Borboletas em movimento revelam os efeitos das mudanças climáticas


As borboletas estão mudando os territórios que ocupam em todos os continentes onde são encontradas. A constatação aparece em um amplo estudo publicado em agosto de 2026 na revista Nature Ecology & Evolution, que reuniu informações sobre quase 1.800 espécies em 105 países. Na maioria dos casos examinados, o deslocamento foi relacionado às mudanças climáticas e aos eventos meteorológicos extremos.

A dimensão do fenômeno ganha importância porque as borboletas desempenham diferentes funções nos ecossistemas. Ao visitar flores em busca de néctar, transportam pólen e contribuem para a reprodução de numerosas plantas. Sua atuação complementa a de abelhas, besouros, moscas e outros polinizadores. Algumas espécies percorrem distâncias consideráveis e podem transportar pólen entre populações vegetais relativamente afastadas.

A polinização realizada pelas borboletas também contribui para a produção de alimentos destinados ao consumo humano. Embora as abelhas sejam responsáveis pela maior parte desse serviço, as borboletas visitam flores de diferentes cultivos e ajudam a complementar a transferência de pólen. Sua presença amplia a diversidade de polinizadores nas áreas agrícolas, reduz a dependência de poucos grupos de insetos e favorece a estabilidade da produção, especialmente em paisagens que conservam vegetação nativa próxima às lavouras.

Esses insetos também participam de diversas cadeias alimentares na natureza. Lagartas e borboletas adultas servem de alimento para aves, anfíbios, répteis, aranhas e outros animais. As lagartas, por sua vez, consomem folhas e mantêm relações estreitas com determinadas plantas hospedeiras, das quais dependem para completar seu desenvolvimento. Mudanças na presença das borboletas podem, portanto, afetar outros organismos e alterar relações ecológicas construídas ao longo de milhares de anos.

Uma mudança que atravessa continentes

A pesquisa publicada na Nature Ecology & Evolution apresenta a avaliação mais abrangente já realizada sobre as alterações na distribuição geográfica das borboletas. Foram examinados estudos científicos, documentos publicados em 15 idiomas e informações fornecidas por especialistas. A diversidade das fontes permitiu incluir regiões que costumam aparecer pouco nas pesquisas internacionais, especialmente países tropicais.

Quatro em cada cinco espécies analisadas expandiram sua área de ocorrência e começaram a aparecer em lugares onde anteriormente não eram registradas. Pouco mais de um quarto, entretanto, perdeu parte do território que ocupava. Cerca de uma em cada cinco também apresentou deslocamentos relacionados à altitude, procurando áreas mais altas ou, em alguns casos, modificando sua presença ao longo das montanhas.

Esses movimentos podem ocorrer simultaneamente. Uma espécie é capaz de alcançar novos territórios enquanto desaparece de áreas anteriormente ocupadas. Por esse motivo, a expansão geográfica não significa necessariamente crescimento populacional nem redução do risco de extinção.

O aumento das temperaturas pode tornar algumas regiões favoráveis a espécies antes limitadas pelo frio. Em outras áreas, o calor excessivo, a redução das chuvas e a maior frequência de secas, incêndios ou tempestades deterioram as condições necessárias à sobrevivência. As borboletas passam a acompanhar, dentro dos limites de sua capacidade de deslocamento, os ambientes que ainda apresentam temperatura, umidade, vegetação e disponibilidade de alimento adequadas.

O avanço pode esconder perdas

A chegada de uma borboleta a um lugar onde nunca havia sido observada costuma ser percebida com relativa facilidade. Pesquisadores, moradores e observadores da natureza registram a novidade, produzem fotografias e comunicam sua presença. O desaparecimento de uma população é mais difícil de comprovar, pois exige levantamentos repetidos ao longo de vários anos.

Essa diferença pode fazer com que as expansões sejam mais documentadas do que as retrações. A pesquisa reconhece que muitas espécies dispõem de poucos registros e que os programas de acompanhamento estão distribuídos de maneira desigual. Países europeus, que mantêm levantamentos sistemáticos há décadas, conhecem melhor as transformações de sua fauna. Em grande parte do mundo, a ausência de informações ainda impede uma avaliação segura.

Mesmo quando uma espécie alcança uma região climaticamente favorável, sua permanência não está garantida. As borboletas adultas precisam encontrar flores que forneçam néctar, enquanto as lagartas dependem de plantas hospedeiras específicas. Se essas plantas não acompanharem o deslocamento ou tiverem sido eliminadas pela agricultura, pelo desmatamento ou pela urbanização, o novo território não sustentará uma população por muito tempo.

A fragmentação da vegetação aumenta esse problema. Estradas, cidades, pastagens e grandes monoculturas interrompem a continuidade dos habitats e dificultam a passagem entre áreas adequadas. Uma espécie pode ficar isolada em um ambiente que se torna progressivamente mais quente, sem conseguir alcançar outro local onde teria condições de sobreviver.

Os trópicos permanecem pouco conhecidos

A inclusão de pesquisas publicadas em diferentes idiomas revelou que as mudanças também são extensas nas regiões tropicais. O Brasil aparece entre os países com numerosos registros de expansão da distribuição de borboletas. Esse resultado contraria a impressão, presente em avaliações anteriores, de que os deslocamentos ocorreriam principalmente nas zonas temperadas.

O problema estava, em parte, na concentração da produção científica internacional. Estudos publicados em inglês e programas de monitoramento da Europa e da América do Norte dominavam as análises. Quando trabalhos produzidos em outros idiomas e conhecimentos especializados foram incorporados, o alcance mundial das transformações se tornou mais evidente.

Ainda assim, a Amazônia, a África Central, o Sudeste Asiático e a Nova Guiné permanecem pouco representados. Essas regiões concentram enorme diversidade de borboletas, mas possuem poucos programas contínuos de acompanhamento. A falta de registros não demonstra que as espécies estejam preservadas. Mostra apenas que as alterações podem estar ocorrendo sem serem devidamente observadas.

Essa lacuna é preocupante porque muitas borboletas tropicais estão adaptadas a condições ambientais relativamente estáveis. Pequenas variações de temperatura e umidade podem afetar seus ciclos de vida, suas plantas hospedeiras e a disponibilidade de néctar. Nas montanhas, o deslocamento para áreas mais altas oferece uma saída limitada, pois o espaço diminui à medida que se aproxima do cume.

Relações ecológicas podem ser rompidas

As mudanças climáticas não afetam todos os organismos no mesmo ritmo. Uma borboleta pode alterar seu período de reprodução antes que sua planta hospedeira modifique o ciclo de crescimento. Flores podem desabrochar quando os principais polinizadores ainda não estão ativos, enquanto lagartas podem surgir depois do período de maior disponibilidade de folhas jovens.

Esses desencontros reduzem as possibilidades de alimentação e reprodução. Plantas que dependem de um grupo restrito de polinizadores podem receber menos visitas, e aves que alimentam seus filhotes com lagartas podem encontrar menor quantidade de alimento durante a estação reprodutiva. A mudança na distribuição de uma borboleta deixa, assim, de ser um fenômeno isolado e passa a interferir no funcionamento do ecossistema.

A chegada a novos territórios também modifica as comunidades locais. Espécies recém-chegadas podem disputar alimento e plantas hospedeiras com as que já ocupavam a área. Os efeitos variam conforme o ambiente e não permitem considerar toda expansão como positiva ou negativa. O que a pesquisa demonstra é uma reorganização acelerada das relações entre espécies.

A conservação precisa considerar o deslocamento

Muitas áreas protegidas foram delimitadas com base na distribuição conhecida das espécies no momento de sua criação. Com o avanço das mudanças climáticas, uma reserva pode continuar protegida legalmente e, ao mesmo tempo, perder as condições ambientais que sustentavam parte de sua biodiversidade. As espécies deslocadas também podem chegar a territórios sem qualquer proteção.

Corredores ecológicos, recuperação da vegetação nativa, conservação de matas ciliares e proteção de áreas úmidas podem facilitar o movimento entre habitats. Em paisagens agrícolas, cercas vivas, fragmentos florestais e faixas de plantas com flores oferecem alimento e abrigo. Essas medidas precisam ser acompanhadas pela redução do uso de inseticidas e pela contenção do desmatamento, dos incêndios e da expansão desordenada das cidades.

O estudo também indica a necessidade de ampliar o monitoramento, principalmente nos países tropicais. Universidades, museus, órgãos ambientais, organizações locais e observadores voluntários podem colaborar na formação de séries históricas. Fotografias identificadas e georreferenciadas, quando verificadas e integradas a programas científicos, ajudam a revelar mudanças que dificilmente seriam percebidas apenas por equipes profissionais.

As borboletas reagem rapidamente às alterações de temperatura, umidade e vegetação. Por isso, sua presença ou ausência permite identificar transformações que podem alcançar posteriormente outros grupos de animais e plantas. Os deslocamentos registrados em diferentes continentes mostram que a crise climática já interfere na distribuição das espécies e nas relações das quais depende o equilíbrio dos ecossistemas. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa e conservar paisagens conectadas são medidas complementares para evitar que a busca por ambientes favoráveis termine no isolamento e no desaparecimento de populações desses insetos.

Fonte consultada

NATURE ECOLOGY & EVOLUTION. Extensive climate-induced range shifts in butterflies across the globe. 2026.

 Foto: Borboletas da Amazônia_by Fernanda Lenz