Depois de 94 anos sem registro fotográfico, a redescoberta da cotovia-ferruginosa no Sahel africano
Em fevereiro de 2026, o mundo
ornitológico foi surpreendido por uma notícia considerada espetacular, a cotovia-ferruginosa
(Calendulauda rufa), uma pequena ave das savanas áridas do Sahel
africano, foi avistada e fotografada pela primeira vez em quase um século. O
registro, ocorrido no centro-sul do Chade, encerrou um silêncio documental de
94 anos e devolveu à ciência uma espécie que, embora nunca formalmente extinta,
havia se tornado praticamente fantasma nos arquivos da ornitologia mundial. A
redescoberta resultou de uma expedição internacional de campo, reunindo
instituições de pesquisa e conservação da França e do Chade, e ilumina tanto as
lacunas persistentes no conhecimento da biodiversidade africana quanto o papel
indispensável da colaboração científica internacional.
Taxonomia, morfologia e
subespécies
A cotovia-ferruginosa foi
descrita cientificamente pela primeira vez em 1920 a partir de seis espécimes
coletados no Darfur Central, no Sudão. Trata-se de uma ave de pequeno porte,
medindo entre 13 e 15 centímetros de comprimento, ligeiramente menor que a
cotovia-comum (Alauda arvensis) amplamente conhecida na Europa Central. Sua
plumagem é marcada por tonalidades que variam do vermelho-ferrugem ao
marrom-avermelhado na parte dorsal, com partes inferiores claras a bege,
praticamente sem estrias, exceto por algumas marcações laterais na região
superior do peito. A cauda é escura, sem as marcações brancas laterais típicas
de muitas outras cotovias, e a cabeça apresenta uma larga sobrancelha de
coloração bege a creme. O bico, relativamente longo e fino, é de coloração
marrom-escura na parte superior, com a base mais clara na porção inferior.
Não há dimorfismo sexual marcante
entre machos e fêmeas, que são praticamente indistinguíveis externamente,
diferindo apenas no tamanho corporal, sendo as fêmeas ligeiramente menores. A
espécie apresenta duas variações de coloração na subespécie nominal, que
diferem principalmente na intensidade das estrias escuras na parte dorsal.
Três subespécies são reconhecidas
pela ciência, distribuídas de oeste a leste ao longo do Sahel: Calendulauda
rufa nigriticola, que ocorre do Mali ao Níger e apresenta plumagem escura
com estrias marcadas na parte superior e coloração creme intensa nas partes
inferiores; Calendulauda rufa rufa, a subespécie nominal, encontrada no
Chade e no oeste do Sudão, com plumagem intermediária e aparência escamosa no
dorso; e Calendulauda rufa lynesi, restrita ao Sudão central, com
plumagem mais lisa, poucas estrias na parte superior e bege claro nas partes
inferiores.
Em relação ao comportamento vocal, o
canto é emitido em voo e descrito como 'agradável', sem que detalhes adicionais
tenham sido registrados na literatura científica. Mesmo durante a redescoberta
de 2026, nenhum canto ou chamado pôde ser documentado. Da mesma forma,
informações sobre o ninho, ovos e reprodução da espécie permanecem
completamente desconhecidas. A dieta consiste principalmente de insetos, outros
artrópodes e sementes, padrão típico entre as cotovias da família Alaudidae.
Distribuição geográfica e habitat
A cotovia-ferruginosa habita
as ecorregiões de savana seca do Sahel, ocorrendo principalmente no Níger,
Chade e Sudão, com registros também para o Mali e Togo. Sua extensão de
ocorrência global é estimada em aproximadamente 470.000 km², o equivalente a
cerca de 47 milhões de hectares, uma das maiores áreas de distribuição entre as
aves consideradas raras ou pouco conhecidas. A espécie ocupa paisagens abertas
e áridas, com vegetação esparsa, arbustos pouco densos, colinas rochosas e
formações de bosques abertos dominados por espécies do gênero Combretum.
Acredita-se que a reprodução ocorra em áreas rochosas de maior altitude, embora
o acesso a tais ambientes seja frequentemente inviável do ponto de vista
logístico e de segurança.
A vasta extensão territorial da
espécie contrasta com a escassez extrema de registros documentados, o que
reflete sobretudo a ausência histórica de pesquisa ornitológica sistemática
nessas regiões. Grande parte do habitat da cotovia-ferruginosa
encontra-se em áreas de difícil acesso, politicamente instáveis e com
graves restrições de segurança, o que desincentivou a presença de
pesquisadores ao longo de décadas. Muitas regiões do Sahel raramente são objeto
de estudos científicos de campo, fato que explica por que a espécie permaneceu sem
ser detectada por tanto tempo e por que o seu status populacional continuou
incerto.
Histórico de registros: do século
XX ao limiar do desaparecimento documental
Após a descrição original em 1920,
os únicos registros documentados da espécie datam de maio de 1931, quando foram
coletados vários espécimes no que hoje corresponde ao território do Níger. Foi
indicada a localidade como 'Tawa, ao norte de Sokoto', área que se acredita
corresponder à atual região de Tahoua, no Sahel nigerino. A partir desse ponto,
a espécie desapareceu completamente dos registros científicos formais.
Algumas pistas fragmentárias
surgiram nas décadas seguintes. No final da década de 1960, foram registrados múltiplos
exemplares no leste do Chade em artigos científicos, e foram incluidas
referências à espécie na obra Atlas de Distribuição das Aves do Sudão,
publicada em 1987. Contudo, nenhum desses registros forneceu a documentação
definitiva exigida pelos padrões científicos contemporâneos para confirmar a
identificação inequívoca da espécie. Mais recentemente, uma fotografia surgiu
em 2017, gerando expectativas temporárias, mas após extensa reavaliação,
concluiu-se que a imagem não representava de fato a cotovia-ferruginosa,
mantendo a espécie sem registros confirmados por mais de uma década, período
que equivale ao critério utilizado por iniciativas internacionais para
classificar uma espécie como 'ave perdida'.
Essa combinação de fatores — lacunas
de campo, dificuldade geográfica de acesso e ausência de documentação
fotográfica — levou a cotovia-ferruginosa a integrar a lista de espécies
monitoradas pela iniciativa Search
for Lost Birds, um projeto internacional voltado à localização de aves sem
registros recentes confirmados.
A expedição e as instituições envolvidas na redescoberta
A redescoberta da
cotovia-ferruginosa em 2 de fevereiro de 2026 foi resultado de uma expedição de
campo conduzida por uma equipe internacional composta por pesquisadores
franceses e chadianos. A iniciativa ocorreu no âmbito do projeto
RESSOURCE+, coordenado pela Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO) e vinculado ao Acordo
sobre a Conservação de Aves Aquáticas Migratórias Afro-Euroasiáticas (AEWA).
O projeto tem como foco principal o estudo de aves aquáticas migratórias em
países africanos, mas seus pesquisadores mantêm a prática de registrar todas as
espécies encontradas durante as expedições.
Do lado francês, participaram
representantes do Office Français de la
Biodiversité (OFB), órgão governamental responsável pela proteção da
biodiversidade e da gestão da água e dos espaços naturais na França, e da Tour du Valat (TdV), instituto de
pesquisa e conservação especializado em zonas úmidas mediterrâneas e africanas.
Da parte chadiana, a expedição contou com a participação da Direction de la Faune et
des Aires Protégées du Tchad (DFAP), órgão governamental responsável pela
gestão da fauna e das áreas protegidas do país. A equipe incluiu ainda
pesquisadores associados e especialistas consultados remotamente, reconhecidos
por sua expertise em aves africanas.
A expedição havia chegado à
província de Guéra, no centro-sul do Chade, após dez dias dedicados à anilhagem
de patos no Lago Fitri, antes de prosseguir para o Parque Nacional de Zakouma
para o censo de aves aquáticas. Na manhã do dia 2 de fevereiro, a equipe
buscava o pardal-ruivo-de-Kordofan em habitats considerados adequados para a
espécie, uma área rural com terras cultivadas, mata nativa preservada e fontes
de água próximas a assentamentos humanos. Foi ao observar uma
cotovia-de-Horsfield, espécie considerada a cotovia 'padrão' naquela região do
Chade, que um dos pesquisadores notou a presença de outra ave morfologicamente
distinta, a menos de 15 metros do local onde estavam. O registro inicial foi
feito em condições de distância moderada, mas, após uma breve dispersão do
animal, a equipe conseguiu reavistar o indivíduo e fotografá-lo a uma distância
de 6 a 8 metros, obtendo uma série de imagens de alta qualidade.
As características morfológicas
observadas in loco e documentadas nas fotografias — bico relativamente longo e
fino, sobrancelha pálida e bem delimitada, coberturas auriculares avermelhadas
e dorso vermelho-ferrugem com padrão escamoso — foram submetidas à análise
comparativa com espécies de cotovias próximas, descartadas sistematicamente por
processo de eliminação. O conjunto de evidências fotográficas e anotações de
campo foi então encaminhado à Coordenação Global de Ciência da BirdLife International, organização
parceira do projeto Search for Lost Birds, que confirmou a identificação da
espécie em poucas horas. A observação foi registrada na plataforma digital eBird, acompanhada de descrição detalhada e
nove fotografias documentais, tornando-se o primeiro registro fotográfico de um
indivíduo vivo da espécie.
Status de conservação e avaliação
pela IUCN
Apesar da ausência de registros
documentados por quase um século, a cotovia-ferruginosa nunca foi
oficialmente classificada como extinta. Na Lista Vermelha da União
Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a espécie é categorizada
como Pouco Preocupante (Least Concern), a categoria de menor risco na escala de
ameaça. Essa classificação se fundamenta, sobretudo, na extensão geográfica da
distribuição potencial da espécie, estimada em aproximadamente 470.000 km², que
não atinge os limiares necessários para enquadrá-la como ameaçada em critérios
de área, tamanho populacional ou tendência demográfica.
Segundo a IUCN, não há evidências de
declínio populacional a longo prazo, e a tendência demográfica da espécie é
considerada estável. Embora o número global de indivíduos jamais tenha sido
determinado com precisão, a cotovia-ferruginosa é considerada localmente
bastante comum em algumas porções de sua área de distribuição, ao mesmo tempo
em que é descrita como geralmente rara no conjunto de seu território. A espécie
integrou, contudo, a lista de aves monitoradas pela iniciativa Search for Lost
Birds, que acompanha táxons sem registros recentes confirmados e mobiliza
expedições científicas para sua localização.
Com o registro confirmado de 2026, a
cotovia-ferruginosa pode ser formalmente removida da lista de 'aves
perdidas' mantida pela iniciativa Search for Lost Birds. A redescoberta não
implica, entretanto, que a espécie esteja livre de riscos. A inacessibilidade
das áreas de habitat, a instabilidade política e os problemas de
segurança que caracterizam grande parte do Sahel continuam a representar
obstáculos estruturais à pesquisa e ao monitoramento da espécie.
Programas, projetos e iniciativas
de conservação
A redescoberta da
cotovia-ferruginosa é inseparável do arcabouço institucional e programático que
a tornou possível. O projeto RESSOURCE+, coordenado pela FAO no âmbito do
Programa de Gestão Sustentável das Zonas Úmidas Sahelianas, financia e organiza
missões regulares de monitoramento de aves aquáticas em países do Sahel,
incluindo o Chade. Essas missões são conduzidas em parceria com o AEWA — o
Acordo sobre a Conservação de Aves Aquáticas Migratórias Afro-Euroasiáticas,
tratado internacional que vincula países de África, Europa e Ásia Central em
torno da proteção de espécies migratórias e de seus habitats. O RESSOURCE+
representa, portanto, um modelo de cooperação multilateral que integra
objetivos de pesquisa científica, formação de capacidade local e gestão de
ecossistemas.
A BirdLife International, por sua
vez, desempenhou papel central tanto na coordenação do projeto Search for Lost
Birds quanto na validação científica do registro. Essa organização não
governamental de alcance global mantém uma das bases de dados ornitológicos
mais abrangentes do mundo e coordena redes de parceiros nacionais em mais de
100 países. Seu envolvimento na confirmação da redescoberta, através da revisão
técnica conduzida pelo Coordenador Global de Ciência da organização,
exemplifica como ONGs científicas de grande porte podem atuar como instâncias
de validação e referência em processos de documentação da biodiversidade.
A plataforma eBird, desenvolvida e
mantida pelo Cornell Lab of Ornithology, também cumpriu papel significativo no
processo. O registro da observação nessa plataforma digital de ciência cidadã e
monitoramento ornitológico permitiu a documentação pública e acessível do
avistamento, com fotografias e descrição detalhada disponíveis à comunidade
científica global em tempo real. A rapidez com que a notícia da redescoberta se
disseminou na mídia especializada e na imprensa geral deve-se, em parte, à
transparência e agilidade proporcionadas por esse tipo de infraestrutura
digital.
No Chade, a Direction de la Faune et
des Aires Protégées (DFAP), órgão subordinado ao Ministério do Meio Ambiente e
da Pesca, é responsável pela gestão da fauna silvestre e das unidades de
conservação do país. A participação ativa de técnicos da DFAP na expedição que
resultou na redescoberta evidencia a importância das capacidades institucionais
nacionais para a pesquisa e conservação da biodiversidade em países com
recursos científicos limitados. A integração entre pesquisadores estrangeiros e
especialistas locais mostrou-se determinante tanto para o sucesso logístico da
missão quanto para a construção de conhecimento contextualizado sobre a
espécie.
A equipe que realizou a redescoberta
anunciou a intenção de retornar ao Chade em janeiro de 2027, com o objetivo de
ampliar o levantamento da espécie e tentar obter registros vocais e informações
sobre seu comportamento reprodutivo, dados que permanecem completamente
desconhecidos até o momento. Essa perspectiva de continuidade indica que a
redescoberta de 2026 não representa um evento isolado, mas o início de um ciclo
de pesquisa que poderá redefinir substancialmente o que se sabe sobre a cotovia-ferruginosa.
Fontes: BirdGuides, Artensterben, Search for Lost Birds, IFLScience, IUCN Red List
Fotos: Cotovia-ferruginosa_American Bird Conservancy, primeira e segunda foto.

