A descrição oficial da tovaca-de-baturité (Chamaeza baturitensis), publicada em 2026, revelou uma ave que ocorre exclusivamente nas florestas úmidas da Serra de Baturité, no Ceará. Reconhecida anteriormente como uma população isolada da tovaca-campainha (Chamaeza campanisona), a espécie apresenta características morfológicas e vocais próprias. Sua identificação ampliou o conhecimento sobre a biodiversidade dos brejos de altitude nordestinos, mas também expôs uma situação preocupante. A população pode ser inferior a 100 indivíduos e está concentrada em uma área reduzida, submetida ao desmatamento, à expansão imobiliária, ao turismo desordenado e aos efeitos das mudanças climáticas.
Uma espécie restrita aos brejos de altitude
A tovaca-de-baturité é conhecida apenas em
remanescentes de floresta tropical montana localizados nos municípios de
Guaramiranga e Pacoti. Essas formações, denominadas brejos de altitude,
permanecem como enclaves úmidos cercados pela vegetação mais seca da Caatinga.
Sua origem está associada às oscilações climáticas do Pleistoceno, quando as
florestas úmidas se expandiram pelo atual Nordeste e posteriormente recuaram,
deixando populações isoladas em serras com condições favoráveis de temperatura
e umidade.
Esse isolamento provavelmente contribuiu para a
diferenciação da tovaca-de-baturité em relação às populações de
tovaca-campainha encontradas desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul, além
da Argentina e do Paraguai. A ausência de análises genéticas
conclusivas, entretanto, ainda impede determinar quando ocorreu essa separação
evolutiva e qual é o grau de parentesco entre as duas espécies.
A ave vive principalmente no chão e no sub-bosque de
florestas densas. Com cerca de 20 centímetros de comprimento e aproximadamente
70 gramas, apresenta dorso marrom, ventre claro com estrias longitudinais,
cauda curta, pernas relativamente compridas e uma sobrancelha esbranquiçada. A
garganta e o peito possuem tonalidade amarelada. Seu hábito predominantemente terrestre
faz com que caminhe mais do que voe, procurando insetos, aranhas e outros
pequenos invertebrados entre as folhas acumuladas na serapilheira.
Uma descoberta construída durante décadas
A presença dessas aves na Serra de Baturité era conhecida
desde pelo menos a primeira metade do século XX. Dois exemplares coletados em
Pacoti, em 1941, foram preservados em coleções científicas. O holótipo,
utilizado como referência para a descrição da espécie, encontra-se no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo
(MZUSP). O segundo exemplar está depositado no Field Museum of Natural History, em
Chicago, nos Estados Unidos.
Durante décadas, ambos foram classificados como
tovacas-campainha. Diferenças na plumagem dos exemplares cearenses foram
apontadas em 1992, mas não resultaram imediatamente na criação de uma nova
espécie. A escassez de material físico, a ausência de dados genéticos e o
número reduzido de gravações dificultaram uma revisão taxonômica mais segura.
A investigação avançou a partir de 2024, quando
pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Botucatu,
passaram a comparar sistematicamente as vocalizações de populações atribuídas à
tovaca-campainha. O estudo reuniu 183 gravações provenientes de diferentes
regiões da América do Sul, obtidas em acervos bioacústicos como a Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard,
a Macaulay Library, o WikiAves e o Xeno-canto. A descrição formal foi publicada
no periódico científico Zoologia,
mantido pela Sociedade Brasileira de Zoologia.
O canto analisado pela inteligência artificial
As vocalizações possuem especial importância na
classificação das aves suboscines, grupo de passeriformes cujo canto é
predominantemente inato, isto é, determinado geneticamente e não aprendido pela
imitação dos adultos. Grupo ao qual pertence a tovaca-de-baturité. Diferenças
consistentes entre populações podem, portanto, indicar processos de isolamento
evolutivo.
O estudo combinou a análise bioacústica tradicional com
ferramentas de aprendizagem de máquina. As gravações foram examinadas por meio
do BirdNET, sistema baseado em uma rede neural profunda treinada para
reconhecer características acústicas das vocalizações de milhares de espécies.
A ferramenta transformou trechos dos cantos em conjuntos de dados numéricos,
permitindo comparar padrões sonoros difíceis de distinguir apenas pela audição
humana.
Os resultados mostraram que a população do Ceará formava um
agrupamento vocal diferenciado. Seu canto principal dura, em média, 9,8
segundos, reúne aproximadamente 99 notas e apresenta um ritmo de 10,1 notas por
segundo. Trata-se do canto mais acelerado entre as populações estudadas, sem
sobreposição com o ritmo registrado na tovaca-campainha.
A inteligência artificial não identificou
isoladamente a nova espécie. Ela forneceu evidências quantitativas que foram
confrontadas com análises estatísticas convencionais e com a morfologia dos
exemplares preservados. A ausência da mancha preta frontal encontrada na
tovaca-campainha, associada à coloração mais amarelada da garganta e do peito e
à vocalização particular, fundamentou o reconhecimento de Chamaeza
baturitensis. A descoberta demonstra como tecnologias recentes podem
ampliar o alcance da taxonomia clássica, sem substituir o trabalho das coleções
zoológicas e dos especialistas.
População desconhecida e risco elevado
A tovaca-de-baturité foi registrada em apenas duas
localidades, dentro de uma extensão de ocorrência estimada em menos de 100
quilômetros quadrados. Pesquisadores ligados à Universidade Estadual do Ceará
(Uece) consideram possível que restem menos de 100 indivíduos, mas esse número
permanece uma estimativa preliminar. Não foi realizado um censo populacional
que permita determinar quantas aves existem, se o contingente está diminuindo
ou como os indivíduos se distribuem pelos remanescentes florestais.
O estudo científico recomenda que a espécie seja tratada
inicialmente como “Dados Insuficientes”, até que levantamentos populacionais
sustentem uma avaliação formal de seu risco de extinção. Essa classificação não
significa ausência de perigo. A distribuição extremamente reduzida e a
dependência de um sub-bosque preservado indicam elevada vulnerabilidade a
qualquer alteração ambiental.
A abertura de estradas, o corte de árvores e a implantação
de loteamentos fragmentam a floresta e aumentam a incidência de luz no
interior da mata. Essas mudanças afetam uma ave adaptada a ambientes densos,
úmidos e sombreados. A especulação imobiliária, o desmatamento, a captura de
aves e a expansão desordenada do turismo representam ameaças imediatas. Em
prazo mais longo, o aumento das temperaturas e a redução da umidade podem
favorecer o avanço de formações mais secas sobre as áreas elevadas, comprimindo
ainda mais o habitat disponível.
Áreas protegidas e atuação institucional
Grande parte dos registros conhecidos está concentrada no
Parque Estadual do Pico Alto, unidade de conservação de proteção integral
criada pelo Governo do Ceará em dezembro de 2022. Localizado em Guaramiranga, o
parque possui 72,53 hectares, dimensão limitada diante das necessidades de uma
espécie que depende da continuidade do ambiente florestal. Sua proteção deve
ser articulada à Área de Proteção Ambiental da Serra de Baturité e aos
remanescentes situados em propriedades vizinhas e no município de Pacoti.
A Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará
(Sema) iniciou a elaboração do plano de manejo do parque com a participação da Universidade Estadual do Ceará, da Associação de Pesquisa e Preservação de
Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) e de representantes da sociedade civil. A
inclusão de medidas específicas para a tovaca poderá orientar o zoneamento, a
visitação, a pesquisa e a recuperação de trechos degradados. A fiscalização
envolve ainda a Superintendência
Estadual do Meio Ambiente (Semace), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Batalhão de Polícia de Meio
Ambiente (BPMA).
O Museu
de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, vinculado à Uece, e a
Aquasis mantêm atividades de pesquisa na Serra de Baturité. A estrutura
acumulada por essas instituições favorece o monitoramento da espécie, mas a
falta de gravadores autônomos e de financiamento contínuo restringe a produção
de informações sobre alimentação, reprodução, deslocamento e uso do habitat. O Projeto Cara-suja,
desenvolvido pela Aquasis, também oferece experiência regional em conservação
de aves ameaçadas e em mobilização das comunidades serranas.
Medidas necessárias para evitar a extinção
A proteção imediata exige o mapeamento completo das áreas de
ocorrência, a instalação de uma rede permanente de monitoramento acústico e a
realização de análises genéticas. Gravadores autônomos associados a sistemas de
inteligência artificial podem localizar indivíduos, acompanhar mudanças na
distribuição e produzir estimativas populacionais menos especulativas. Os
estudos devem incluir a identificação de territórios reprodutivos, ninhos,
períodos de reprodução e requisitos mínimos de cobertura florestal.
O plano de manejo do Parque Estadual do Pico Alto precisa
estabelecer zonas de acesso restrito e regras específicas para a observação de
aves. A reprodução reiterada de cantos gravados, conhecida como playback,
pode provocar estresse e alterar o comportamento territorial dos poucos
indivíduos remanescentes. O turismo ornitológico pode gerar renda para guias,
pousadas e outros serviços locais, desde que seja organizado segundo limites de
visitação, trilhas autorizadas e acompanhamento especializado.
A reduzida extensão do parque também torna necessária a
proteção de remanescentes externos, mediante fiscalização, restauração de
corredores florestais e acordos com proprietários. A inclusão da espécie nas
avaliações estaduais e nacionais de risco, acompanhada de um plano de ação
próprio ou integrado a programas de conservação das aves da Mata Atlântica
nordestina, permitirá mobilizar recursos e definir responsabilidades. Sem essas
medidas, a espécie recém-incorporada ao conhecimento científico poderá desaparecer
antes que sua população, sua reprodução e sua história evolutiva sejam
adequadamente conhecidas.
Fontes: Zoologia, Revista
Amazônia, Diário
do Nordeste, Tribuna
do Agreste, O
Povo, Mais
Fm.com, Agência
Cearense, Urb
News
Fotos: Tovaca-de-baturité_by Fábio Nunes (as duas fotos)

