Da extinção aparente à redescoberta: dez anos de conservação da jiboia-do-ribeira no Vale do Ribeira

 



A jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) é considerada a serpente da família das jiboias mais rara do mundo. Endêmica do Brasil, ocorre apenas em uma pequena porção da Mata Atlântica no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo. Descrita pela ciência em 1953, passou mais de seis décadas sem ser vista viva por pesquisadores. Desde 2016, um trabalho que une instituições científicas, órgãos públicos, organizações da sociedade civil e moradores de comunidades rurais produziu 20 novos registros da espécie, número superior a todos os registros acumulados nos 63 anos anteriores. A trajetória dessa serpente mostra como a participação das comunidades locais pode alterar o conhecimento sobre um animal ameaçado de extinção.

Características e distribuição

A jiboia-do-ribeira é uma serpente não peçonhenta, aparentada às jiboias e às sucuris. Os adultos medem em média 1,28 metro, e os maiores exemplares conhecidos chegam a 1,75 metro. A coloração do dorso varia do verde-oliva ao amarelado, com tons alaranjados próximos à boca e manchas marrom-escuras em forma de losango que se estendem do pescoço até a cauda. A região da barriga e a área abaixo da boca são amareladas.

Uma característica importante para a identificação são as fossetas labiais, pequenos orifícios situados nas escamas da boca que permitem à serpente perceber o calor de suas presas. Essas estruturas estão ausentes na jararacuçu, serpente peçonhenta comum na região e com a qual a jiboia-do-ribeira é frequentemente confundida.

A espécie é arborícola. Passa quase todo o tempo no alto das árvores e se desloca lentamente tanto pelas copas quanto pelo chão. Vive em florestas maduras e depende da conexão entre as copas para se mover. Sua alimentação é baseada em pequenos mamíferos e, provavelmente, em aves.

Os registros se concentram em Miracatu, Pedro de Toledo, Eldorado, Sete Barras e Juquiá, além de um registro duvidoso atribuído a Santos. É a única espécie do seu gênero exclusiva do Brasil. A área de ocorrência estimada é de 1.257 quilômetros quadrados, e acredita-se que existam menos de mil indivíduos adultos na natureza. O Vale do Ribeira, que reúne 22 municípios no sul paulista, guarda a maior área contínua de Mata Atlântica preservada do país e é reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade.


Da descrição ao desaparecimento

O primeiro exemplar foi levado vivo ao Instituto Butantan em 1953 por um fazendeiro de Miracatu, e a partir dele a espécie foi descrita. Até 1978, a ciência conhecia apenas três registros, e os posteriores ao original chegaram mortos. Por cerca de três décadas, chegou-se a acreditar que a espécie estivesse extinta. Em 2002, um funcionário de uma fazenda em Eldorado matou um exemplar, depois doado ao Butantan. Em 2009 e 2016, outros indivíduos foram mortos por moradores da comunidade do Guapiruvu, em Sete Barras. Nem as buscas de pesquisadores experientes nem a nova fase de levantamentos iniciada pelo ICMBio na década de 2010 localizaram animais vivos.

Educação ambiental e redescoberta

A comunidade do Guapiruvu, historicamente ligada a causas ambientais, já recebia ações de educação ambiental desde 2014. Em agosto de 2016, o Projeto Jiboia do Ribeira foi apresentado ao grupo de jovens Amigos da Mata, ligado à associação de moradores, que passou a espalhar panfletos e cartazes com imagens da serpente, produzidos com apoio financeiro da UICN. Em outubro, uma palestra comunitária ensinou a diferenciar serpentes peçonhentas e inofensivas. O projeto também substituiu o nome jiboia-de-Cropan por jiboia-do-ribeira, indicando que se trata de uma serpente sem veneno e associando-a à região. A equipe destacou o valor científico do animal acima de qualquer valor econômico, para chegar à comunidade antes dos traficantes.

Em janeiro de 2017, cinco jovens caminhavam por uma estrada de terra quando um deles tentou matar uma serpente com um pedaço de madeira, que se quebrou. Dois rapazes que haviam assistido à palestra reconheceram o animal e acionaram o projeto. A fêmea, com 1,7 metro, foi o primeiro exemplar vivo encontrado em 64 anos e recebeu da comunidade o nome de Dona Crô.

O episódio também gerou tensões. Boatos atribuíram ao animal um valor entre 10 mil e 80 mil reais, um dos jovens passou a questionar a soltura e a Polícia Ambiental retirou a serpente do bairro, o que provocou conflitos com a comunidade. Ainda assim, a soltura reuniu mais de 40 pessoas, entre moradores, pesquisadores e a direção do Parque Estadual Intervales. Com um radiotransmissor financiado por um projeto do Museu de Zoologia da USP (MZUSP), Dona Crô foi acompanhada por cerca de quatro meses, até o fim da bateria.



Ciência cidadã e novos registros

A estratégia adotada no Guapiruvu é um exemplo de ciência cidadã, modelo no qual pessoas de fora das equipes científicas contribuem com observações para a pesquisa. Como os pesquisadores não conseguem estar presentes em toda a área de ocorrência, os moradores passaram a funcionar como uma rede permanente de observação. Parte deles foi capacitada para o manejo seguro de serpentes, e a comunidade passou a escolher os nomes dos animais devolvidos à natureza.

Em outubro de 2020, guarda-parques do Parque Estadual Intervales localizaram uma fêmea adulta viva, batizada de Esperança. Ela permaneceu seis meses na base do parque, passou por exames e recebeu um radiotransmissor. A soltura, em maio de 2021, reuniu a comunidade, a Fundação Florestal, a Associação de Economia Solidária e de Desenvolvimento Sustentável do Guapiruvu e um projeto do Instituto Butantan financiado pela Fapesp. O monitoramento revelou que ela permanece em uma área bem definida, com deslocamentos que variam conforme o clima.

Em fevereiro de 2022, guarda-parques do Intervales e a Polícia Ambiental recuperaram um macho mantido em cativeiro ilegal, evitando sua venda ao tráfico. Entre os agentes estava o jovem que encontrara Dona Crô, que se tornou guarda-parque. Foi o primeiro macho encontrado vivo desde a descrição da espécie. Batizado de Ribeiro, foi solto em janeiro de 2023 no núcleo Guapiruvu do parque e passou a ser monitorado ao lado de Esperança.

Em abril de 2025, um exemplar foi avistado em Juquiá, mas não pôde ser capturado. O projeto levou ações de educação ambiental ao município e, em novembro, trabalhadores rurais reconheceram uma fêmea de 1,70 metro em uma estrada. O resgate contou com a Preservalle, empresa regional de soluções ambientais, e o animal seguiu para quarentena no Instituto Rio Itariri, em Pedro de Toledo. Os pesquisadores investigam se ele pertence a uma população ainda desconhecida. Em 2026, um morador do Guapiruvu encontrou um exemplar jovem de cerca de 80 centímetros, o primeiro imaturo visto vivo e o 25º registro da espécie.

A rede de moradores também comunica animais encontrados mortos, que seguem para a coleção do Butantan. Um morador que havia matado e enterrado uma serpente chegou a desenterrar os ossos para entregá-los ao projeto. O aumento dos registros não indica crescimento da população, mas a maior capacidade de detectar os animais.



Instituições envolvidas e situação legal

Além do Instituto Butantan e do MZUSP, o projeto contou com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios do ICMBio, a Fundação Florestal, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, as universidades federais de Viçosa e de Mato Grosso, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais e o grupo de especialistas em jiboias e pítons da UICN.

A UICN classifica a espécie como Em Perigo, e ela é a única do seu gênero na Lista Vermelha da organização. Na avaliação nacional, é considerada vulnerável (VU), conforme a lista oficial publicada pelo Ministério do Meio Ambiente em 2022. A espécie integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna do Sudeste, vigente de 2023 a 2028. O governo paulista, por meio da Fundação Florestal, afirma desenvolver ações de conservação de habitats e monitoramento no Vale do Ribeira.

Falhas e ameaças persistentes

Os atropelamentos se tornaram a principal causa de morte registrada. Dos doze registros documentados pelo projeto até 2024, nove são de animais mortos em estradas, sobretudo na Eldorado-Taquari. Em alguns casos, a posição dos corpos em trechos onde seria possível desviar sugere atropelamentos intencionais.

O medo ainda leva à morte de exemplares em bairros vizinhos ao Guapiruvu. O tráfico é outra ameaça, pois as espécies do gênero são cobiçadas por criadores no mundo todo, como mostrou o caso de Ribeiro. Isso impõe um dilema à educação ambiental, que precisa divulgar a espécie sem revelar locais de ocorrência. A herança de extração ilegal de palmito, madeira e animais, a perda de habitat e o avanço agrícola e rodoviário agravam o quadro.

Os equipamentos de rastreamento apresentaram falhas, e os recursos são escassos desde o início, com despesas frequentemente pagas pelos próprios pesquisadores. A equipe reconhece que esperava mais resultados na primeira década. Reprodução, longevidade, tamanho da população e os motivos da raridade dos encontros permanecem sem resposta.


Propostas para o futuro imediato

Ao completar dez anos, o Projeto Jiboia do Ribeira passou a integrar a organização não governamental Instituto Conservação Brasil. A mudança busca garantir segurança jurídica e facilitar a captação de recursos. Em contrapartida, a ONG pretende ampliar as ações para os 22 municípios do Vale do Ribeira e transformar a jiboia-do-ribeira em espécie-símbolo da região. Segundo a organização, trata-se do primeiro projeto de conservação no Brasil a adotar uma serpente com esse papel.

No plano nacional para a herpetofauna do Sudeste, o projeto coordena duas ações, uma voltada à ciência cidadã com comunidades locais e outra à elaboração de um plano de ação específico para a jiboia-do-ribeira. Entre as prioridades estão estudos sobre reprodução, sinalização de estradas e campanhas com motoristas. A equipe avalia ainda manter exemplares no Instituto Butantan para estudos de reprodução e formação de uma reserva genética, além de mapear as áreas mais adequadas à espécie para concentrar a proteção.

Outra proposta é oferecer à população alternativas econômicas de baixo impacto, como ecoturismo, artesanato e agricultura ecológica. Por ocupar o topo da cadeia alimentar, a serpente é sensível às mudanças no ambiente e pode indicar a qualidade das florestas do Vale do Ribeira.

Fontes: CBH 2019, CHC, G1Globo (1),G1Globo (2), Inaturalist, ESCAS/Ipê, Compre Rural, Estadão (1), Estadão (2), Science, Antagonista, Folha de São Paulo

Fotos: Jiboia-do ribeira_by Harisson_inaturalist; segunda foto: _Bruno Rocha; terceira e quarta foto_by Lívia Corrêa; quinta foto:_by Marcelo Moraes