Em área que não excede seis quilômetros quadrados, distribuída de forma
fragmentada pela ilha de Roatán, em Honduras, sobrevivem hoje aproximadamente
4.500 indivíduos maduros de Ctenosaura oedirhina, a iguana-de-cauda-espinhosa-de-Roatán.
O número, da reavaliação mais recente da Lista Vermelha da União Internacional
para a Conservação da Natureza (IUCN), de 2019, resume a situação de espécie
que ocupa fração mínima do território onde já foi historicamente abundante: a
grande maioria desses indivíduos vive em menos de 1% da área da ilha, em
núcleos isolados que dependem, em boa parte, da boa vontade de proprietários
privados para persistir. O caso ilustra como a sobrevivência de um réptil
endêmico de distribuição restrita está condicionada a fatores biológicos,
econômicos e culturais simultâneos, exigindo articulação entre organizações não
governamentais, órgãos governamentais hondurenhos e instituições científicas
internacionais.
Taxonomia, descrição e biologia da espécie
A espécie foi descrita como distinta apenas em 1987, diferenciada da
Útila Iguana (Ctenosaura bakeri), espécie-irmã da qual era considerada
população disjunta. A separação baseou-se em um conjunto de características
físicas, entre os quais o focinho arredondado, escamas de crista mais curtas e
ausência de barbela. Análises genéticas confirmaram que a espécie pertence ao
grupo de Ctenosaura palearis, próxima de C. bakeri. Por isso,
literatura anterior à descrição ainda a referencia sob o nome da espécie-irmã.
Trata-se de lagarto de porte médio, preto a cinza-escuro, com manchas
creme dispostas em faixas que se acentuam ao longo da vida sem prejuízo à
aptidão do animal; filhotes apresentam tons verde-escuros e acinzentados. O
comprimento rostro-cloacal (medida que vai da ponta do focinho até a abertura
da cloaca) varia de 151 a 325 milímetros, sendo os machos maiores e mais
pesados que as fêmeas. Generalista em habitat e dieta, ocupa florestas secas,
manguezais, costões rochosos e até áreas urbanizadas, alimentando-se de frutos,
gramíneas, insetos, crustáceos, pequenos lagartos e filhotes de tartarugas
marinhas — dieta onívora que lhe confere papel relevante na dispersão de
semente.
Status de conservação e distribuição geográfica
Reconhecida como ameaçada desde 1994, integra a Lista Vermelha da IUCN
desde 2004, inicialmente como Criticamente em Perigo; em 2010 passou a Em
Perigo, ajuste técnico da avaliação anterior, e não sinal de melhora real. A
reavaliação de 2019 confirmou esse status, com base na pequena área de
ocupação, na severa fragmentação populacional e no declínio contínuo por
exploração humana.
Levantamentos cartográficos da IUCN estimam em até 294 km² a área total
onde a espécie já foi registrada, e em 191 km² a área que ela efetivamente
ocupa de forma mais ou menos contínua —mas a área onde existem hoje populações
estáveis é de apenas 6 km². A população está fragmentada em seis subpopulações
isoladas na ilha principal, além do núcleo de Barbareta, e já foi extirpada de
extensas porções do território histórico. Há densidades de até 140 indivíduos
por hectare nos poucos sítios protegidos por particulares — resorts, parques
turísticos, propriedades privadas —, defendidos por um movimento espontâneo de
proprietários e gestores de terra locais. Fora dessas áreas, menos de 1% dos
indivíduos da espécie sobrevive, com densidade de apenas um a cinco por
quilômetro quadrado, havendo extensas localidades sem qualquer registro do
animal.
As ameaças: caça, predadores domésticos e fragmentação do habitat
A principal ameaça é a caça para consumo humano. A carne é
tradicionalmente apreciada pelas comunidades insulares — descendentes de
colonizadores ingleses e espanhóis, pela cultura afro-indígena formada na ilha
e por migrantes do continente — e segue oferecida a turistas como iguaria
local. Trata-se também de um problema econômico: a preservação da espécie
compete com a alta taxa de pobreza presente em sua área de distribuição, o que
torna a caça fonte concreta de subsistência para parte da população. Embora a
legislação hondurenha proíba caça, posse e venda de fauna nativa, a
fiscalização é irregular, e a pressão tende a crescer com a expansão viária e
turística, que facilita o acesso a áreas antes remotas.
A segunda maior ameaça é a predação por cães e gatos errantes,
que atacam jovens e adultos ou forçam sua emigração de áreas protegidas. A
fragmentação do habitat, por desmatamento para mineração, agricultura e
estradas, agrava esse quadro, comprimindo ainda mais o espaço disponível para
populações já isoladas entre si. Soma-se o risco de hibridização com Ctenosaura
similis e Ctenosaura bakeri, introduzidas em ilhéus próximos, hibridização
já documentada para a segunda. Mudanças climáticas são apontadas como
fator que pode afetar a reprodução da espécie, e o comércio internacional de
animais de estimação, ainda incipiente, é mencionado como ameaça potencial.
Diante dessas pressões, organizações internacionais de proteção à fauna, entre
as quais a Fundação
Herpetofauna, passaram a
priorizar doações destinadas especificamente à proteção da iguana-de-Roatán,
reconhecendo-a como uma das espécies mais urgentes a apoiar.
Marco legal e articulação institucional
O reconhecimento internacional avançou gradualmente. Em 2010, o governo
hondurenho incluiu a espécie no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio
Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), decisão ampliada em 2019 a todo o
gênero Ctenosaura. No plano nacional, leis proíbem caça e comércio de
fauna silvestre, mas a fiscalização desigual mantém essa proteção distante da
prática cotidiana, fragilidade reiterada pelos especialistas que elaboraram o
plano vigente.
A articulação ganhou formato estruturado em novembro de 2019, quando o Grupo de Especialistas em Iguanas da Comissão
de Sobrevivência de Espécies da IUCN reuniu-se em Roatán com pesquisadores, gestores de terras e
organizações hondurenhas para elaborar o plano de ação 2020–2025, fruto da
colaboração entre a Associação de
Conservação das Ilhas da Baía,
o Instituto de Conservação Forestal de
Honduras, a Organização Kanahau de Conservação da Vida
Selvagem, o Parque Marinho de Roatán e instituições científicas
internacionais — entre zoológicos e centros de pesquisa em conservação
biológica. O plano é explícito ao afirmar que seu êxito depende do engajamento
das comunidades e proprietários locais, não apenas da cooperação técnica internacional.
Ações de monitoramento e pesquisa já implementadas
Desde 2010, a espécie é submetida a levantamentos anuais de captura e
recaptura, complementados, desde 2012, por amostragens de distância em cinco
populações de alta densidade, série histórica que identificou a proteção contra
a caça como fator determinante da distribuição atual. Estudos complementares
trataram de morfometria, genética, dieta, uso de habitat e padrões de
coloração, e uma linha iniciada em 2018 investiga a biologia reprodutiva por
bioquímica sanguínea, radiotelemetria e armadilhas fotográficas.
Na educação ambiental, uma campanha de conscientização realizada
em parceria com o Parque Marinho de Roatán em 2010 — que incluiu um concurso de
colorir voltado a escolas locais — não teve continuidade, lacuna apontada pelo
próprio plano. Desde 2017, organizações internacionais promovem anualmente, na
ilha, um workshop de iguanas e conservação que forma estudantes e pesquisadores
e alimenta a coleta de dados — iniciativa relevante, mas insuficiente diante da
ausência de programas formais e permanentes nas escolas locais.
O plano de ação 2020-2025: metas, acertos e limites
O plano organiza-se em sete metas: transformar a espécie em símbolo da
biodiversidade insular; manter o monitoramento de longo prazo; compreender a
biologia reprodutiva como subsídio a eventuais programas de reprodução em
cativeiro ou soltura assistida; reduzir ameaças de espécies exóticas; formar
rede de proprietários e gestores de terra engajados; reforçar a fiscalização
contra a caça; e estruturar manejo dedicado à subpopulação de Barbareta.
A análise estratégica reconhece, como forças, a capacidade da espécie de
se adaptar a diferentes ambientes e proprietários dispostos a protegê-la; como
fragilidades, a escassez de educação ambiental, a tradição de consumo do
animal, a fiscalização insuficiente e a falta de financiamento estável; como
oportunidade, o ecoturismo — a ilha recebe mais de um milhão de visitantes ao
ano; e como ameaças externas, a caça, a predação doméstica e o risco de hibridização.
O diagnóstico revela obstáculos sobretudo sociais e institucionais, não
biológicos.
Entre os acertos, destaca-se a consistência da série de monitoramento
iniciada em 2010 — rara para répteis insulares de distribuição tão restrita — e
a capacidade de reunir, sob um único plano, associações comunitárias, órgãos de
fiscalização hondurenhos e instituições científicas internacionais. Entre as
falhas reconhecidas pelo próprio documento estão a descontinuidade de campanhas
educativas, a ausência de punição efetiva à caça ilegal e a lacuna no
conhecimento reprodutivo, que ainda impede planejar com segurança programas de
reprodução em cativeiro. O plano se define como adaptativo, sujeito a revisão
conforme metas se mostrem inalcançáveis, sinal de que depende mais da
transformação de práticas culturais e do fortalecimento institucional do que de
avanços estritamente científicos.
Para o período seguinte, indicam-se como prioridades a consolidação de
financiamento internacional estável, alternativas econômicas para caçadores que
dependem da iguana como subsistência, a ampliação do controle de predadores
domésticos e a avaliação criteriosa de translocações entre populações,
considerando estrutura genética e limites históricos de distribuição.
Monitoramento consistente, engajamento comunitário crescente e pressão
internacional por compromissos cumpridos compõem, hoje, o cenário mais favorável
para reverter a trajetória de declínio da iguana-de-Roatán.
Fontes: The Reptile Database, IUCN, International Iguana Foundation, Inaturalist, The Herpetological Bulletin, Herpetofauna Foundation, Herpetological Conservation and Biology, Roatan Online, IUCN Conservation Action Plan 2020-2025
Fotos:Iguana-de-Roatán_ by Pablo Bedrossian; segunda foto:_ by Krohling; terceira foto:_ by Tandora Grant; quarta foto:_ Animalia.bio.



