O futuro do macaco-aranha-mexicano está limitado pela caça intensiva e a fragmentação e perda de seu habitat


 O macaco-aranha-mexicano (Ateles geoffroyi vellerosus) é uma das subespécies reconhecidas do macaco-aranha-de-Geoffroy (Ateles geoffroyi) e integra o conjunto de primatas de grande porte do Novo Mundo mais sensíveis às transformações recentes nas florestas neotropicais. Sua ocorrência é registrada especialmente no sul do México, com populações em Veracruz, Oaxaca, Chiapas, Tabasco, Yucatán e Quintana Roo, estendendo-se para a Guatemala, Belize, El Salvador e Honduras.

A subespécie utiliza uma variedade de ambientes florestais, incluindo floresta nublada, florestas tropicais de planície, florestas perenes altas, manguezais e florestas decíduas secas. Apesar dessa aparente versatilidade, a permanência em remanescentes perturbados não significa resiliência plena, pois a ecologia do grupo sugere alta suscetibilidade aos efeitos da degradação e da fragmentação do habitat.

Morfologia e adaptações à vida arbórea

O macaco-aranha-mexicano combina corpo esguio, cabeça pequena e membros longos, com mãos em forma de gancho. Uma característica marcante do gênero Ateles é a ausência de polegar externo, o que reforça a especialização para locomoção arbórea. A cauda preênsil, por sua vez, funciona como um quinto membro e pode sustentar todo o peso do corpo, com uma área terminal de pele adaptada ao agarre.

Em termos de porte, adultos apresentam cerca de 47 cm de comprimento corporal, com cauda superior ao corpo, por volta de 70 cm, e pesos semelhantes entre sexos, em torno de 7,3 kg nas fêmeas e 7,8 kg nos machos. Em outras descrições, o peso pode chegar a aproximadamente 9 kg, reforçando seu status entre os maiores macacos do Novo Mundo.

A longevidade típica na natureza gira em torno de 25 anos, variando conforme a qualidade do habitat e, sobretudo, a pressão de caça; em cativeiro há registros de vidas mais longas, inclusive um caso excepcional de 47 anos.

Dieta frugívora e dependência de florestas funcionais

A dieta do macaco-aranha-mexicano é majoritariamente frugívora, com forte preferência por frutos maduros e carnosos. Cerca de 80% da alimentação é composta por frutas, complementadas por folhas, flores, brotos e itens ocasionais como sementes, nozes, insetos, aranhas e ovos.

Essa dieta não é apenas um traço biológico, mas um indicador de vulnerabilidade. Frutas de alta qualidade dependem de florestas maduras e de paisagens conectadas. Em áreas fragmentadas, grupos precisam viajar mais e por distâncias maiores para encontrar recursos, o que eleva custos energéticos e amplia a exposição a riscos.

Organização social e comportamento de fissão e fusão

O macaco-aranha-mexicano é altamente social e vive em grupos que podem variar muito em tamanho, com registros de 10 a 100 indivíduos, embora médias de 20 a 42 membros também sejam apontadas.

Uma das dimensões mais relevantes de sua sociabilidade é a estrutura de fissão e fusão: o grupo maior mantém relativa estabilidade, mas se divide cotidianamente em subgrupos menores, que variam em composição e tamanho. Essa dinâmica favorece flexibilidade no uso do território, especialmente quando recursos alimentares estão dispersos.

A vida diária é diurna e modulada pela disponibilidade de alimento. A área de vida pode variar amplamente, de 95 a 962 hectares, e a locomoção inclui braquiação, saltos e deslocamentos quadrúpedes ou mesmo bipedais em certas condições.

No descanso, são descritos comportamentos de termorregulação, como tomar sol após chuvas, e padrões de sono com pequenos agrupamentos noturnos.

A comunicação envolve vocalizações, expressões faciais, linguagem corporal e contato físico, com sinais que variam conforme o contexto e as relações sociais.

Reprodução lenta e limites naturais de recuperação populacional

Um dos pontos críticos para a conservação é o ritmo reprodutivo. Trata-se de um primata de ciclo de vida lento, com primeira reprodução após os cinco anos e longos intervalos entre nascimentos, que podem ultrapassar dois a quatro anos.

A gestação é longa, em torno de 225 dias, e o nascimento é de um único filhote. A lactação suprime a ovulação, reduzindo a frequência reprodutiva, e a dependência do filhote em relação à mãe se prolonga por meses, com carregamento e cuidado intensivo.

Essa combinação produz um resultado direto: mesmo quando pressões humanas diminuem, a recuperação demográfica tende a ser lenta. Em cenários de caça, captura e perda de habitat, a espécie não consegue compensar rapidamente as perdas.

Papel ecológico como dispersor de sementes e restaurador de florestas

A conservação do macaco-aranha-mexicano não é apenas a proteção de um primata carismático, mas também de uma função ecológica central. Macacos-aranha contribuem para a estrutura, diversidade e distribuição da vegetação por meio da frugivoria e dispersão de sementes, com especial importância para árvores de sementes grandes, que dependem de animais de grande porte para dispersão.

Dados de um estudo no sul do México indicam a relevância desse serviço: as fezes analisadas continham sobretudo sementes intactas, com 86% sem danos, abrangendo 71 espécies diferentes de plantas, e 95% das amostras continham sementes.

As distâncias de dispersão podem ultrapassar 100 metros, favorecendo a regeneração florestal longe da árvore-mãe.

Há, porém, uma ironia ecológica que expõe a urgência: em florestas degradadas, onde a dispersão pode ser ainda mais decisiva para restaurar a vegetação, os macacos-aranha enfrentam maior risco de extinção por caça, maiores áreas de vida e baixa taxa reprodutiva.

Estado de conservação, tendências e principais ameaças

A subespécie é classificada como em perigo de extinção pela Lista Vermelha desde 2020, com projeção de redução populacional superior a 50% em três gerações, aproximadamente 45 anos.

A perda e degradação do habitat, combinadas à caça, formam o núcleo da pressão. Estimativas apontam que a Mesoamérica já perdeu cerca de 70% de sua cobertura florestal, e projeções indicam perdas adicionais relevantes nas próximas décadas, com percentuais expressivos de redução de habitat até meados do século.

A expansão de infraestrutura, como novas rodovias em áreas de ocorrência, tem um efeito duplo: acelera a conversão de habitat e amplia o acesso para caçadores e traficantes, facilitando a captura para comércio de animais de estimação.

Os macacos-aranha estão entre os primatas nativos mais capturados nesse comércio e que filhotes são vendidos ao longo de rodovias no sul do México, com valores que podem variar de cerca de US$ 18 a US$ 260.

A captura costuma implicar mortes adicionais, pois fêmeas adultas e outros membros do grupo são frequentemente abatidos quando tentam proteger os filhotes.

Há também falhas sociais e institucionais que agravam o quadro. Um estudo com caçadores em Oaxaca, no início dos anos 2000, sugere desconhecimento da legislação e do estado de conservação, além de percepção de risco de punição insuficiente para desestimular a atividade, especialmente diante do valor comercial dos animais.

Esforços de conservação

Os instrumentos de conservação existentes apontam um arcabouço já estabelecido, mas ainda insuficiente. No plano internacional, Ateles geoffroyi é listado no Apêndice II da CITES. No México, a espécie é tratada como ameaçada pela norma NOM-059-SEMARNAT-2010, o que a coloca formalmente sob uma moldura legal de proteção.

Além disso, há o reconhecimento de centenas de áreas protegidas na região de distribuição, com cerca de 400 áreas oficialmente reconhecidas na Mesoamérica.

O problema central é a efetividade. As áreas protegidas descritas tendem a ser pequenas, isoladas e com limites pouco definidos, além de sofrerem com número limitado de funcionários e quase inexistência de instâncias de recurso oficial, o que enfraquece a aplicação prática da proteção.

Em outras palavras, existe uma arquitetura formal de conservação, mas a fiscalização, o manejo e a governança territorial ficam aquém do necessário para uma espécie que depende de grandes áreas, conectividade de copa e estabilidade ecológica.

Para um futuro imediato, algumas prioridades emergem do próprio quadro descrito. A primeira é fortalecer a proteção real das áreas reconhecidas, ampliando equipes, definindo limites e assegurando capacidade de resposta institucional.

A segunda é enfrentar as causas estruturais de perda florestal e fragmentação, incluindo pressões por pecuária, monoculturas e outros megaprojetos, que estão na origem da redução do habitat.

A terceira é atuar diretamente sobre a caça e o tráfico, que se intensificam com o acesso rodoviário, exigindo fiscalização de rotas, controle de comércio e estratégias de desestímulo econômico e social ao consumo de animais silvestres como pets.

Por fim, há um eixo decisivo que envolve ONGs, órgãos governamentais e comunidades. Como a ausência de macacos-aranha em áreas antes ocupadas é atribuída quase exclusivamente a atividades humanas, preservar as populações remanescentes requer informar habitantes locais sobre o estado de conservação e facilitar o envolvimento comunitário em esforços nacionais e internacionais.

Aqui, o papel de ONGs se torna estratégico ao articular educação ambiental, monitoramento, apoio a alternativas econômicas locais e cooperação transfronteiriça, enquanto os órgãos ambientais precisam garantir que a legislação não seja apenas um texto normativo, mas um instrumento com presença territorial.

Quando se trata de uma espécie de reprodução lenta, que sustenta processos de regeneração florestal e que depende de conectividade ecológica, o êxito não virá de uma medida isolada. Ele depende da combinação de gestão territorial efetiva, contenção imediata do tráfico, proteção de remanescentes e restauração com conectividade, acompanhadas por educação e pactos locais de proteção.

Curiosidades e dimensão cultural

A nomenclatura do gênero Ateles remete à ideia grega de “imperfeição” ou “incompletude” da mão, em referência à ausência de polegar. Já geoffroyi homenageia Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, e vellerosus deriva do latim, com sentido de “peludo”.

O macaco-aranha-mexicano ainda é conhecido pelo nome maia “Ma’ax” para a subespécie, lembrando que a conservação também envolve reconhecer a presença cultural e histórica desses animais em paisagens habitadas há séculos.

Fontes: New England Primate Conservancy, Animalia.bio, Neotropical Primates, Inaturalist, Springer Nature, IUCN Red List, International Journal of Primatology, Neotropical Primates, Tropical Conservation Science, Environmental Reviews

 

Fotos: Macaco-aranha-mexicano_by Alex Lee _ Miami Zoo; segunda e terceira foto:_by Klaus Rudloff; quarta foto: _by Sean Rowan Laughlin e quinta foto:_by Kevin Schafer.jpg