Características e distribuição
A jiboia-do-ribeira
é uma serpente não peçonhenta, aparentada às jiboias e às sucuris. Os adultos
medem em média 1,28 metro, e os maiores exemplares conhecidos chegam a 1,75
metro. A coloração do dorso varia do verde-oliva ao amarelado, com tons
alaranjados próximos à boca e manchas marrom-escuras em forma de losango que se
estendem do pescoço até a cauda. A região da barriga e a área abaixo da boca
são amareladas.
Uma
característica importante para a identificação são as fossetas labiais,
pequenos orifícios situados nas escamas da boca que permitem à serpente
perceber o calor de suas presas. Essas estruturas estão ausentes na jararacuçu,
serpente peçonhenta comum na região e com a qual a jiboia-do-ribeira é
frequentemente confundida.
A espécie é
arborícola. Passa quase todo o tempo no alto das árvores e se desloca
lentamente tanto pelas copas quanto pelo chão. Vive em florestas maduras e
depende da conexão entre as copas para se mover. Sua alimentação é baseada em
pequenos mamíferos e, provavelmente, em aves.
Os registros
se concentram em Miracatu, Pedro de Toledo, Eldorado, Sete Barras e Juquiá,
além de um registro duvidoso atribuído a Santos. É a única espécie do seu
gênero exclusiva do Brasil. A área de ocorrência estimada é de 1.257
quilômetros quadrados, e acredita-se que existam menos de mil indivíduos
adultos na natureza. O Vale do Ribeira, que reúne 22 municípios no sul
paulista, guarda a maior área contínua de Mata Atlântica preservada do país e é
reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade.
Da descrição ao desaparecimento
O primeiro
exemplar foi levado vivo ao Instituto Butantan em 1953 por um fazendeiro de
Miracatu, e a partir dele a espécie foi descrita. Até 1978, a ciência conhecia
apenas três registros, e os posteriores ao original chegaram mortos. Por cerca
de três décadas, chegou-se a acreditar que a espécie estivesse extinta. Em
2002, um funcionário de uma fazenda em Eldorado matou um exemplar, depois doado
ao Butantan. Em 2009 e 2016, outros indivíduos foram mortos por moradores da
comunidade do Guapiruvu, em Sete Barras. Nem as buscas de pesquisadores
experientes nem a nova fase de levantamentos iniciada pelo ICMBio na década de
2010 localizaram animais vivos.
Educação ambiental e redescoberta
A comunidade
do Guapiruvu, historicamente ligada a causas ambientais, já recebia ações de
educação ambiental desde 2014. Em agosto de 2016, o Projeto Jiboia do
Ribeira foi apresentado ao grupo de jovens Amigos da Mata, ligado à
associação de moradores, que passou a espalhar panfletos e cartazes com imagens
da serpente, produzidos com apoio financeiro da UICN. Em outubro, uma palestra
comunitária ensinou a diferenciar serpentes peçonhentas e inofensivas. O
projeto também substituiu o nome jiboia-de-Cropan por jiboia-do-ribeira,
indicando que se trata de uma serpente sem veneno e associando-a à região. A
equipe destacou o valor científico do animal acima de qualquer valor econômico,
para chegar à comunidade antes dos traficantes.
Em janeiro de
2017, cinco jovens caminhavam por uma estrada de terra quando um deles tentou
matar uma serpente com um pedaço de madeira, que se quebrou. Dois rapazes que
haviam assistido à palestra reconheceram o animal e acionaram o projeto. A
fêmea, com 1,7 metro, foi o primeiro exemplar vivo encontrado em 64 anos e
recebeu da comunidade o nome de Dona Crô.
O episódio
também gerou tensões. Boatos atribuíram ao animal um valor entre 10 mil e 80
mil reais, um dos jovens passou a questionar a soltura e a Polícia Ambiental
retirou a serpente do bairro, o que provocou conflitos com a comunidade. Ainda
assim, a soltura reuniu mais de 40 pessoas, entre moradores, pesquisadores e a
direção do Parque
Estadual Intervales. Com um radiotransmissor financiado por um projeto do Museu de Zoologia da USP (MZUSP), Dona Crô foi
acompanhada por cerca de quatro meses, até o fim da bateria.
Ciência cidadã e novos registros
A estratégia
adotada no Guapiruvu é um exemplo de ciência cidadã, modelo no qual
pessoas de fora das equipes científicas contribuem com observações para a
pesquisa. Como os pesquisadores não conseguem estar presentes em toda a área de
ocorrência, os moradores passaram a funcionar como uma rede permanente de
observação. Parte deles foi capacitada para o manejo seguro de serpentes, e a
comunidade passou a escolher os nomes dos animais devolvidos à natureza.
Em outubro de
2020, guarda-parques do Parque Estadual Intervales localizaram uma fêmea adulta
viva, batizada de Esperança. Ela permaneceu seis meses na base do parque,
passou por exames e recebeu um radiotransmissor. A soltura, em maio de 2021,
reuniu a comunidade, a Fundação
Florestal, a Associação
de Economia Solidária e de Desenvolvimento Sustentável do Guapiruvu e um
projeto do Instituto Butantan financiado
pela Fapesp. O monitoramento revelou que ela
permanece em uma área bem definida, com deslocamentos que variam conforme o
clima.
Em fevereiro
de 2022, guarda-parques do Intervales e a Polícia Ambiental recuperaram um
macho mantido em cativeiro ilegal, evitando sua venda ao tráfico. Entre os
agentes estava o jovem que encontrara Dona Crô, que se tornou guarda-parque.
Foi o primeiro macho encontrado vivo desde a descrição da espécie. Batizado de
Ribeiro, foi solto em janeiro de 2023 no núcleo Guapiruvu do parque e passou a
ser monitorado ao lado de Esperança.
Em abril de
2025, um exemplar foi avistado em Juquiá, mas não pôde ser capturado. O projeto
levou ações de educação ambiental ao município e, em novembro,
trabalhadores rurais reconheceram uma fêmea de 1,70 metro em uma estrada. O
resgate contou com a Preservalle,
empresa regional de soluções ambientais, e o animal seguiu para quarentena no Instituto Rio Itariri, em Pedro
de Toledo. Os pesquisadores investigam se ele pertence a uma população ainda
desconhecida. Em 2026, um morador do Guapiruvu encontrou um exemplar jovem de
cerca de 80 centímetros, o primeiro imaturo visto vivo e o 25º registro da
espécie.
A rede de
moradores também comunica animais encontrados mortos, que seguem para a coleção
do Butantan. Um morador que havia matado e enterrado uma serpente chegou a
desenterrar os ossos para entregá-los ao projeto. O aumento dos registros não
indica crescimento da população, mas a maior capacidade de detectar os animais.
Instituições envolvidas e situação legal
Além do
Instituto Butantan e do MZUSP, o projeto contou com o Centro
Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios do ICMBio, a Fundação Florestal, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
da USP, as universidades federais de Viçosa
e de Mato Grosso, o Instituto
Estadual de Florestas de Minas Gerais e o grupo
de especialistas em jiboias e pítons da UICN.
A UICN
classifica a espécie como Em Perigo, e ela é a única do seu gênero na Lista
Vermelha da organização. Na avaliação nacional, é considerada vulnerável (VU),
conforme a lista oficial publicada pelo Ministério do Meio Ambiente em 2022. A
espécie integra o Plano
de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna do Sudeste, vigente de
2023 a 2028. O governo paulista, por meio da Fundação Florestal, afirma
desenvolver ações de conservação de habitats e monitoramento no Vale do
Ribeira.
Falhas e ameaças persistentes
Os atropelamentos
se tornaram a principal causa de morte registrada. Dos doze registros
documentados pelo projeto até 2024, nove são de animais mortos em estradas,
sobretudo na Eldorado-Taquari. Em alguns casos, a posição dos corpos em trechos
onde seria possível desviar sugere atropelamentos intencionais.
O medo ainda
leva à morte de exemplares em bairros vizinhos ao Guapiruvu. O tráfico é outra
ameaça, pois as espécies do gênero são cobiçadas por criadores no mundo todo,
como mostrou o caso de Ribeiro. Isso impõe um dilema à educação ambiental,
que precisa divulgar a espécie sem revelar locais de ocorrência. A herança de
extração ilegal de palmito, madeira e animais, a perda de habitat e o avanço
agrícola e rodoviário agravam o quadro.
Os
equipamentos de rastreamento apresentaram falhas, e os recursos são escassos
desde o início, com despesas frequentemente pagas pelos próprios pesquisadores.
A equipe reconhece que esperava mais resultados na primeira década. Reprodução,
longevidade, tamanho da população e os motivos da raridade dos encontros
permanecem sem resposta.
Propostas para o futuro imediato
Ao completar
dez anos, o Projeto Jiboia do Ribeira passou a integrar a organização não
governamental Instituto
Conservação Brasil. A mudança busca garantir segurança jurídica e facilitar
a captação de recursos. Em contrapartida, a ONG pretende ampliar as ações para
os 22 municípios do Vale do Ribeira e transformar a jiboia-do-ribeira em
espécie-símbolo da região. Segundo a organização, trata-se do primeiro projeto
de conservação no Brasil a adotar uma serpente com esse papel.
No plano
nacional para a herpetofauna do Sudeste, o projeto coordena duas ações, uma
voltada à ciência cidadã com comunidades locais e outra à
elaboração de um plano de ação específico para a jiboia-do-ribeira. Entre as
prioridades estão estudos sobre reprodução, sinalização de estradas e campanhas
com motoristas. A equipe avalia ainda manter exemplares no Instituto Butantan
para estudos de reprodução e formação de uma reserva genética, além de mapear
as áreas mais adequadas à espécie para concentrar a proteção.
Outra
proposta é oferecer à população alternativas econômicas de baixo impacto, como
ecoturismo, artesanato e agricultura ecológica. Por ocupar o topo da cadeia
alimentar, a serpente é sensível às mudanças no ambiente e pode indicar a
qualidade das florestas do Vale do Ribeira.
Fotos: Jiboia-do
ribeira_by Harisson_inaturalist; segunda foto: _Bruno Rocha; terceira e quarta foto_by Lívia Corrêa; quinta foto:_by Marcelo Moraes