Reintrodução da girafa angolana: jornada de conservação que traz esperança renovada para a biodiversidade de Angola


A girafa angolana (Giraffa camelopardalis angolensis ou Giraffa girafa angolensis), também conhecida como girafa da Namíbia ou giraffa esfumaçada, é uma subespécie de girafa nativa de África, encontrada ao sul do Saara, principalmente na Zâmbia, Botswana e Namíbia. Por muito tempo, essas girafas foram consideradas extintas em Angola. No entanto, em anos recentes, houve registros de sua presença no Parque Nacional de Luengue-Luiana, o que reacendeu a esperança para a preservação dessa espécie.

Todas as espécies de girafa se encontram em situação de extrema vulnerabilidade na África

A situação da girafa angolana é a mesma das outras subespécies do continente africano. Todas as girafas se encontram em situação de vulnerabilidade de acordo com a IUCN.  A subespécie girafa angolana na lista vermelha de espécies de Angola, é considerada em perigo (EN), um estado ainda mais crítico. A espécie enfrenta ameaças significativas, incluindo a perda de habitat, a fragmentação de subpopulações, a caça para extração de sua pele grossa e resistente, alimentação, venda de outras partes e o risco potencial de hibridação (reprodução de animais de espécies diferentes).

Translocação épica de 14 girafas da Namíbia para Angola

No entanto, em 5 de julho de 2023, um evento importante marcou um ponto de virada para a girafa angolana. Nesse dia, 14 girafas – sete machos e sete fêmeas - começaram uma jornada épica de 1.300 quilômetros e mais de 36 horas ao longo da costa sudoeste da África. Esses animais foram transportados de uma fazenda de caça privada no centro da Namíbia até o Parque Nacional de Iona, em Angola. Essas girafas jovens, cada uma medindo 3,5 metros de altura, foram capturadas dois dias antes (no dia 03) na Namíbia.

Várias organizações da sociedade civil e o governo de Angola colaboraram na translocação

O Parque Nacional de Iona, uma vasta área de 15.150 quilômetros quadrados que faz fronteira com o Parque da Costa do Esqueleto da Namíbia, é uma das maiores áreas de conservação transfronteiriças do planeta. Esta translocação, organizada por uma colaboração entre a African Parks, uma ONG que supervisiona a gestão de parques nacionais em 12 países, incluindo Iona, o governo de Angola, e a Giraffe Conservation Foundation (GCF), que, juntamente com a Wyss Foundation, financiaram a mudança, destaca o compromisso de restaurar a diversidade de espécies historicamente presentes no Parque Nacional de Iona.

Primeiras girafas a serem devolvidas aos parques nacionais de Angola

A translocação foi um marco importante, visto que essas girafas são as primeiras a serem devolvidas aos parques nacionais do país num esforço para restaurar a vida selvagem de Angola, que foi dizimada durante décadas de conflito. A girafa angolana é uma subespécie distinta que possui duas protuberâncias na cabeça e uma coloração mais escura, conferindo-lhe o apelido de "girafa esfumaçada". Estima-se que existam mais de 20.000 dessas girafas, encontradas principalmente no norte da Namíbia, bem como na Zâmbia e em Botswana. No entanto, a população em Angola sofreu um declínio acentuado na década de 1970, provavelmente devido à guerra civil, até que proprietários privados começaram a trazê-las de volta para suas fazendas e reservas.

Comunidade local apoia com entusiasmo o retorno das girafas ao Parque Nacional de Iona

Esta translocação também é importante porque sinaliza a primeira translocação de espécies para Iona desde que a African Parks assumiu sua gestão em 2019. A reintrodução das girafas angolanas em Iona não só ajudará a restaurar o ecossistema do parque, mas também é recebida com entusiasmo pela comunidade local. De acordo com uma pesquisa realizada pela African Parks, a maioria dos habitantes de Iona é altamente receptiva à presença de girafas no parque e ao potencial turístico que elas podem trazer.

Praticamente extinta em Angola a girafa se multiplicou na vizinha Namíbia

A girafa angolana está agora de volta ao sudeste de Angola após uma ausência de várias décadas, marcando um retorno triunfante após a viagem de 1.300 km da vizinha Namíbia. Essa subespécie única, perfeitamente adaptada às condições semidesérticas do sul de Angola, estava praticamente extinta na sequência da guerra civil angolana, e foi mais recentemente conhecida como a “girafa da Namíbia” devido ao seu desaparecimento em Angola.

Embora os desafios permaneçam, a translocação bem-sucedida das girafas angolanas simboliza um passo significativo em direção à restauração da biodiversidade de Angola e serve como um lembrete da resiliência da natureza e do papel crucial que as iniciativas de conservação desempenham na proteção e preservação das espécies em perigo.

Fonte: Eco Angola, Galileu, Biodiversity4all, Giraffe Conservation Foudation, Guardian, The Namibian, Daily Maverick 

Fotos: Girafa angolana_Giraffe Conservation Foundation e segunda foto; Girafas angolanas sendo transportadas da Namíbia para Angola_by Casey Crafford