A pomba-de-Socorro (Zenaida graysoni), também conhecida como pomba-de-Grayson, é uma das histórias mais emblemáticas de conservação baseada no estabelecimento de uma população de seguro, quando uma espécie já não existe em vida livre, mas é mantida viva por redes humanas de cuidado, manejo genético e restauração ambiental. Endêmica da Ilha de Socorro, a maior do arquipélago de Revillagigedo, no Pacífico mexicano , ela desapareceu do seu ambiente natural ao longo do século XX e foi oficialmente classificada como Extinta na Natureza em 1994.
Embora o último registro em vida
livre seja indicado como 1972, há referências de que a espécie já não era
observada com regularidade desde as décadas anteriores, em um processo de
colapso rápido em ambiente insular. A partir de então, sua sobrevivência passou
a depender quase inteiramente de programas coordenados de reprodução em
cativeiro, articulando zoológicos, equipes veterinárias, pesquisadores e
instituições governamentais mexicanas.
Ecologia e características que
ampliaram a vulnerabilidade
No ambiente original, a espécie
ocupava áreas florestadas e, ao que tudo indica, apresentava predileção por
altitudes acima de 500 metros, em formações dominadas por árvores e arbustos
nativos. Era uma ave fortemente terrestre: alimentava-se de sementes e pequenos
frutos, caminhava com frequência e tendia a voar menos do que outras pombas, o
que, em uma ilha que passou a abrigar predadores introduzidos, tornou-se um
risco decisivo. Também há menção a movimentos altitudinais sazonais, com maior
abundância nas terras altas em determinados meses e presença mais comum nas
terras baixas em outras épocas, sugerindo uma ecologia espacial relativamente
dinâmica dentro de um território pequeno.
A própria lógica evolutiva de
espécies insulares ajuda a compreender o desastre: em ilhas sem predadores
mamíferos equivalentes, comportamentos de fuga e desconfiança tendem a ser
menos intensos. Quando gatos passam a existir nesse cenário, a assimetria é
brutal, o predador chega pronto para a caça, enquanto a presa não dispõe de
repertório comportamental e ecológico para reagir com eficiência.
O colapso na Ilha de Socorro
As causas do desaparecimento em vida
livre convergem para um conjunto típico de impactos humanos em ilhas:
introdução de predadores, degradação do habitat e pressão direta. Gatos levados
por humanos tornaram-se ferais e passaram a caçar as pombas. Ovelhas
introduzidas para uso humano degradaram a vegetação, reduzindo recursos e
alterando áreas essenciais para alimentação e nidificação. Há também referência
à predação humana para consumo, compondo um quadro de pressão múltipla e
acelerada.
Essa combinação foi devastadora
porque a espécie não tinha para onde ir, pois sua distribuição estava limitada
a uma única ilha. Em poucos decênios, a população selvagem entrou em colapso, e
expedições posteriores não encontraram indivíduos, consolidando a extinção
na natureza e transferindo a disputa pela sobrevivência para dentro dos
recintos de conservação.
A população de segurança e o
papel dos zoológicos
O que impediu a extinção definitiva
foi a existência de núcleos sob cuidado humano, que passaram a ser geridos de
forma cada vez mais técnica e coordenada. A reprodução em cativeiro não
é apenas multiplicar indivíduos: exige manejo genealógico, pareamentos
planejados para reduzir endogamia, padronização de cuidados, e decisões
estratégicas sobre transferências entre instituições para equilibrar
diversidade genética.
Nesse esforço, a cooperação entre
zoológicos europeus ganhou centralidade. Em 1995, a Associação Europeia de Zoos e Aquários
(EAZA) reconheceu oficialmente um programa de reprodução, iniciado por
instituições como os zoológicos de Colônia e Frankfurt, com abertura de unidade
especializada (Marlow
Bird Park, na Alemanha) e planejamento explícito de reintrodução. Um ponto
crítico apareceu cedo: análises genéticas apontaram hibridização extensa em
parte da população mantida nos EUA com a rola-carpideira (Zenaida macroura),
reduzindo a viabilidade de parte desses indivíduos como fundadores para retorno
à ilha. Por isso, a população europeia foi indicada como base mais segura para
esforços de reintrodução.
Organizações e instituições centrais na conservação em cativeiro
A sobrevivência da pomba-de-Socorro
fora de seu ambiente natural só foi possível graças a uma articulação
institucional de longo prazo, envolvendo zoológicos, programas internacionais
de manejo genético e autoridades ambientais. No centro desse esforço está o European Endangered Species Programme
(EEP), coordenado pela European Association of Zoos and Aquaria (EAZA),
que estabeleceu diretrizes formais para a reprodução, troca de indivíduos e
gestão genética da espécie em escala continental.
A coordenação técnica do programa é
liderada pelo Zoo de Frankfurt,
que atua como instituição-âncora, responsável pelo studbook internacional da
espécie, pelo planejamento de pareamentos e pela definição de prioridades de
transferência entre zoológicos participantes. Esse papel é crucial para evitar
endogamia e garantir que a população em cativeiro mantenha diversidade genética
suficiente para uma futura reintrodução.
Além do Zoo de Frankfurt, diversos
zoológicos europeus integram ativamente o programa, mantendo casais
reprodutores e participando de estratégias conjuntas de conservação. Entre eles
destaca-se o Vogelpark
Steinen, especializado em aves, que teve papel relevante na
consolidação de núcleos reprodutivos estáveis. Outras instituições na Alemanha,
Reino Unido, Bélgica e países vizinhos também participam do esforço, compondo
uma rede distribuída que reduz riscos associados a perdas локais ou eventos
sanitários.
No âmbito governamental, a
conservação da pomba-de-Socorro envolve diretamente a Secretaría
de Medio Ambiente y Recursos Naturales (SEMARNAT), responsável pelas
autorizações, pelo planejamento ambiental da Ilha de Socorro e pela articulação
com a Comisión
Nacional de Áreas Naturales Protegidas (CONANP), uma vez que o
arquipélago de Revillagigedo é área natural protegida. Essas instituições são
essenciais para garantir que ações de erradicação de espécies invasoras,
restauração da vegetação e futuras reintroduções ocorram dentro de um marco
legal e ecológico consistente.
Assim, a conservação da Zenaida
graysoni não depende de uma única entidade, mas de uma arquitetura
institucional internacional, na qual zoológicos, programas científicos e
órgãos estatais compartilham responsabilidades. Trata-se de um exemplo
emblemático de conservação ex situ que só mantém sentido quando articulada a
objetivos claros de restauração ambiental e retorno à vida livre.
Avanços, entraves e lições duras do processo
A história recente é feita de
vitórias reais e frustrações igualmente instrutivas. Um exemplo claro de
entrave externo foi a interrupção de planos por questões sanitárias: em 2005,
havia expectativa de envio de aves para a ilha, mas um surto de gripe aviária
na Europa levou à proibição mexicana de importação de aves, atrasando o
processo e obrigando a criação de redundâncias populacionais para reduzir
riscos.
Do lado ambiental, o passo mais
concreto foi o enfrentamento de espécies invasoras. Há registro de uma campanha
de erradicação de ovelhas ferais entre 2009 e 2012, com grande número de
animais abatidos, seguida de confirmação de eliminação e declaração oficial de
ilha livre de ovelhas em 2014, com indicação de recuperação passiva da
vegetação após a retirada do herbívoro invasor. Ao mesmo tempo, permanece a
preocupação com gatos (e também ratos), porque basta uma falha na eliminação de
predadores para comprometer qualquer libertação futura, sobretudo de uma ave
que, em sua ecologia, tende a usar o chão e a explorar ambientes de forma
relativamente confiante.
Quantos indivíduos existem hoje
Como ocorre em programas globais
multi-institucionais, os números variam conforme a data e o recorte do
levantamento, mas a faixa atual apresentada baseada em informações recentes
aponta para algo em torno de cerca de 194 indivíduos distribuídos por
aproximadamente 48 zoológicos, com menções também a valores “pouco acima” desse
patamar.
Há, ainda, referências de janeiro de
2026 a uma população de cerca de 200 indivíduos em cativeiro, reforçada por
nascimentos recentes que ampliam a base demográfica do plantel.
Esses números evidenciam
simultaneamente esperança e fragilidade, pois trata-se de uma população
pequena, dependente de manejo altamente especializado, em que cada nascimento
tem relevância estatística e genética.
Nascimentos recentes e a engrenagem institucional da conservação
As informações destacam nascimentos
como marcos simbólicos e técnicos. Em maio de 2025, foi anunciado o nascimento
de uma cria em instituição participante do EEP (European Endangered Species
Programme), com coordenação do Zoo de Frankfurt, que define diretrizes de gestão
genética e destinos de indivíduos nascidos dentro do programa.
Em janeiro de 2026, a menção a oito
novos filhotes nascidos no Chester Zoo, no Reino Unido, surge como sinal de
vitalidade reprodutiva e reforço da população de segurança, mostrando que o
plantel está ativo, com casais reprodutores funcionando e protocolos de cuidado
capazes de sustentar novas gerações.
Esse componente institucional é
decisivo, pois sem coordenação internacional, o risco de perda de diversidade
genética e de falsas soluções (como cruzamentos indesejados) cresce. A
conservação, aqui, é essencialmente governança, com regras, padronização, troca
de indivíduos, metas de longo prazo e integração com as condições ecológicas do
local de retorno.
Reintrodução, o que falta para o próximo passo
O retorno à Ilha de Socorro é o
objetivo que dá sentido a décadas de trabalho. Mas a reintrodução permanece
condicionada à recuperação ambiental e ao controle efetivo de predadores
introduzidos. A restauração de vegetação nativa e a segurança ecológica do
território são requisitos inegociáveis, pois soltar indivíduos sem essas
condições seria transformar uma conquista em perda rápida.
Há indicação de que a reintrodução é
tratada como meta planejada para a próxima década, com referência a 2030 como
horizonte de início de retorno. Mesmo quando a infraestrutura e os plantéis
parecem prontos, a espécie depende de fatores que vão além do cativeiro, como a
estabilidade política, continuidade de ações ambientais na ilha, prevenção de
reintrodução acidental de invasoras e capacidade de monitoramento pós-soltura.
Perspectivas imediatas para
salvar a espécie
O futuro imediato da
pomba-de-Socorro passa por três frentes inseparáveis. A primeira é crescer com
qualidade, ampliando o número de indivíduos sem sacrificar diversidade
genética, mantendo o padrão de pareamentos planejados e vigilância sanitária. A
segunda é garantir a integridade ecológica da ilha, com erradicação consolidada
de predadores e recuperação consistente da vegetação, além de mecanismos
permanentes de biossegurança para evitar novas invasões. A terceira é planejar
a reintrodução como processo, e não como evento. Envolve aclimatação, solturas
graduais, marcação e monitoramento, avaliação de sobrevivência, correções de
rota e governança transparente entre instituições e Estado.
A trajetória da espécie mostra que
conservação não é linear. Ela exige admitir falhas, aprender com atrasos
impostos por crises sanitárias e por limitações burocráticas, e sustentar por
décadas um esforço coletivo que não pode depender apenas de entusiasmo.
Ainda assim, a existência atual de uma população global viva, embora pequena,
indica que a extinção na natureza não precisa ser sentença final, desde que a
reintrodução seja feita com rigor ecológico e maturidade institucional.
Fontes:
Fotos: Pomba-de-Socorro_Edinburgh Zoo; segunda foto e terceira foto:ambas_by Robrecht Kruft; quarta foto:_by Kennyannydenny; quinta foto:_Greensavers (divulgação)




