O beija-flor-de-peito-preto (Eriocnemis nigrivestis), conhecido no Equador como zamarrito pechinegro, é uma das aves mais raras e ameaçadas da região andina. De pequeno porte, com cerca de 8 a 9 centímetros de comprimento, a espécie se destaca pelo contraste entre a plumagem escura do peito e os tufos de penas brancas nas pernas, característica típica dos chamados pufflegs. Esse traço visual marcante, aliado ao seu endemismo extremo, fez com que o beija-flor-de-peito-preto se tornasse um símbolo da biodiversidade ameaçada das montanhas que circundam Quito, sendo oficialmente adotado como ave emblemática da cidade.
Além de seu valor estético e
simbólico, a espécie representa um indicador sensível da integridade ecológica
das florestas nubladas altoandinas. Sua presença está associada a ambientes bem
conservados, com elevada diversidade vegetal e ciclos de floração relativamente
estáveis. Assim, a situação crítica do beija-flor-de-peito-preto reflete
não apenas o risco de extinção de uma espécie singular, mas também a degradação
progressiva de um dos ecossistemas mais frágeis e estratégicos dos Andes
equatorianos.
Um beija-flor no limite e uma
floresta como última fronteira
O beija-flor-de-peito-preto
figura atualmente entre as aves mais ameaçadas do planeta. Sua distribuição é
extremamente restrita às florestas nubladas de altitude localizadas
principalmente nas encostas do vulcão Pichincha, nos arredores de Quito.
Estimativas populacionais mais recentes indicam a existência de aproximadamente
150 a 200 indivíduos em vida livre, número que evidencia um risco elevado de
extinção funcional caso ocorram novas perdas de habitat ou eventos ambientais
extremos.
A sobrevivência da espécie está
intimamente ligada à manutenção de fragmentos específicos de floresta nublada,
onde a disponibilidade de néctar, a estrutura da vegetação e o microclima
permitem a alimentação e a reprodução. Nesse contexto, a floresta passa a ser a
última fronteira para a permanência da espécie, tornando qualquer alteração no
uso do solo um fator de impacto potencialmente irreversível.
Distribuição geográfica e
isolamento populacional
Os registros contemporâneos
confirmam que o principal núcleo populacional do beija-flor-de-peito-preto
se encontra na região noroeste do vulcão Pichincha, com destaque para a área
hoje protegida pela Reserva
Yanacocha. Há também indícios de ocorrência em áreas mais ao norte, na
Cordilheira de Toisán, associadas ao vale de Intag, o que sugere a existência
de subpopulações pequenas e altamente isoladas.
Esse padrão espacial fragmentado
representa um dos maiores desafios para a conservação da espécie. A ausência de
conectividade entre fragmentos florestais limita o fluxo genético,
aumenta a vulnerabilidade a distúrbios locais e reduz a capacidade de adaptação
frente a mudanças ambientais, inclusive aquelas associadas às alterações
climáticas em curso.
Exigências ecológicas e
dependência da floresta nublada
O beija-flor-de-peito-preto
ocupa principalmente altitudes entre 3.000 e 3.500 metros, em ambientes
caracterizados por elevada umidade, temperaturas baixas e vegetação densa. A
espécie depende de um conjunto específico de plantas nectaríferas, cujos ciclos
de floração determinam seus padrões de deslocamento local e disponibilidade
energética ao longo do ano.
Alterações na estrutura da floresta,
mesmo quando não resultam em desmatamento completo, podem comprometer esses
ciclos ecológicos. A abertura de clareiras, a criação de bordas e a
substituição da vegetação nativa por pastagens reduzem a oferta de alimento e
expõem a espécie a condições microclimáticas desfavoráveis, com efeitos diretos
sobre sua sobrevivência.
Ameaças cumulativas em um território pressionado
A principal ameaça ao beija-flor-de-peito-preto
é a perda e degradação do habitat, resultante da conversão de florestas
nubladas em áreas de pecuária e agricultura. Essa pressão histórica se
intensificou nas últimas décadas, acompanhada pela abertura de estradas,
expansão de assentamentos humanos e uso recorrente do fogo para limpeza de
áreas, prática que frequentemente foge ao controle.
Além disso, mudanças nos regimes
climáticos vêm alterando padrões de floração e disponibilidade de néctar,
criando descompassos entre oferta de alimento e períodos críticos do ciclo de
vida da espécie. Em áreas como Intag e Toisán, conflitos socioambientais
associados a grandes empreendimentos ampliam o risco de fragmentação acelerada,
muitas vezes em um ritmo superior à capacidade institucional de resposta.
A Reserva Yanacocha e o papel das
organizações de conservação
A criação da Reserva Yanacocha,
administrada pela Fundación
Jocotoco, representa o principal marco na conservação do beija-flor-de-peito-preto.
Estabelecida há cerca de 25 anos, a reserva protege um dos remanescentes mais
importantes de floresta nublada nas encostas do Pichincha e abriga o núcleo
populacional mais consistente da espécie.
A atuação da Fundação Jocotoco vai
além da proteção territorial, integrando pesquisa científica,
restauração ecológica e educação ambiental. Essas ações são
desenvolvidas em parceria com a Aves y
Conservación, organização equatoriana associada à BirdLife International, e com o Ministerio
del Ambiente del Ecuador, responsável pela política ambiental e pela gestão do
sistema nacional de áreas protegidas. Esse arranjo institucional tem sido
fundamental para garantir continuidade e coerência às estratégias de
conservação.
O Projeto Zamarrito Pechinegro e
o engajamento comunitário
Um avanço importante na abordagem
conservacionista foi a implementação do Projeto Zamarrito Pechinegro,
coordenado pela Aves y Conservación em colaboração com a Fundación Jocotoco e
com apoio do Ministério do Ambiente do Equador. O projeto adota uma estratégia
integrada que combina monitoramento da espécie, restauração de habitat e
envolvimento direto de comunidades locais nas áreas de ocorrência.
Entre suas ações estão o mapeamento
de plantas utilizadas pelo beija-flor, o acompanhamento dos ciclos de floração,
o uso de tecnologias para registrar interações entre aves e vegetação e a
restauração de áreas degradadas por meio do plantio de espécies nativas. Um
componente central do projeto é o fortalecimento de viveiros comunitários,
muitos deles conduzidos por grupos de mulheres, que produzem mudas destinadas à
recomposição do habitat e à criação de corredores ecológicos.
Resultados, limites e lições aprendidas
As iniciativas em curso demonstram
que a proteção efetiva do habitat, aliada à restauração baseada em evidências
ecológicas e ao engajamento social, pode estabilizar populações extremamente
reduzidas. A consolidação de Yanacocha como área-chave e a ampliação do
conhecimento sobre a ecologia alimentar da espécie são resultados concretos
desse esforço.
No entanto, persistem limitações
significativas. A fragmentação do território, a recorrência de
incêndios, a pressão por conversão de uso do solo e a lentidão na
implementação de corredores ecológicos continuam a representar riscos elevados.
Em uma espécie com menos de duzentos indivíduos, cada atraso tem peso
desproporcional e pode comprometer décadas de trabalho.
Perspectivas para um futuro
imediato
Garantir a sobrevivência do beija-flor-de-peito-preto
exige a ampliação das áreas restauradas, o fortalecimento da conectividade
entre fragmentos florestais e a redução efetiva das pressões antrópicas nas
faixas altitudinais críticas. Paralelamente, é fundamental consolidar políticas públicas que valorizem a
conservação como componente do desenvolvimento local, oferecendo alternativas
econômicas compatíveis com a manutenção da floresta.
Mais do que salvar uma única
espécie, o esforço em torno do beija-flor-de-peito-preto reafirma a
importância das florestas nubladas andinas como patrimônio natural, hídrico e
cultural. O destino desse pequeno colibri permanece, assim, intimamente ligado
às escolhas feitas hoje sobre o uso e a proteção das montanhas que cercam
Quito.
Fontes: O Eco, Bird Life International, Ebird, Noticias Ambientales, Aves y Conservación, PBS News, Plan de acción para el
zamarrito=pechinegro (2019-2029) , Hotspot de biodiversidad Andes Tropicales, Fundación Futuro Latinoamericano
Fotos:Beija-flor-de-peito-preto_by Dusan M. Brinkhuizen; segunda foto: Beija-flor-de-peito-preto_fêmea_Aves y Conservación;terceira foto_by Murray Cooper; quarta foto:_fêmea_by Danny Bregman; quinta foto:_Fundación de Conservación Jocotoco.jpg




