O último refúgio da borboleta Actinote zikani na Mata Atlântica


 Actinote zikani é uma das borboletas mais raras e ameaçadas do mundo. Endêmica da Mata Atlântica brasileira, sobrevive em uma área extremamente reduzida da Serra do Mar, no estado de São Paulo. Sua trajetória reúne um desaparecimento de quase meio século, a redescoberta em 1991 e mais de três décadas de pesquisas que revelaram uma espécie dependente de condições ambientais muito específicas. A existência de uma única população conhecida, submetida a fortes oscilações e cercada por pressões urbanas e industriais, coloca sua sobrevivência na dependência direta da proteção e do manejo adequado de seu último refúgio.

Uma espécie desaparecida durante quase meio século

Os primeiros exemplares conhecidos foram coletados entre 1941 e 1942 na Estação Biológica de Boraceia e no chamado Alto da Serra de Santos. A espécie foi descrita cientificamente em 1951, com base em dez exemplares de Boraceia e um macho proveniente do Alto da Serra. Depois dessas coletas, porém, a borboleta deixou de ser encontrada, apesar das buscas realizadas em diferentes pontos da Serra do Mar.

A ausência prolongada levou à hipótese de que a espécie estivesse extinta. Entre as possíveis causas estavam a poluição produzida pelo polo industrial de Cubatão, a derrubada de florestas para a implantação de plantações de eucalipto e as alterações climáticas observadas na região. A situação começou a mudar em março de 1991, quando Actinote zikani foi redescoberta nas montanhas próximas à vila de Paranapiacaba, no município de Santo André, após 49 anos sem registros confirmados.

O reencontro permitiu iniciar um programa intensivo de pesquisas entre 1991 e 1994. A área continuou a ser visitada nos anos seguintes, embora nem sempre com a mesma regularidade. Esse acompanhamento forneceu informações sobre o ciclo de vida, o comportamento, as épocas de voo, a planta hospedeira e as oscilações da população.

Distribuição limitada ao alto da Serra do Mar

A distribuição atual confirmada está restrita ao Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba e às suas proximidades, em uma faixa percorrida por trilhas no alto da Serra do Mar. Os registros concentram-se principalmente na trilha Bela Vista, em um trecho de aproximadamente 1,5 quilômetro, embora alguns indivíduos tenham sido avistados na trilha da Pontinha e na estrada de Paranapiacaba.

A área de ocupação reconhecida na avaliação mais recente corresponde a aproximadamente 16 quilômetros quadrados. Registros históricos indicam a presença da espécie em Boraceia e no Alto da Serra, mas as antigas subpopulações não foram reencontradas desde o início da década de 1990, mesmo após repetidos esforços de procura.

A borboleta habita a Floresta Ombrófila Densa Montana, geralmente entre 900 e 1.200 metros de altitude. O ambiente apresenta elevada umidade, chuvas abundantes, temperaturas moderadas e neblina frequente. Essa combinação cria um microclima que diferencia o topo da serra das áreas mais baixas e ajuda a explicar por que a espécie não foi encontrada em outros locais aparentemente semelhantes.

Uma borboleta adaptada ao frio e à neblina

A coloração escura de Actinote zikani favorece a absorção de calor e permite que os adultos iniciem suas atividades durante as manhãs frias e sob breves intervalos de luz solar entre a neblina. Os machos costumam voar ao longo das trilhas, geralmente a cerca de dois ou três metros do solo, e também acima da vegetação.

A espécie apresenta um comportamento conhecido como agregação em topos de morro. Machos e fêmeas dirigem-se aos pontos mais elevados da paisagem para o acasalamento. Estudos realizados entre 2016 e 2019 mostraram que sucessivas gerações utilizaram a mesma área territorial entre duas torres instaladas na trilha Bela Vista. A incidência de radiação solar e a proteção contra ventos fortes tornam esse pequeno trecho especialmente favorável.

Os adultos aparecem durante cerca de um mês em dois períodos do ano, entre meados de março e o início de abril e entre o começo de novembro e os primeiros dias de dezembro. Durante os demais meses, a espécie permanece nos estágios de larva ou pupa. A vida adulta é curta. Os machos vivem geralmente de dois a seis dias, enquanto as fêmeas podem alcançar aproximadamente dez dias.


Dependência da planta hospedeira

As lagartas alimentam-se de Mikania obsoleta, uma trepadeira da família Asteraceae conhecida como guaco. A planta cresce em locais úmidos, normalmente próxima a pequenos riachos, envolvendo troncos e alcançando áreas mais iluminadas do dossel. As fêmeas depositam grupos que podem superar 500 ovos na parte inferior de suas folhas.

A ocorrência da planta hospedeira, contudo, não garante a presença da borboleta. Mikania obsoleta também existe em outros pontos da Serra do Mar onde Actinote zikani nunca foi registrada. A espécie parece depender de uma combinação mais complexa, formada pela planta hospedeira, umidade elevada, temperaturas amenas, disponibilidade de néctar, áreas ensolaradas para aquecimento e pontos protegidos para reprodução.

As alterações na vegetação das margens das trilhas podem afetar esse equilíbrio. O adensamento das árvores reduziu a presença de arbustos floridos, diminuindo os recursos alimentares disponíveis para os adultos. Em outros momentos, a limpeza das estradas e a poda seletiva podem ter favorecido o surgimento de plantas jovens de Mikania obsoleta. O manejo, portanto, precisa preservar tanto a cobertura florestal quanto as pequenas aberturas utilizadas pela planta hospedeira e pelas borboletas.

Uma população submetida a oscilações extremas

Não existe um número fixo e seguro de exemplares remanescentes. O monitoramento revelou oscilações excepcionais entre as diferentes gerações. Em novembro de 1993, cerca de 70 adultos foram observados em um único dia, enquanto em vários outros anos os registros diários ficaram entre três e oito indivíduos. Houve ainda temporadas nas quais nenhuma borboleta foi avistada.

As estimativas populacionais produzidas durante aproximadamente 15 anos variaram de zero a quase mil indivíduos em uma geração. Esse limite superior não significa que atualmente existam mil exemplares, mas demonstra que a população pode crescer rapidamente em períodos favoráveis e sofrer forte redução nas temporadas seguintes. O desaparecimento temporário dos adultos também não comprova a extinção local, porque ovos, larvas ou pupas podem permanecer na vegetação.

A grande variação populacional, somada à existência de uma única população conhecida, torna impossível apresentar uma cifra estável. O dado mais preciso é que restam, conforme a estação e as condições ambientais, de nenhum adulto detectado a algumas centenas de indivíduos, com estimativas excepcionais próximas de mil. A tendência geral é de declínio, principalmente pela perda de antigas subpopulações e pela deterioração do habitat.

Proteção institucional e conhecimento científico

O Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba constitui o principal núcleo de proteção da espécie e o único local onde sua presença recente está confirmada. O Parque Estadual da Serra do Mar também integra o conjunto de áreas protegidas relacionadas à sua distribuição, enquanto a Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba conserva ambientes e populações da planta hospedeira. Até o momento, entretanto, a borboleta não foi localizada nessa reserva.

O Laboratório de Borboletas (LABBOR), vinculado ao Departamento de Biologia Animal do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desempenhou papel central na produção de conhecimento sobre Actinote zikani. Suas pesquisas contribuíram para esclarecer a distribuição, o ciclo de vida, as variações populacionais, a relação com a planta hospedeira e o comportamento territorial da espécie. A Universidade Católica de Santos e os órgãos ambientais da Prefeitura de Santo André também participaram dos estudos e do acompanhamento realizado no Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba.



O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) classificou Actinote zikani como Criticamente em Perigo e a incluiu no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Lepidópteros Ameaçados de Extinção. A espécie também integrou a lista das cem espécies mais ameaçadas do planeta elaborada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e pela Sociedade Zoológica de Londres.

Prioridades para impedir a extinção

A criação e a manutenção do Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba impediram que o último habitat conhecido ficasse inteiramente exposto à expansão urbana. As pesquisas de longa duração também representam um avanço decisivo, pois identificaram a planta hospedeira, os períodos corretos de procura e os pontos utilizados para reprodução. Sem esse conhecimento, os desaparecimentos temporários poderiam ser interpretados como extinção definitiva.

Persistem, entretanto, falhas importantes. O monitoramento não foi contínuo em todos os anos, antigas áreas de ocorrência permanecem sem populações confirmadas e ainda são insuficientes as informações sobre os efeitos combinados da poluição, da redução da neblina e do aumento das temperaturas. A proximidade da Região Metropolitana de São Paulo, da vila de Paranapiacaba e do polo industrial de Cubatão mantém a espécie exposta à urbanização, à degradação florestal e à contaminação atmosférica.

As medidas imediatas devem incluir o monitoramento anual das duas gerações, a proteção rigorosa da trilha Bela Vista e das encostas adjacentes, o manejo seletivo das margens das trilhas, a conservação de Mikania obsoleta e das plantas que fornecem néctar aos adultos. Também é necessário ampliar as buscas sistemáticas entre Paranapiacaba, o Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar e Boraceia. A formação de uma rede permanente entre órgãos municipais, ICMBio, universidades e unidades de conservação permitiriam acompanhar as alterações microclimáticas, localizar possíveis populações desconhecidas e agir antes que uma redução populacional se torne irreversível.

Fontes: SALVE/ICMBio, LABBOR, O ECO, Research Gate, BioOne, Journal of Entomology and Zoology Studies

Fotos: Actinote-zikani_by André Freitas; segunda e terceira fotos: Actinote zikani_Labbor Unicamp.