Lagarto kungaka, o raro réptil australiano que depende da união entre ciência e cultura


O lagarto kungaka, descrito cientificamente como Liopholis mutawintji, é uma das descobertas mais relevantes da herpetologia australiana recente e, ao mesmo tempo, um dos casos mais urgentes de conservação de répteis no país. Conhecido pelos proprietários aborígenes Wiimpatja como kungaka, expressão associada à ideia de “o oculto” ou “a oculta”, esse pequeno lagarto vive apenas no Parque Nacional de Mutawintji, no extremo oeste de Nova Gales do Sul, em uma paisagem marcada por paredões de arenito vermelho, desfiladeiros úmidos e vastas áreas áridas ao redor. Sua existência, restrita a um único refúgio rochoso, revela a permanência de uma linhagem antiga em um ambiente profundamente transformado pela aridificação do continente australiano. Hoje, com menos de 20 indivíduos conhecidos, a espécie pode estar entre os répteis mais raros e ameaçados da Austrália.

Uma espécie confundida por décadas

Durante muito tempo, o kungaka foi considerado apenas uma população isolada do lagarto-de-white, Liopholis whitii, uma espécie de distribuição relativamente ampla em áreas rochosas do sudeste da Austrália. Essa interpretação parecia plausível porque os lagartos do gênero Liopholis podem apresentar semelhanças externas significativas, dificultando a distinção visual entre populações isoladas e espécies efetivamente diferentes.

A situação mudou com estudos genéticos e análises comparativas da forma corporal. Esses trabalhos demonstraram que aquilo que antes era tratado como uma única espécie amplamente distribuída reunia, na verdade, três linhagens distintas. Duas delas correspondem ao lagarto-de-cauda-branca-do-sul, Liopholis whitii, e ao lagarto-de-cauda-branca-do-norte, Liopholis compressicauda. A terceira é o kungaka, Liopholis mutawintji, restrito ao Parque Nacional de Mutawintji e separado por cerca de 500 quilômetros de seus parentes mais próximos.

Essa confirmação científica tem grande importância. Ela não apenas reconhece uma espécie até então invisibilizada pela classificação anterior, como também muda a gravidade de sua situação de conservação. O que parecia ser uma população periférica de uma espécie mais comum passou a ser entendido como uma espécie única, endêmica, extremamente localizada e em risco crítico de desaparecer.

Uma linhagem antiga em um refúgio úmido

O kungaka representa uma linhagem ancestral provavelmente originada em períodos em que a Austrália possuía condições ambientais mais úmidas. Com o avanço da aridez em grande parte do continente, populações dependentes de ambientes mais frescos e úmidos ficaram confinadas a pequenos refúgios ecológicos. No caso do kungaka, esse refúgio corresponde a uma área de desfiladeiro dentro de Mutawintji, onde fendas rochosas, sombra, umidade e abrigo oferecem condições mínimas para sua sobrevivência.

Essa característica torna a espécie cientificamente valiosa. Ela funciona como testemunho biológico de uma paisagem australiana antiga, anterior ao predomínio das condições secas que hoje marcam grande parte do interior do país. Ao mesmo tempo, sua dependência de um ambiente tão estreito transforma sua conservação em tarefa extremamente delicada. Qualquer alteração no microclima local, na estrutura das rochas, na vegetação ou na presença de predadores pode ter efeitos desproporcionais sobre uma população tão pequena.

Os kungaka vivem entre rochas, fendas e áreas mais úmidas dos desfiladeiros, utilizando abrigos naturais e tocas sob pedras. Esse comportamento os protege parcialmente do calor extremo e de predadores, mas também os torna vulneráveis à degradação física do habitat. Quando as rochas são pisoteadas, deslocadas ou expostas, os lagartos perdem locais de abrigo, reprodução e proteção térmica.

Uma população reduzida a menos de 20 indivíduos

O monitoramento da população ocorre há cerca de 25 anos, com intensificação das pesquisas a partir de 2019. Levantamentos recentes, incluindo métodos de identificação por padrões fotográficos, indicam que menos de 20 indivíduos foram registrados desde as pesquisas de 2024. Esse número coloca o kungaka em uma condição extremamente crítica.

Uma população tão reduzida enfrenta riscos que vão além das ameaças externas mais visíveis. A baixa quantidade de indivíduos pode comprometer a diversidade genética, dificultar o encontro entre parceiros reprodutivos, aumentar a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos e tornar qualquer perda individual biologicamente relevante. Mesmo a morte de poucos animais pode representar um impacto severo sobre a continuidade da espécie.

Por essa razão, o kungaka pode ser considerado funcionalmente à beira da extinção. A expressão não significa que a espécie já desapareceu, mas indica que sua população é tão pequena que pode não conseguir se recuperar sem intervenção planejada, constante e culturalmente adequada. A conservação, nesse caso, precisa ir além do simples registro científico. Ela exige ação imediata, coordenação institucional e presença contínua no território.

Cabras, predadores introduzidos e clima extremo

As cabras selvagens são apontadas como uma das principais ameaças ao kungaka. Em grande número na região, elas degradam o ambiente por meio do sobrepastoreio e do pisoteio. Ao consumir a vegetação e danificar áreas rochosas frágeis, reduzem a disponibilidade de alimento indireto, abrigo e proteção microclimática. Para uma espécie que depende de fendas, pedras e umidade localizada, esse impacto pode ser decisivo.

O pisoteio também altera a estrutura do habitat. Rochas deslocadas, vegetação empobrecida e solos degradados tornam os lagartos mais expostos ao calor, à seca e aos predadores. Esse mesmo problema afeta outras espécies ameaçadas de Mutawintji, como o canguru-das-rochas-de-patas-amarelas, cuja recuperação recente mostra, porém, que ações continuadas de manejo podem produzir resultados positivos quando há planejamento e persistência.

Além das cabras, gatos e raposas introduzidos representam ameaça direta. Esses predadores podem capturar lagartos adultos e jovens, reduzindo ainda mais uma população já mínima. Embora predadores nativos também façam parte da dinâmica ecológica da região, o problema central está na combinação entre predadores introduzidos, perda de abrigo e baixa capacidade de reposição populacional.

As mudanças climáticas agravam esse quadro. O extremo oeste de Nova Gales do Sul já enfrenta condições severas de calor e seca, e a seca de 2017 a 2019 foi uma das mais quentes e secas já registradas na região. Para uma espécie associada a um pequeno refúgio úmido em meio a uma matriz árida, o aumento da temperatura e a redução da umidade podem comprometer justamente as condições que permitiram sua sobrevivência até agora.

Conservação guiada por Wiimpatja

A conservação do kungaka não pode ser compreendida apenas como um desafio técnico. Para os Wiimpatja, a espécie está ligada à terra, à memória, à cultura e às relações entre pessoas, animais e território. O nome kungaka expressa essa conexão antiga e reforça o fato de que o lagarto já era conhecido pelos proprietários tradicionais antes de sua descrição formal pela ciência.

A colaboração entre os proprietários aborígenes Wiimpatja, o Serviço de Parques Nacionais e Vida Selvagem de Nova Gales do Sul, o Conselho de Mutawintji e o Instituto de Pesquisa do Museu Australiano tem sido central para o reconhecimento e a proteção da espécie. Essa parceria mostra que o conhecimento científico e o conhecimento tradicional não devem ser tratados como campos opostos. No caso do kungaka, a conservação depende justamente da integração entre monitoramento técnico, manejo do território e orientação cultural.

Um ponto essencial é que as ações precisam ocorrer em território tradicional e sob orientação Wiimpatja. Isso significa reconhecer que a proteção do lagarto também envolve o direito de cuidar da terra, recuperar vínculos culturais e fortalecer formas locais de gestão ambiental. A espécie não é apenas um organismo raro para a ciência. Ela é parte de uma paisagem cultural viva.

Acertos, falhas e desafios do processo de conservação

O principal acerto até o momento foi a construção de uma colaboração de longo prazo. O monitoramento iniciado há décadas permitiu perceber que a população era extremamente pequena e que havia declínio em sua área de ocorrência, no número de indivíduos observados e na qualidade do habitat. A descrição formal da espécie também representa um avanço, pois oferece base científica para políticas de proteção mais específicas.

Outro acerto importante foi o reconhecimento da liderança Wiimpatja no cuidado com o kungaka. Em muitos casos, espécies ameaçadas são descritas e manejadas sem a devida centralidade das comunidades tradicionais. Em Mutawintji, a conservação tem sido apresentada como uma responsabilidade compartilhada, mas culturalmente orientada pelos proprietários tradicionais.

As falhas estão associadas sobretudo ao tempo. Durante décadas, o kungaka permaneceu classificado como uma população isolada de outra espécie. Essa demora no reconhecimento formal reduziu a visibilidade de seu risco real. Além disso, as ameaças principais, especialmente cabras selvagens e predadores introduzidos, continuaram pressionando o habitat enquanto a população diminuía. A lentidão em transformar conhecimento acumulado em medidas emergenciais pode ter contribuído para que a espécie chegasse a um ponto crítico.

O desafio agora é evitar que a descrição científica se torne apenas o registro tardio de uma extinção. Para isso, a conservação precisa avançar rapidamente do diagnóstico para a ação.

Propostas para um futuro imediato

A primeira prioridade deve ser o controle efetivo de cabras selvagens nas áreas sensíveis do desfiladeiro. Sem a redução dessa pressão, qualquer medida de proteção será limitada. A restauração do habitat rochoso e da vegetação associada também precisa ser considerada, com cuidado para não alterar artificialmente as condições microambientais das quais o lagarto depende.

A segunda prioridade é o controle de gatos e raposas. Em populações com menos de 20 indivíduos conhecidos, a predação de poucos animais pode ter consequências graves. Esse controle deve ser planejado de forma contínua e acompanhado por monitoramento para avaliar resultados.

A terceira prioridade é ampliar os levantamentos em áreas próximas, buscando possíveis populações ainda não detectadas. Como o próprio nome sugere, o kungaka é uma espécie discreta e de difícil observação. A descoberta de outros grupos poderia modificar as estratégias de conservação, ampliar a base genética disponível e reduzir o risco de extinção imediata.

A quarta medida é manter e aperfeiçoar o monitoramento individual por fotografias, associado a estudos genéticos, avaliação do habitat e acompanhamento climático. A conservação deve saber quantos indivíduos existem, onde estão, se estão se reproduzindo e quais áreas oferecem melhores condições de sobrevivência.

Diante do tamanho extremamente reduzido da população, a reprodução em cativeiro ou programas de conservação assistida podem se tornar necessários. Essa alternativa deve ser tratada com cautela, pois envolve riscos, custos e decisões éticas. No entanto, quando uma espécie se aproxima de um limite populacional tão baixo, manter uma população de segurança pode ser decisivo para evitar sua perda definitiva.

Um lagarto pequeno com enorme significado

O kungaka reúne, em uma única espécie, valor científico, importância cultural e urgência conservacionista. Ele é uma linhagem antiga, sobrevivente de uma Austrália mais úmida; uma espécie endêmica de um único parque nacional; um animal profundamente ligado ao território Wiimpatja; e um réptil cuja população conhecida pode estar abaixo de 20 indivíduos.

Sua conservação exige mais do que medidas pontuais. Requer controle de ameaças, proteção do habitat, monitoramento constante, apoio institucional, participação comunitária e respeito à condução cultural dos proprietários tradicionais. O caso do kungaka mostra que algumas espécies podem permanecer ocultas à ciência por muito tempo, mesmo sendo conhecidas pelas comunidades que vivem com elas. Mostra também que o reconhecimento científico, quando chega tarde, precisa ser acompanhado de ação rápida.

Salvar o kungaka é proteger uma espécie, mas também preservar uma história ecológica antiga e uma relação cultural profunda com a terra. Em um cenário de mudanças climáticas, perda de habitat e declínio acelerado da biodiversidade, sua sobrevivência dependerá da capacidade de transformar conhecimento, responsabilidade e cooperação em medidas concretas nos próximos anos.

Fontes: ABC News, The Conversation, Zootaxa, Secret Sydney, Xinhua Net, Yahoo News, Eco News, Back Country Bulletin, Daily Galaxy

 Fotos: Lagarto kungaka_by Tom Parkin; segunda foto e terceira foto: Lagarto kingaka_NSW National Parks and Wildlife Service