O papagaio-de-orelha-amarela (Ognorhynchus icterotis) é uma ave nativa das florestas andinas da Colômbia, intimamente associada à palmeira-de-cera-de-quindío (Ceroxylon quindiuense), da qual depende para alimentação, nidificação e repouso. Considerada extinta ao longo da década de 1990, a espécie foi redescoberta em abril de 1999, quando pesquisadores apoiados pela American Bird Conservancy e pela Fundación Loro Parque localizaram um grupo remanescente de 81 indivíduos nos Andes colombianos. A partir desse marco, um esforço de conservação sustentado por mais de duas décadas transformou sua trajetória, reduzindo o risco de extinção e produzindo um dos exemplos mais expressivos de recuperação de uma ave ameaçada na América Latina.
Caracterização e distribuição
geográfica
Trata-se de um psitacídeo de cauda
longa, com comprimento médio de 42 centímetros e peso aproximado de 285 gramas,
de plumagem predominantemente verde, mais clara nas partes inferiores. O bico
robusto e o anel de pele nua ao redor dos olhos são escuros, e o nome popular
deriva da mancha de penas amareladas que se estende da testa às bochechas.
Historicamente, a espécie ocupava as três cordilheiras andinas da Colômbia e o
noroeste do Equador, ao sul até a região de Cotopaxi. Atualmente, sua
distribuição está reduzida às cordilheiras Ocidental e Central da Colômbia, em
florestas nubladas entre 1.800 e 3.000 metros de altitude, onde nidifica em
troncos ocos de palmeiras-de-cera, a 25–30 metros do solo. No Equador, não há
registros confirmados desde meados da década de 1990, o que a torna
potencialmente extinta naquele território, embora persistam buscas pontuais,
sobretudo no Vale do Intag.
Ecologia: dependência da
palmeira-de-cera
A relação entre o papagaio e a palmeira-de-cera-de-quindío
— a palmeira mais alta do mundo, de crescimento extremamente lento e
longevidade que supera 500 anos, e árvore nacional da Colômbia — é central para
compreender a vulnerabilidade da espécie. O papagaio alimenta-se principalmente
de seus frutos e depende dos troncos ocos da palmeira para nidificar, de modo
que qualquer pressão sobre uma das duas espécies repercute imediatamente sobre
a outra. Socialmente, organiza-se em bandos de uma a duas dúzias de indivíduos,
praticando cuidado cooperativo da prole, com até duas ninhadas por ano. Estudos
de uso do habitat, iniciados em 2000, mapearam corredores entre áreas de
alimentação, nidificação e repouso, mostrando que as zonas entre 2.700 e 3.000
metros são as mais relevantes para a sobrevivência imediata, enquanto altitudes
mais baixas tornam-se essenciais nos períodos de escassez sazonal.
Causas históricas do declínio
O colapso histórico da população
resultou da convergência entre perda de habitat e caça. A destruição do habitat
decorreu do corte sistemático de palmeiras-de-cera para as procissões católicas
do Domingo de Ramos e do abate de palmeiras mortas para uso como postes de
cerca processo agravado pelo crescimento extremamente lento da espécie vegetal,
incapaz de se regenerar na mesma velocidade da extração. Mais de 90% das
florestas montanhosas colombianas foram desmatadas para uso agrícola ou
assentamento humano. A caça, por sua vez, ocorreu tanto para consumo alimentar
local quanto para abastecer o comércio internacional de aves de estimação,
sendo particularmente intensa no Equador, onde é apontada como o principal
fator do desaparecimento quase completo da espécie. Esses fatores levaram a
UICN a classificar o papagaio-de-orelha-amarela como Criticamente Ameaçado já
em 1994, status confirmado pela redescoberta de apenas 81 indivíduos em 1999.
A resposta conservacionista
Já em 1998, a Fundación Loro
Parque financiava avaliações sobre o desaparecimento do último bando
conhecido no Equador. Com a localização da população remanescente na Colômbia
em 1999, a organização não governamental Fundación
ProAves assumiu a liderança operacional do projeto, com apoio da Fundación
Loro Parque, da American Bird Conservancy, da autoridade ambiental CORANTIOQUIA e de outras
entidades. O plano estruturou-se em quatro eixos: cercamento dos palmeirais
remanescentes, reflorestamento, instalação de caixas-ninho artificiais e educação
ambiental comunitária. Esse desenho resultou na criação de reservas
próprias da ProAves, uma perto de Jardín, outra em Roncesvalles-Tolima e, em
2009, no estabelecimento de um corredor de conservação superior a 6.475
hectares na Cordilheira Central, com aquisição direta de mais de 4.047
hectares. A organização Parrots
International contribuiu posteriormente para a aquisição de área adicional
adjacente à reserva original.
O componente comunitário revelou-se
decisivo. Uma campanha publicitária nacional — com peças televisivas e
radiofônicas, concertos e um "ônibus do papagaio" itinerante —
consolidou-se em aliança de mais de 35 organizações não governamentais, departamentos
governamentais e a Conferência Episcopal da Colômbia. Em 2003, a Igreja
Católica colombiana revogou a tradição bicentenária de uso de folhas de
palmeira-de-cera no Domingo de Ramos, instituindo proibição nacional reforçada
por operações de fiscalização da polícia, das forças armadas e de agências
ambientais regionais. Mais recentemente, a parceria entre a ProAves e a
organização Women for Conservation
ampliou o alcance social do projeto por meio de redes comunitárias de mulheres
atuando como guardas florestais em torno das 28 reservas mantidas pela
fundação.
Trajetória de recuperação populacional
A série histórica de estimativas
evidencia o impacto das medidas adotadas. Dos 81 indivíduos de 1999, a
população avançou para mais de 1.000 espécimes adultos em 2019, segundo a UICN,
que rebaixou o status da espécie de Criticamente Ameaçada para Vulnerável —
considerando ainda 212 indivíduos maduros reprodutivamente ativos e uma
população total estimada em 1.408 indivíduos quando incluídas todas as classes
de idade. Em 2012, contagens da ProAves apontavam mais de 1.500 indivíduos, e
iniciativas envolvendo a World Parrot Trust, a American Bird Conservancy e a World Land Trust registraram
aproximadamente 2.600 indivíduos, também em 2019. Os dados mais recentes,
divulgados pela direção da Fundación ProAves e da Women for Conservation,
situam a população atual em mais de 3.000 indivíduos — o maior número já
documentado desde a redescoberta da espécie, e um dos casos de recuperação mais
expressivos entre aves ameaçadas na América Latina.
Lacunas e fragilidades
persistentes
Apesar dos avanços, o processo
apresenta fragilidades que não devem ser subestimadas. A primeira é a
concentração quase exclusiva da recuperação em território colombiano: a
situação da espécie no Equador permanece incerta há cerca de três décadas, sem
programa de monitoramento equivalente e sem dados sistemáticos sobre eventuais
populações remanescentes no Vale do Intag lacuna que impede uma estratégia
binacional mais robusta. A segunda decorre da dependência estrutural em relação
a um número limitado de organizações financiadoras: a regeneração da
palmeira-de-cera, cujos exemplares maduros levam séculos para atingir porte
reprodutivo pleno, exige um horizonte temporal muito mais longo do que o ciclo
típico de financiamento de projetos de conservação, criando risco real de
descontinuidade. Por fim, ainda que a caça tenha diminuído consideravelmente na
Colômbia, o desenvolvimento residencial, comercial e a exploração madeireira
continuam ameaçando o habitat remanescente fora do perímetro das reservas.
Prioridades para o futuro imediato
As organizações envolvidas apontam
prioridades claras para consolidar os ganhos obtidos. No plano da proteção
direta, destacam-se a aquisição e proteção de novas áreas de habitat, a
manutenção do programa colombiano e sua eventual extensão ao Equador caso sejam
identificadas subpopulações remanescentes. No plano da pesquisa, são
prioritários estudos atualizados sobre tamanho populacional e tendências
demográficas, a determinação do status da espécie no Vale do Intag e o
mapeamento de habitat no maciço vulcânico Ruiz-Tolima — conjunto que inclui os
vulcões Tolima, Santa Isabel, Quindío e Machín, identificado como
potencialmente relevante para a expansão futura da população.
Complementarmente, a criação de viveiros para replantio de palmeiras-de-cera em
áreas degradadas é apontada como medida estrutural para reduzir, no longo
prazo, o gargalo representado pelo crescimento lento dessa espécie vegetal,
enquanto a continuidade dos programas comunitários, sobretudo os
voltados à participação feminina em redes de guarda florestal e
empreendedorismo sustentável, é vista como fator decisivo de sustentabilidade
social do projeto.
O caso do papagaio-de-orelha-amarela
demonstra, em escala concreta, como a articulação entre organizações não
governamentais, agências governamentais, instituições religiosas e comunidades
locais pode revogar uma trajetória de extinção considerada praticamente
consumada. Ao mesmo tempo, a persistência de incertezas sobre a situação
equatoriana, a dependência de financiamento externo contínuo e o descompasso
entre o tempo de regeneração da palmeira-de-cera e os ciclos de projeto
evidenciam que a recuperação alcançada, embora notável, permanece condicionada
à manutenção e ao aprofundamento do mesmo arranjo institucional que a tornou
possível.
Fontes: Ebird, Loro Parque Fundación, Inaturalist, Reverse The Red, Birds of Colombia, Parrots International, Parrots Daily News, Birds of the World, World Parrot Trust
Fotos: Papagaio-de-orelha-amarela_by David Montoya; segunda foto:_by Arley Vargas; terceira foto: _by Guillermo Nagy Aramacao Tour; quarta foto:_by Alex Berryman.jfif


