Conservação e futuro da pomba-codorna-roxa no sub-bosque da região do Chocó


Pouco observada e restrita a uma das áreas mais biodiversas do planeta, a pomba-codorna-roxa (Geotrygon purpurata) depende da integridade das florestas úmidas do Pacífico colombiano e equatoriano para sobreviver. Sua presença está associada a ambientes florestais densos e estruturalmente complexos, onde exerce papel ecológico relevante na dinâmica do solo e na regeneração vegetal. A combinação entre distribuição limitada, baixa densidade populacional e pressões crescentes sobre seu território transformou a espécie em um indicador sensível da estabilidade ecológica na faixa florestal que conecta o oeste da Colômbia ao noroeste do Equador, conhecida como região do Chocó.

Classificação e estado de conservação

A pomba-codorna-roxa (Geotrygon purpurata) é uma ave terrestre da família Columbidae restrita à bioregião do Chocó, uma das áreas de maior pluviosidade e biodiversidade do planeta. Atualmente, encontra-se classificada como Em Perigo de Extinção (EN) em âmbito nacional e internacional, refletindo o elevado risco de desaparecimento diante das pressões que incidem sobre seu habitat.

As estimativas populacionais mais recentes indicam que existam entre 600 e 1.700 indivíduos adultos, o que corresponde a uma população total aproximada de 1.000 a 2.499 indivíduos. Trata-se de um contingente extremamente reduzido e fragmentado, com subpopulações que provavelmente não ultrapassam 50 indivíduos maduros cada. Esse cenário torna a espécie particularmente vulnerável a eventos imprevisíveis, à perda localizada de habitat e à pressão de caça.

Características morfológicas e comportamento

Medindo entre 22 e 26 centímetros e pesando cerca de 155 gramas, a pomba-codorna-roxa apresenta plumagem marcante e sofisticada. O macho possui testa, garganta e bochechas brancas, contrastando com uma faixa malar preto-arroxeada que se estende além das penas auriculares. As partes superiores variam entre marrom-avermelhado e tons arroxeados, intensificando-se nas asas. A coroa e a nuca exibem tonalidade roxa, enquanto as costas e a garupa apresentam coloração ultramarina. O peito é cinza-escuro, o ventre branco, e as penas externas da cauda possuem manchas brancas. A íris vermelho-clara, o estreito anel ocular vermelho e as pernas avermelhadas reforçam seu aspecto distintivo.

Espécie tipicamente tímida e discreta, habita o sub-bosque e o solo de florestas úmidas perenes de planície e sopé de montanha, entre 200 e 1.100 metros de altitude, ocorrendo com maior frequência entre 600 e 1.100 metros. Forrageia no chão da floresta, alimentando-se provavelmente de sementes e pequenos invertebrados. Sua presença é muitas vezes detectada por um canto característico de nota única.

Distribuição geográfica e habitat

A distribuição da espécie limita-se ao oeste da Colômbia e ao noroeste do Equador, dentro da região do Chocó. Em toda sua área de ocorrência, é considerada residente incomum ou rara. Na Colômbia, há registros confirmados em apenas três localidades nas últimas décadas, indicando severa retração espacial ou dificuldade de detecção.

Registros recentes apontam sua presença em algumas áreas protegidas, como a Reserva Bilsa, no Equador, e Pangán, na Colômbia. Contudo, mesmo essas áreas enfrentam pressões crescentes, como invasões humanas, exploração ilegal de recursos naturais e degradação florestal. Diversas localidades históricas onde a espécie já foi registrada foram completamente desmatadas.


Tendências populacionais e declínio

Embora as taxas globais de desmatamento na região tenham sido relativamente baixas, inferiores a 2% ao longo de três gerações, esse dado isolado mascara um quadro mais complexo. A combinação de degradação do habitat, mineração de ouro, expansão de cultivos ilícitos (especialmente coca), agricultura comercial (como palma de óleo e café), pecuária extensiva e desenvolvimento de infraestrutura tem provocado um declínio contínuo.

Estima-se que a taxa de redução populacional esteja entre 1% e 19% em três gerações. Para uma espécie com população já reduzida e altamente fragmentada, mesmo declínios percentualmente moderados representam perdas significativas e potencialmente irreversíveis.

A caça para alimentação também constitui fator de pressão adicional. Sendo uma ave terrestre e discreta, torna-se relativamente vulnerável à captura em áreas onde a presença humana avança sobre a floresta.

Ameaças estruturais e processos de degradação

O principal vetor de ameaça é a perda e fragmentação do habitat. A expansão agrícola, especialmente de palma africana e café, aliada à pecuária extensiva, converte extensas áreas florestais em paisagens homogêneas e ecologicamente empobrecidas. A mineração de ouro, muitas vezes associada à contaminação por mercúrio, altera profundamente o solo e os cursos d’água.

Nos últimos anos, a expansão da produção de coca intensificou a pressão sobre áreas remotas da floresta do Chocó. A abertura de clareiras, a construção de acessos e a instalação de assentamentos humanos ampliam a fragmentação e favorecem atividades secundárias, como a caça.

Projetos de infraestrutura, como estradas e empreendimentos energéticos, aumentam a conectividade humana em regiões antes isoladas, facilitando invasões e ocupações irregulares, inclusive dentro de áreas formalmente protegidas.

Ações de conservação em andamento

Não há registro de programas específicos voltados exclusivamente para a pomba-codorna-roxa. Contudo, a espécie foi registrada em três áreas protegidas no Equador e em uma na Colômbia, o que indica que parte de sua população se encontra sob algum grau de proteção legal.

No Equador, a espécie está listada oficialmente como Ameaçada de Extinção em nível nacional, o que cria base jurídica para políticas públicas de proteção. Ainda assim, a eficácia dessas medidas depende da implementação prática, fiscalização contínua e financiamento adequado.

Algumas áreas protegidas enfrentam invasões humanas e degradação, revelando fragilidades institucionais e limitações na gestão territorial. A simples designação formal de uma área como protegida não tem sido suficiente para garantir a integridade ecológica necessária à sobrevivência da espécie.

Propostas e caminhos para o futuro imediato

A conservação da pomba-codorna-roxa exige uma abordagem integrada, urgente e territorialmente articulada. A ampliação da rede de áreas protegidas deve constituir prioridade estratégica, especialmente nas Áreas Importantes para a Conservação da Biodiversidade (IBAs), onde ainda persistem remanescentes florestais essenciais à manutenção das subpopulações existentes. No entanto, a simples criação formal de novas unidades não será suficiente. É imprescindível fortalecer a gestão das áreas já estabelecidas, com alocação adequada de recursos financeiros, equipes técnicas capacitadas e sistemas eficazes de fiscalização que impeçam invasões, desmatamento e exploração ilegal de recursos.

Paralelamente, a incorporação de mecanismos de financiamento climático, como créditos de carbono e programas voltados à redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, pode representar oportunidade concreta de vincular a conservação da espécie à agenda global de mitigação das mudanças ambientais. Ao associar proteção florestal a incentivos econômicos sustentáveis, cria-se um ambiente mais favorável à permanência da cobertura vegetal e à valorização dos serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas do Chocó.

A conservação em terras privadas também assume papel central nesse processo. A expansão de instrumentos de mercado que estimulem práticas sustentáveis, aliada a políticas públicas que desincentivem o desmatamento em áreas ambientalmente frágeis, pode reduzir significativamente a pressão sobre os fragmentos remanescentes. Além disso, medidas efetivas de combate à caça e à ocupação irregular do território precisam ser acompanhadas por alternativas socioeconômicas viáveis para as comunidades locais, evitando que a proteção da biodiversidade seja percebida como obstáculo ao desenvolvimento.

Por fim, o monitoramento populacional sistemático é condição indispensável para orientar decisões futuras. Investimentos em pesquisa de campo, levantamento de densidade populacional, estudos sobre reprodução e uso do habitat permitirão compreender melhor a dinâmica da espécie e avaliar a eficácia das ações implementadas. Diante de uma população estimada entre 600 e 1.700 indivíduos adultos, distribuída em subpopulações extremamente pequenas, cada decisão de gestão territorial terá impacto direto sobre as possibilidades reais de sobrevivência da pomba-codorna-roxa no curto e médio prazo.

A situação da espécie evidencia tanto falhas quanto oportunidades. Falhas na fiscalização, na implementação de políticas e no controle da expansão agrícola e minerária contribuíram para sua atual condição crítica. Por outro lado, o reconhecimento oficial de seu status ameaçado e sua ocorrência em áreas protegidas oferecem bases para uma resposta estruturada.

O futuro da conservação da pomba-codorna-roxa

A pomba-codorna-roxa simboliza a vulnerabilidade das espécies especializadas do sub-bosque tropical frente à expansão econômica desordenada. Com uma população estimada entre 600 e 1.700 indivíduos adultos, distribuídos em subpopulações extremamente pequenas, cada fragmento de floresta remanescente assume valor estratégico.

Sua conservação depende menos de ações isoladas e mais de um compromisso regional robusto entre governos, organizações da sociedade civil, comunidades locais e mecanismos internacionais de financiamento ambiental. O futuro imediato da espécie será determinado pela capacidade de transformar áreas formalmente protegidas em territórios efetivamente preservados, reduzir a pressão antrópica e integrar conservação da biodiversidade com desenvolvimento sustentável.

Salvar a pomba-codorna-roxa é, em última análise, preservar um dos componentes mais discretos e singulares da floresta do Chocó, um dos ecossistemas mais ricos e ameaçados do planeta.

Fontes: Ebird, DataZone/Birdlife, Animalia.bio, Inaturalist, Birds of Colômbia, Birds Colômbia, Bioweb Ecuador 

Fotos: Pomba-codorna roxa_Rob Felix; segunda foto:_by Juan Carlos,Narváez Dobronski; terceira foto: _by Nick Nepokroeff; quarta foto:_by Rodrigo Gaviria.webp