Eizirik, geneticista e biólogo evolutivo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), coordenou parte decisiva das análises evolutivas e taxonômicas. A investigação contou ainda com a liderança de Jonas Lescroart, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, e com pesquisadores de diferentes instituições da Bolívia, Brasil, Bélgica, Estados Unidos, Peru e outros países.

O artigo “Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America”, publicado em 17 de setembro de 2026 na revista científica Current Biology, analisou o genoma de 38 felinos do gênero Leopardus. Desse conjunto, 26 pertenciam ao complexo dos chamados gatos-tigre, grupo de espécies muito semelhantes externamente e, por isso, consideradas crípticas. A expressão indica animais cuja diferenciação não pode ser realizada com segurança apenas pela aparência.

A pesquisa empregou a filogenômica, que compara grandes porções do genoma para reconstruir relações evolutivas, e a museômica, aplicação de técnicas genéticas a materiais antigos preservados em coleções científicas. Oito exemplares analisados provinham de museus. Esses acervos permitiram incorporar amostras de localidades raramente estudadas, inclusive das Guianas, região onde o Leopardus tigrinus havia sido originalmente descrito, em 1775.

Os resultados demonstraram que populações tratadas historicamente como uma ou duas espécies representavam cinco linhagens distintas. Além de reconhecer Leopardus tilcayo, o estudo confirmou a separação entre Leopardus tigrinus, Leopardus guttulus, Leopardus emiliae e Leopardus pardinoides. Também propôs para as Yungas peruanas uma nova subespécie, denominada Leopardus tigrinus antisuyo.

As análises indicaram que a linhagem do tilcayo se separou dos outros gatos-tigre há cerca de 1,4 milhão de anos. A distância evolutiva e a diferenciação genética sustentaram seu reconhecimento como espécie. O estudo também identificou sinais antigos de intercâmbio genético com Leopardus geoffroyi, o gato-do-mato-grande. Essa hibridação histórica não elimina a autonomia evolutiva do tilcayo, mas demonstra que a formação das espécies sul-americanas ocorreu por processos mais complexos do que uma separação absoluta entre populações.

Características de um dos menores felinos sul-americanos

O Leopardus tilcayo pertence ao mesmo gênero da jaguatirica, do gato-maracajá e de outros pequenos felinos americanos, apesar de o nome Leopardus não significar que esses animais sejam leopardos. Os leopardos propriamente ditos pertencem ao gênero Panthera e não ocorrem naturalmente nas Américas.

O tilcayo mede aproximadamente 45 ou 46 centímetros da cabeça ao final do corpo, aos quais se somam cerca de 25 centímetros de cauda. Seu peso registrado é de aproximadamente 1,4 quilograma, inferior ao da maioria dos gatos domésticos adultos. A pelagem apresenta tonalidade castanho-clara, com grandes rosetas de cor marrom-escura ou negra, geralmente abertas ou parcialmente fechadas. As marcas não se unem em faixas contínuas, característica que contribui para diferenciá-lo de espécies próximas.

A cabeça é pequena, com focinho curto, olhos proporcionalmente grandes, orelhas arredondadas e longas vibrissas. A combinação entre dimensões, padrão de manchas, formato do crânio e proporções corporais oferece elementos diagnósticos, mas a confirmação da espécie dependeu principalmente dos dados genéticos.

Quase nada se conhece sobre sua reprodução, longevidade na natureza, território, densidade populacional ou relações com outros predadores. Restos encontrados em amostras fecais sugerem que pequenos roedores fazem parte de sua alimentação. Os poucos registros obtidos por câmeras automáticas indicam atividade predominantemente noturna. Essas informações ainda são preliminares e não permitem construir um perfil ecológico completo.

Os Yungas e a distribuição ainda desconhecida

Os registros confirmados situam o tilcayo nas Yungas bolivianas, conjunto de florestas úmidas distribuídas pelas encostas orientais dos Andes. A região funciona como uma zona de transição entre as montanhas andinas e as terras baixas amazônicas. A combinação de altitude, elevada umidade, relevo acidentado e isolamento entre vales favoreceu a formação de numerosos endemismos, isto é, espécies com distribuição geográfica limitada.

Um dos registros associados à descrição científica situa-se nas proximidades de Arapata, na província de Nor Yungas, departamento de La Paz, a cerca de 1.570 metros de altitude. Contudo, a ciência dispõe apenas de dois indivíduos examinados vivos e de um pequeno número de registros por câmeras automáticas. Não existe, até setembro de 2026, estimativa confiável da população total, e seria inadequado converter esse reduzido número de observações em quantidade aproximada de animais na natureza.

Também não está demonstrado que a espécie ocorra em alguma unidade de conservação específica. As Yungas abrangem ou se conectam a importantes espaços protegidos, como o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Cotapata, o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Madidi e a Área Natural de Manejo Integrado Nacional Apolobamba. Cotapata possui especial relevância geográfica porque protege florestas de Nor Yungas, região onde a presença do felino foi registrada. Isso, porém, não permite afirmar que exista uma população confirmada dentro de seus limites.

O primeiro levantamento necessário consiste justamente em verificar se o tilcayo alcança essas áreas protegidas e se existem corredores florestais entre os locais de ocorrência. A eventual presença em Cotapata ou em outras unidades aumentaria as possibilidades de proteção institucional, mas não eliminaria a necessidade de conservar remanescentes florestais situados fora dos parques.

Instituições que tornaram possível o reconhecimento

A descoberta demonstra que a descrição de uma espécie pode depender de uma rede formada por comunidades, refúgios de fauna, universidades, museus e organizações de conservação. O conhecimento local teve papel inicial decisivo. O nome tilcayo não foi criado pelos pesquisadores, pois já era empregado pelos habitantes dos Yungas e transmitido entre gerações. Ao incorporar essa denominação ao nome científico, o estudo reconheceu que o animal não era desconhecido pelas populações da região, embora ainda não tivesse sido individualizado pela taxonomia.

O Programa de Investigación de Félidos Bolivia transformou as primeiras observações em uma investigação sistemática e iniciou a instalação de câmeras automáticas para localizar outros indivíduos. O Refúgio de Animais Senda Verde assegurou a sobrevivência e o acompanhamento do exemplar resgatado. A National Geographic Society apoiou a pesquisa, a documentação e a divulgação internacional da descoberta. A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul contribuiu com sua experiência em genética evolutiva de felinos, enquanto a Universidade de Antuérpia participou da análise filogenômica.

As coleções de história natural também foram fundamentais. Materiais preservados durante décadas, alguns originalmente classificados de maneira incorreta, puderam ser reexaminados com tecnologias inexistentes na época de sua coleta. O trabalho confirma que museus não são depósitos passivos de exemplares, mas infraestruturas científicas indispensáveis para compreender a biodiversidade e suas transformações.

O estudo foi encaminhado à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), responsável pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Até então, as avaliações internacionais reconheciam apenas duas espécies principais de gatos-tigre, ambas classificadas como vulneráveis e com populações em declínio. A divisão desse conjunto em cinco espécies obrigará a avaliar separadamente a distribuição, o tamanho populacional e as ameaças enfrentadas por cada linhagem.

Reconhecer uma espécie muda a avaliação do risco

Quando diferentes populações são agrupadas sob um único nome, a distribuição total parece ampla e o risco de extinção pode ser subestimado. O reconhecimento de espécies com áreas menores revela uma situação diferente. Uma linhagem restrita aos Yungas bolivianos pode estar muito mais ameaçada do que sugeriam as avaliações realizadas para um gato-do-mato supostamente distribuído por grande parte do continente.

A situação do tilcayo exige especial atenção porque seu ambiente está entre os ecossistemas mais pressionados da Bolívia. As florestas dos Yungas sofrem perda e fragmentação em razão da expansão agrícola, abertura de estradas, incêndios provocados por atividades humanas e mineração. A substituição da vegetação nativa reduz locais de abrigo e reprodução, limita a circulação entre vales e diminui a disponibilidade de presas.

Outras ameaças precisam ser investigadas. Pequenos felinos podem ser perseguidos ao se aproximarem de galinheiros, atropelados em estradas, capturados pelo tráfico de fauna ou expostos a doenças transmitidas por gatos e cães domésticos. A proximidade entre assentamentos humanos, áreas produtivas e remanescentes florestais torna necessária uma estratégia que envolva moradores, autoridades ambientais e organizações locais.

Não existe ainda uma categoria oficial de ameaça para Leopardus tilcayo. A hipótese de que venha a ser considerado ameaçado ou até em perigo é plausível, mas dependerá de levantamentos sobre extensão de ocorrência, área efetivamente ocupada, fragmentação do habitat, número de populações e tendência demográfica.

Prioridades para impedir uma extinção silenciosa

A medida mais urgente é realizar um inventário direcionado nas Yungas bolivianas. Uma rede de câmeras automáticas deverá abranger diferentes altitudes, vales, fragmentos florestais e unidades de conservação. A identificação visual precisa ser acompanhada, quando possível, por análises não invasivas de pelos e fezes, pois espécies crípticas podem ser confundidas nas imagens.

O Serviço Nacional de Áreas Protegidas da Bolívia (SERNAP), governos locais, universidades bolivianas, o Programa de Investigación de Félidos Bolivia e organizações de conservação podem articular um programa específico de monitoramento. A participação das comunidades será essencial para localizar registros, reduzir conflitos com criações domésticas e documentar os nomes e conhecimentos associados ao animal.

Também é necessário confirmar sua presença no Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Cotapata e em outros espaços protegidos dos Yungas. Caso as populações conhecidas estejam predominantemente fora dessas áreas, deverão ser estabelecidos corredores ecológicos, reservas comunitárias ou outras formas de proteção territorial. A conservação não pode esperar pela obtenção de uma contagem completa, porque a fragmentação pode eliminar populações antes mesmo que elas sejam registradas.

A restauração de trechos atingidos por incêndios, a manutenção de conexões entre fragmentos, o controle da mineração e a prevenção de novos desmatamentos constituem medidas imediatas. Programas sanitários para cães e gatos nas comunidades próximas também podem reduzir o risco de transmissão de doenças aos felinos silvestres.

O reconhecimento científico do tilcayo ocorreu depois de dez anos de investigação, mas a janela disponível para protegê-lo pode ser muito menor. A descoberta ampliou o conhecimento sobre a evolução dos felinos sul-americanos e, ao mesmo tempo, revelou uma responsabilidade concreta. A ciência demonstrou que existe nas montanhas bolivianas uma linhagem independente há aproximadamente 1,4 milhão de anos. O próximo passo consiste em determinar onde ela ainda sobrevive e assegurar que seu reconhecimento não seja seguido pelo desaparecimento.

Fontes: NATIONAL GEOGRAPHIC, REUTERS, LIVE SCIENCE, EL PAÍS, CADENA SER, BIOBIOCHILE, LA PATRIA, RADIO KOLLASUYO, FOLHA DE S.PAULO, UOL, G1Globo, BBC WILDLIFE MAGAZINE, New York Times, SCI News. Opinion 

Fotos: Leopardus-tilcayo_by  Paola Nogales Ascarrunz (fotos 1,2 e 3); fotos 4 e 5 by Fernando Faciole e foto 6 by Alessandro Verniani