O Papagaio-de-Bochecha-Azul (Amazona dufresniana): biologia, distribuição e os desafios da conservação de uma espécie pouco conhecida


O Brasil, historicamente reconhecido como a "Terra dos Papagaios", abriga atualmente 87 espécies catalogadas de psitacídeos, o que representa aproximadamente 25% da diversidade global desse grupo de aves. Dentro dessa extraordinária diversidade, existem espécies ainda amplamente desconhecidas tanto pela população em geral quanto pela própria comunidade científica. É o caso do papagaio-de-bochecha-azul (Amazona dufresniana), uma ave de distribuição restrita, dados biológicos escassos e presença documental rarefeita no país.

Os recentes registros obtidos nos municípios de Oriximiná e Terra Santa, no estado do Pará, nos anos de 2025 e 2026, ampliaram de forma significativa o conhecimento sobre a distribuição da espécie no Brasil, reacendendo o interesse científico por uma ave que permanece, em muitos aspectos, um enigma para a ornitologia nacional.

Sistemática, morfologia e características diagnósticas

O papagaio-de-bochecha-azul pertence à ordem Psittaciformes e à família Psittacidae. Em termos morfológicos, a ave mede entre 34 e 37 cm de comprimento sendo, portanto, classificada como de grande porte para o gênero. Sua plumagem é predominantemente verde, mas apresenta marcações diagnósticas que a distinguem de outras espécies que coocorrem na Amazônia. O elemento mais característico são as bochechas de coloração azul-clara, que podem se estender lateralmente até a base do bico e os lados do pescoço, conferindo à espécie seu nome popular. A fronte apresenta uma franja estreita em tom alaranjado, enquanto a coroa é amarela. As asas exibem bordas azuis nas penas primárias e penas secundárias externas em tom laranja-amarelado — coloração particularmente visível durante o voo. O rabo tem bordas amareladas e a extremidade das asas é escura. O bico é de coloração escura com a base avermelhada.

Apesar de apresentar características visuais relativamente distintas, as bochechas azuis — seu principal elemento identificador — podem ser de difícil visualização em campo, especialmente quando a ave está em repouso na copa das árvores. Por isso, a vocalização constitui um auxílio importante na identificação: o chamado mais frequente é um grito repetido.

Distribuição geográfica e endemismo

A espécie é endêmica do Centro de Endemismo do Escudo da Guiana, região biogeográfica que abrange o sudeste da Venezuela (estado de Bolívar, com um registro isolado no Amazonas venezuelano), a Guiana, o nordeste do Suriname, a Guiana Francesa e o extremo norte do Brasil. Nos países do núcleo de distribuição, a espécie apresenta padrões distintos de abundância: é descrita como localmente comum na Guiana Francesa e na Venezuela, mas como rara a incomum no Suriname e na Guiana, onde, no entanto, pode passar despercebida por observadores pouco familiarizados com a espécie.

No Brasil, a presença da espécie é documentada de forma esparsa. O registro documentado mais antigo no país data de 2012, na região de Oriximiná (PA), e foi publicado em artigo científico na Revista Brasileira de Ornitologia em 2013. Há também um relato não confirmado no Amapá, datado de 1995, no entorno do Rio Oiapoque. A provável ocorrência em Roraima é inferida por sua distribuição geográfica contínua na região, embora registros confirmados ainda não existam para o estado.

Os registros recentes nos municípios de Oriximiná e Terra Santa, na região do Rio Trombetas, foram feitos a aproximadamente 420 km ao sul do registro mais meridional previamente conhecido na Guiana, o que reforça a hipótese de que a espécie possui uma área de ocorrência mais ampla do que os dados existentes sugerem. Pesquisadores que atuam no Centro de Endemismo do Escudo da Guiana consideram que novos registros são prováveis no Amapá, no Pará e em Roraima, estados que integram esse bioma de endemismo singular.

Ecologia, hábitos e biologia

O papagaio-de-bochecha-azul habita prioritariamente florestas tropicais úmidas de planície, matas ciliares e florestas pré-montanas, podendo ser encontrado em altitudes de até 1.700 metros na Venezuela e 560 metros na Guiana. Na região do Escudo da Guiana, as aves têm sido registradas sobretudo em matas sobre solos arenosos. O padrão de uso do habitat pode ser em parte um artefato metodológico, uma vez que muitos registros históricos das Guianas ocorreram em florestas de galeria, habitat de mais fácil acesso a pesquisadores que utilizam transporte fluvial.

A espécie é descrita como ruidosa e gregária em voo, mas silenciosa nos poleiros de dormitório. Vive tipicamente em pares ou em pequenos grupos de quatro a oito indivíduos, embora possa formar bandos mistos com outras espécies do gênero Amazona em terra firme. Os registros brasileiros recentes confirmaram esse padrão: as aves foram observadas predominantemente nas primeiras horas da manhã, na copa das árvores, na parte mais superior do dossel.

Há evidências de movimentos sazonais, possivelmente relacionados à disponibilidade de recursos alimentares, com deslocamentos do interior para a faixa costeira do Suriname nos meses de julho e agosto. Esse comportamento, contudo, ainda não foi estudado sistematicamente. Quanto à dieta, presume-se que a espécie se alimente de frutos, sementes e flores na copa das árvores — padrão comum ao gênero Amazona —, mas dados específicos sobre sua alimentação são inexistentes na literatura científica.

Informações básicas sobre a biologia reprodutiva, tais como período de nidificação, localização de ninhos, tamanho das ninhadas e taxas de sucesso reprodutivo, também são completamente desconhecidas. O mesmo se aplica a dados sobre interações com predadores e com outras espécies. Essa lacuna de conhecimento representa um obstáculo crítico para qualquer estratégia de conservação efetiva.

Status de conservação e estimativas populacionais

Internacionalmente, a espécie é avaliada como "Quase Ameaçada" (Near Threatened — NT) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em razão da perda de habitat e do histórico de pressão do comércio ilegal de aves. No Brasil, o status nacional atribuído pelo SALVE/ICMBio-MMA é "Dados Insuficientes" (DD), o que reflete não necessariamente a ausência de ameaças, mas a precariedade das informações biológicas disponíveis sobre a espécie no país.

As estimativas populacionais globais, elaboradas com base em dados parciais e extrapolações, são de ampla margem de incerteza. A população na Guiana Francesa é estimada entre 2.000 e 20.000 indivíduos, o que pode corresponder, aproximadamente, a 1.300 a 13.000 indivíduos maduros. Assumindo densidades similares para a Venezuela, estima-se de 500 a 5.000 indivíduos maduros naquele país. Para Guiana, Suriname e Brasil, com densidades possivelmente menores, as estimativas chegam a 4.300 a 43.000 indivíduos maduros. A população global é, portanto, estimada provisoriamente entre 6.000 e 61.000 indivíduos maduros — um intervalo tão amplo que evidencia, por si só, a insuficiência dos dados existentes. A tendência populacional é considerada decrescente, embora a taxa de declínio seja estimada em menos de 10% ao longo de três gerações (equivalente a aproximadamente 44 anos).

Ameaças: desmatamento, mineração e comércio ilegal

A trajetória de declínio do papagaio-de-bochecha-azul está associada a um conjunto de ameaças que variaram em intensidade ao longo do tempo. Historicamente, a captura para o comércio de aves de gaiola exerceu pressão significativa sobre a espécie, particularmente na região da Gran Sabana (Venezuela) e em partes da costa das Guianas. Na década de 1980, a espécie foi comercializada internacionalmente em pequenas quantidades. Em 2002, apenas na Guiana, foram exportados 321 exemplares, segundo dados da CITES. O comércio interno, voltado ao consumo como alimento e como animal de estimação, pode ainda ocorrer de forma local, especialmente no extremo leste de sua área de distribuição.

Atualmente, o comércio internacional é considerado de impacto mínimo sobre a espécie. A ameaça predominante passou a ser a destruição e degradação do habitat. Embora grandes extensões de floresta ainda se encontrem em estado relativamente preservado no interior do Escudo da Guiana, a expansão da mineração de ouro tem comprometido crescentemente a qualidade e a continuidade do habitat remanescente, em especial no Suriname. No Pará, na área em que a espécie foi registrada, há intensa extração de bauxita em platôs florestados. Entre 2001 e 2019, estima-se que aproximadamente 1% da cobertura arbórea com ao menos 30% de cobertura de copa foi perdida na área de distribuição mapeada da espécie — o que, projetado para o período equivalente a três gerações, representa perda potencial de 2% a 4% da cobertura florestal.

Ações de conservação: avanços, insuficiências e propostas

A espécie conta com proteção formal pelo Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula o comércio internacional e exige licenciamento para exportação. Além disso, há registros confirmados da espécie em unidades de conservação em diferentes países: o Parque Nacional de Canaima, na Venezuela; a Reserva Florestal de Iwokrama, na Guiana; o Parque Natural de Brownsberg e a Reserva Natural do Suriname Central, no Suriname; e as Reservas Naturais de Trinité e Nouragues, na Guiana Francesa. No Brasil, não há registro confirmado da espécie em qualquer unidade de conservação.

No entanto, a proteção formal existente apresenta lacunas evidentes. A ausência de levantamentos sistemáticos impede a avaliação real do estado das populações em toda a área de distribuição. Não há programas específicos de monitoramento para a espécie em nenhum dos países de ocorrência. No Brasil, a categoria "Dados Insuficientes" revela que o país não dispõe sequer de informações básicas suficientes para elaborar uma estratégia de conservação fundamentada.

As ações de conservação propostas por especialistas e pela BirdLife International incluem: a realização de levantamentos populacionais em áreas de habitat apropriado onde a espécie ainda não foi registrada, incluindo Roraima e o Amapá; a determinação de densidade populacional ao longo de toda a área de distribuição para refinar as estimativas existentes; o estudo aprofundado de sua ecologia, movimentos sazonais e capacidade de persistência em habitats degradados ou fragmentados; a proteção efetiva das áreas centrais do habitat remanescente; e o fortalecimento das restrições ao comércio, especialmente o interno.

Nesse contexto a ampliação de registros documentados no Pará, especialmente na região do Rio Trombetas, representa um avanço concreto que pode subsidiar futuras ações de manejo e a eventual inclusão da espécie em programas de conservação no Brasil.

O papagaio-de-bochecha-azul constitui um exemplo paradigmático das fragilidades do sistema de monitoramento e conservação da biodiversidade amazônica. Classificado como "Quase Ameaçado" internacionalmente e como "Dados Insuficientes" no Brasil, o status da espécie reflete menos uma situação de relativa segurança do que uma lacuna profunda de conhecimento. A população global estimada, entre 6.000 e 61.000 indivíduos maduros, é um intervalo que, por sua amplitude, não oferece base sólida para a gestão conservacionista.

As ameaças existem: a mineração ilegal avança sobre o Escudo da Guiana, o comércio interno persiste em escala local, e a extração de recursos minerais pressiona os platôs florestados no Pará. O que falta, de forma crítica, são dados — sobre distribuição, densidade, reprodução, dieta, movimentos e respostas à perturbação antrópica. Sem esses dados, qualquer plano de conservação será necessariamente precário.

O futuro imediato da espécie depende, portanto, de um esforço coordenado entre órgãos governamentais, como o ICMBio e o MMA no Brasil, organizações não governamentais especializadas, como a BirdLife International e o World Parrot Trust, e pesquisadores de campo. Os novos registros no Pará são promissores e indicam que a distribuição da espécie no Brasil pode ser mais expressiva do que os dados atuais sugerem. Transformar essa possibilidade em certeza  é o desafio central que a ornitologia brasileira tem diante de si.

Fontes: Wiki Aves, Ebird, Datazone, World Parrot Trust, Cambridge University Press, Terra da Gente 

Fotos: Papagaio-de-bochecha-azul_by Paulo Selke; gunda foto: _by David Ascanio; terceira foto: _by Kristof Zyskowski; quarta foto: