O quoll-do-norte (Dasyurus
hallucatus) é um pequeno marsupial carnívoro endêmico da
Austrália e reconhecido como a menor das quatro espécies de quolls do país.
Embora tenha sido historicamente amplamente distribuído pelo norte e leste
australianos, a espécie sofreu um declínio populacional abrupto ao longo do
século XX, tornando-se hoje um dos mamíferos nativos mais ameaçados da região.
A combinação de espécies exóticas invasoras, perda e fragmentação de habitat,
mudanças nos regimes de fogo e a presença de predadores introduzidos explica
boa parte desse colapso populacional.
Atualmente, o quoll-do-norte
persiste sobretudo em populações isoladas e fragmentadas, muitas delas
restritas a áreas rochosas, ilhas livres de predadores invasores ou santuários
de conservação intensivamente manejados. Estimativas recentes indicam que
restam apenas alguns milhares de indivíduos em toda a Austrália, com declínios
ainda ativos em diversas áreas continentais.
Características morfológicas e
biologia básica
O quoll-do-norte apresenta
comprimento corporal que varia entre aproximadamente 20 e 37 cm, com peso
máximo em torno de 1,1 kg, sendo os machos ligeiramente maiores que as fêmeas.
Sua pelagem é marrom-avermelhada, com ventre creme e manchas brancas
distribuídas pelo dorso e pela garupa. A cauda, escura e pouco pilosa, não
apresenta manchas e possui comprimento semelhante ao do corpo.
Trata-se de um predador
predominantemente noturno, com dieta bastante ampla. Alimenta-se principalmente
de invertebrados, mas também consome pequenos mamíferos, aves, répteis,
serpentes, sapos, carniça e frutos carnosos. Essa flexibilidade alimentar foi historicamente
uma vantagem ecológica, mas não foi suficiente para protegê-lo de ameaças
recentes e intensas.
Reprodução e comportamento
Uma das características mais
marcantes da espécie é seu ciclo reprodutivo extremo. Os quolls-do-norte
atingem a maturidade sexual por volta de um ano de idade. Durante a estação de
acasalamento, que ocorre geralmente entre junho e setembro, os machos investem
grande quantidade de energia em disputas reprodutivas, o que resulta, na
maioria dos casos, na morte após o período de acasalamento. Assim, raramente
sobrevivem para se reproduzir novamente no ano seguinte.
As fêmeas constroem seus ninhos em
ocos de árvores, troncos caídos ou fendas em rochas, onde podem criar ninhadas
de até oito filhotes. Diferentemente dos machos, as fêmeas podem viver de dois
a três anos, o que lhes confere papel central na manutenção das populações
remanescentes.
Distribuição histórica e retração geográfica
Historicamente, o quoll-do-norte
ocupava uma vasta faixa do território australiano, desde a região de Pilbara,
na Austrália Ocidental, atravessando o Território do Norte até o sudeste de
Queensland. Essa distribuição era relativamente contínua, especialmente em
áreas de florestas abertas de eucalipto e ambientes rochosos.
Nas últimas décadas, entretanto,
essa área foi drasticamente reduzida. O declínio tornou-se particularmente
acentuado após a chegada e a expansão do sapo-cururu (Rhinella
marina), sobretudo nas regiões mais áridas e abertas do norte
australiano. Atualmente, a espécie encontra-se restrita a populações disjuntas
e, em muitos casos, extremamente pequenas.
Principais ameaças à
sobrevivência da espécie
A introdução do sapo-cururu,
na década de 1930, representa a ameaça mais emblemática ao quoll-do-norte.
Esses anfíbios, nativos da América do Sul e Central, produzem potentes
neurotoxinas às quais os quolls não possuem resistência. Ao tentar predar os
sapos, muitos indivíduos acabam envenenados, levando a colapsos populacionais
rápidos em áreas recém-invadidas.
Além disso, a predação por gatos selvagens constitui uma ameaça constante. O impacto desses predadores é agravado por regimes de queimadas inadequados e pelo pastoreio extensivo, que reduzem a cobertura vegetal e os abrigos naturais utilizados pelos quolls. A perda de habitat associada ao avanço agrícola e urbano também compromete populações localizadas, tornando-as mais vulneráveis a extinções locais.
A redescoberta em Piccaninny Plains
Um dos episódios mais simbólicos da
conservação recente do quoll-do-norte ocorreu no Santuário
de Vida Selvagem de Piccaninny Plains, no norte da região de Kaanju. Após
mais de oito décadas sem registros da espécie, imagens de um indivíduo foram
capturadas por armadilhas fotográficas instaladas pela Australian
Wildlife Conservancy (AWC) em parceria com a Fundação Tony &
Lisette Lewis.
Apesar de levantamentos contínuos
desde 2008, nenhum quoll havia sido registrado até que, no final de 2025, uma
formação rochosa isolada foi identificada durante um sobrevoo e passou a ser
monitorada. Poucos dias depois, o animal foi finalmente registrado, confirmando
a persistência da espécie na região. A descoberta destacou a importância da
persistência científica, do manejo adequado do fogo e da proteção de grandes
paisagens relativamente intactas.
A atuação da Australian Wildlife
Conservancy
A AWC desempenha papel central na
conservação do quoll-do-norte, protegendo atualmente três populações
conhecidas em diferentes santuários do norte da Austrália. Suas ações incluem o
controle de gatos selvagens, a recuperação da cobertura vegetal, o manejo do
fogo para reduzir incêndios de grande escala no final da estação seca e o
controle de herbívoros introduzidos.
As populações monitoradas no Santuário
de Vida Selvagem de Brooklyn e na região de Kimberley fornecem dados
essenciais sobre dinâmica populacional, uso de habitat e resposta às ameaças.
Esses esforços têm demonstrado que a combinação de manejo integrado pode
estabilizar ou até promover a recuperação local da espécie.
Projetos colaborativos e manejo em territórios indígenas
Em 2025, um importante projeto de
manejo foi iniciado em território Nyamal, envolvendo uma colaboração entre o Pilbara
Environmental Offsets Fund e a Nyamal
Aboriginal Corporation. A iniciativa recebeu financiamento governamental de
aproximadamente 1,3 milhão de dólares australianos para implementar programas
de controle de gatos selvagens e manejo do fogo em uma área de mais de 3.000
km² adjacente ao Purungunya
Conservation Estate.
O projeto, que também conta com a
articulação do Pilbara Environmental Offsets Fund, prevê levantamentos de
fauna, uso extensivo de armadilhas fotográficas e monitoramento de espécies de
importância ambiental nacional. Ao longo de quatro anos e meio, espera-se
avaliar o impacto direto dessas ações sobre as populações de quoll-do-norte
e outras espécies nativas.
Perspectivas e desafios futuros
Apesar dos avanços recentes, a
conservação do quoll-do-norte permanece frágil. O controle efetivo do sapo-cururu
em áreas continentais ainda representa um grande desafio, e a dependência de
santuários intensivamente manejados revela a vulnerabilidade da espécie fora
dessas áreas protegidas. Ainda assim, experiências bem-sucedidas demonstram que
o manejo integrado, aliado à colaboração com comunidades indígenas e ao
financiamento público contínuo, pode oferecer caminhos reais para a
sobrevivência da espécie.
A redescoberta em Piccaninny Plains
e os projetos em andamento reforçam que a extinção não é inevitável. Com
ciência aplicada, gestão territorial adequada e compromisso institucional de
longo prazo, o quoll-do-norte pode continuar a ocupar seu papel
ecológico como predador nativo nas paisagens do norte australiano.
Fontes: IFL Science, Australian Wildlife Conservation, Government of Western Australia, Biodiversity4all, Wildlife Queensland, Atlas of Living Australia
Fotos: Quoll-do-Norte_ South Endeavour Trust; segunda foto_by Brad Leue; terceira foto_by Jiri Lochman, quarta foto_by Mark Sanders e quinta foto_by Scott Bake.jpg




