O mutum-de-bico-azul (Crax alberti) é uma ave galiforme da família Cracidae, endêmica do norte da Colômbia e hoje reconhecida como uma das espécies mais ameaçadas do país. Sua história recente resume o que acontece quando um grande frugívoro florestal depende de remanescentes cada vez menores, cercados por frentes de desmatamento e submetidos a caça persistente. O resultado é uma espécie raríssima, com subpopulações isoladas, declínio acelerado e um futuro que depende de decisões imediatas e verificáveis, sobretudo no controle da caça e na proteção efetiva do habitat remanescente.
Identificação e características
gerais
Trata-se de uma ave grande, com
cerca de 82,5 a 92,5 cm de comprimento e peso em torno de 3,2 a 3,6 kg. O traço
mais marcante é a cera azul na base do bico e, nos machos, a barbela (wattle)
azul, uma característica singular entre os mutuns. Machos são predominantemente
pretos, com branco no ventre/área ventral e na ponta da cauda; fêmeas exibem
variações com tons castanho-avermelhados nas partes inferiores e finas barras
brancas em asas e cauda, além de crista erétil evidente em ambos os sexos.
Distribuição histórica, retração e habitat atual
Historicamente, o mutum-de-bico-azul
ocupava uma vasta área no norte colombiano, associada às bacias do Magdalena e
do Cauca e a regiões como a Sierra Nevada de Santa Marta. Hoje, sua
distribuição está severamente fragmentada, com remanescentes entre La Guajira e
Magdalena, avançando para Antioquia e Boyacá, e com forte concentração de
importância na Serranía de las Quinchas, no Vale do Magdalena, frequentemente
citada como o último núcleo realmente viável em termos demográficos. A espécie
utiliza florestas tropicais úmidas e muito úmidas, além de fragmentos de
floresta seca no Norte, em altitudes mais comuns abaixo de 600–800 m, embora
haja registros históricos até cerca de 1.200 m (e, em alguns trechos, menções a
ambientes abaixo de 1.500 m).
Há indícios de ocorrência em
florestas maduras com distintos níveis de perturbação e até em florestas
secundárias, mas o risco aumenta quando os fragmentos são pequenos e pouco
conectados. A conectividade, mesmo por travessias curtas sobre áreas abertas,
pode ser decisiva para manter algum fluxo entre subpopulações e, quando ela
falha, a extinção local deixa de ser hipótese e vira tendência.
Ecologia, alimentação e
reprodução
Como outros cracídeos, o mutum-de-bico-azul
passa grande parte do tempo forrageando no solo, remexendo a serapilheira em
busca de frutos caídos, sementes, brotos e invertebrados. Há registros de dieta
ampla, incluindo anelídeos, grandes artrópodes, flores e até material em
decomposição; levantamentos identificaram sementes/frutos de múltiplas espécies
vegetais e reforçam seu papel como dispersor de sementes, importante para a
regeneração florestal.
A reprodução tende a se concentrar
na estação seca. O período reprodutivo é frequentemente descrito entre dezembro
e março (com variações regionais), com maturidade sexual por volta de três
anos. Os ninhos são construídos com gravetos e folhas secas, ocultos em
emaranhados de lianas; a postura típica é de dois a três ovos, com incubação em
torno de 30 a 32 dias. A espécie pode utilizar bordas florestais ricas em cipós
para nidificação e, em paisagens onde água se torna recurso limitante na seca,
há registros de visitas a pequenos riachos.
Quantos ainda restam e por que as estimativas variam
A espécie é classificada como Criticamente
Ameaçada (CR), e as estimativas populacionais oscilam, refletindo
diferenças metodológicas, lacunas de monitoramento e a própria fragmentação. Há
fontes que mencionam intervalos muito baixos para indivíduos na natureza, ao
mesmo tempo em que análises recentes apontam aproximadamente mil indivíduos
adultos remanescentes em 2024, após um declínio superior a 95%. Essa mesma
síntese recente ressalta um dado ainda mais alarmante: apenas uma subpopulação
é tratada como potencialmente viável, com cerca de 138 indivíduos adultos na Reserva ProAves El
Paujil (Serranía de las Quinchas), e projeta-se risco real de extinção na
natureza por volta de 2050 caso não haja medidas imediatas.
Segundo diversas fontes a ordem de
grandeza atual parece estar em “centenas a cerca de mil” adultos, mas a
capacidade de sobreviver está concentrada em pouquíssimos núcleos, o que torna
a espécie extremamente vulnerável a qualquer aumento de caça ou degradação
súbita do habitat.
Ameaças principais: onde a
conservação falha primeiro
A perda e fragmentação do habitat
é estrutural: expansão agropecuária, extração madeireira, mineração,
infraestrutura e, em alguns territórios, economias ilegais, pressionam as
últimas manchas de floresta. Estimativas recentes registram uma contração
dramática da distribuição, de milhares de km² no fim do século XX para pouco
mais de mil km² em 2024 e associam esse colapso à combinação entre
desmatamento, fragmentação e caça.
Mas, para o mutum-de-bico-azul,
a caça é o gatilho mais imediato: ela reduz rapidamente adultos
reprodutivos, pode distorcer a proporção sexual (machos vocalizam e ficam mais
expostos na época reprodutiva), e ainda se soma ao roubo de ninhos e captura de
filhotes para cativeiro e comércio ilegal. Em cenários de fragmentos pequenos,
essa pressão não somente diminui a população, mas ela pode simplesmente
inviabilizá-la em horizonte de poucas décadas.
Há, por fim, ameaças que amplificam
o risco: poluição associada a atividades como mineração e fumigações em
áreas de cultivos ilícitos; e barreiras de infraestrutura, como rodovias que
isolam subpopulações e reduzem conectividade, sendo este um problema
particularmente grave quando a espécie já depende de trechos florestais mínimos
para manter algum intercâmbio entre fragmentos.
O que já foi feito: reservas, monitoramento, educação e acordos territoriais
Entre os acertos mais consistentes
está a criação e consolidação de áreas protegidas e reservas regionais com foco
direto na espécie, além de esforços de pesquisa e monitoramento associados. A
Reserva ProAves El Paujil, criada para proteger uma população-chave, tornou-se
referência: proteção de habitat, acompanhamento populacional e educação
ambiental no entorno, com atividades comunitárias e ações
continuadas (incluindo iniciativas locais como eventos anuais e trabalho em
escolas).
Outras áreas aparecem como
relevantes na rede de remanescentes e no esforço institucional: reservas
regionais em Antioquia (como Cañón del Río Alicante e Bajo Cauca Nechí), o Ecoparque Los
Besotes (Cesar) e referências a presença (ainda que incerta e esparsa) em
unidades nacionais e zonas de amortecimento, onde projetos conjuntos entre
autoridades ambientais regionais e organizações de conservação buscaram avaliar
ecologia e ameaças.
Um elemento particularmente
promissor, por ser implementável, é a formalização de acordos com proprietários
para garantir proteção florestal e proibição de caça em áreas-chave. Quando se
trata de uma espécie com poucos redutos viáveis, concentrar esforço onde há
maior remanescente florestal e maior chance de manter uma população-fonte é a
diferença entre persistir e desaparecer.
O que ainda não funcionou
Programas ex situ e reprodução em
cativeiro são importantes e existem iniciativas nacionais e internacionais
registradas. Porém, o ponto crítico é que soltar indivíduos ou suplementar
populações não resolve, se a mortalidade por caça continuar, mesmo em níveis
considerados baixos. Avaliações de viabilidade populacional aplicadas a um
cenário real (paisagem com propriedades privadas e assentamentos) indicam que a
variável com maior impacto no risco de extinção é a caça; e que medidas como
suplementação com indivíduos de cativeiro e ações pontuais de restauração não
garantem viabilidade de longo prazo sem controle efetivo da perseguição.
Além disso, o próprio campo da
conservação ex situ enfrenta fragilidades: há registro recente de número muito
baixo de indivíduos mantidos em zoológicos colombianos e de envelhecimento da
população cativa, com reprodução limitada, o que torna ainda mais perigosa a
estratégia de depender do cativeiro como forma de salvar da extinção a espécie,
para se pensar em posterior reintroduções.
Propostas para um futuro imediato na campo da conservação
A partir de diversas pesquisas, há a indicação
de que o “futuro imediato” do mutum-de-bico-azul depende de uma
sequência objetiva de prioridades.
A primeira é redução real da caça,
com metas verificáveis, vigilância e pactos territoriais aplicados onde a
espécie ainda tem chance de formar populações-fonte. Isso inclui fiscalização,
monitoramento comunitário e mecanismos de governança que sobrevivam a mudanças
políticas e a oscilações de financiamento.
A segunda é proteção e gestão de
habitat com foco em conectividade: manter e recuperar corredores entre
fragmentos, impedir novas perdas de cobertura, e reduzir pressões diretas
(estradas, abertura de acessos, expansão agropecuária em bordas críticas).
A terceira é planejamento
coordenado, que não dependa de esforços isolados. Um passo relevante nesse
sentido foi o encontro nacional liderado pela Fundación
ProAves em 2025, reunindo autoridades ambientais, instituições de pesquisa,
parques nacionais, organizações e atores acadêmicos, para construir um Plano de
Ação com pilares explícitos (habitat, políticas, pesquisa/monitoramento,
enfrentamento à caça e comércio ilegal, aprimoramento de
reprodução/reintrodução e participação/educação comunitária). Esse tipo
de articulação é valioso porque transforma “boas intenções” em agenda pública,
com divisão de responsabilidades e metas.
Se essas frentes não avançarem de
modo integrado, o prognóstico permanece severo: declínio rápido, subpopulações
pequenas e isoladas, e risco de desaparecimento na natureza em poucas décadas.
Fontes: Birds of the world, Ebird, Birds Colombia, Oryx, Pierre Wildlife, World Land Trust, BirdLife International, Association of Avian Veterinarians –
AAV , Palm Oil Detectives, Birds of Colombia, Ornitologia Colombiana, Fundación ProAves, Conservación Colombiana
Fotos: Mutum-de-bico-azul_macho_DesertInaturalist; segunda foto: Mutum-de-bico-azul_fêmea_Desertnaturalist; terceira foto: Mutum-de-bico-azul_ by Lex Plasmans; quarta foto: Mutum-de-bico-azul_fêmea_by Dennis Arendt; quinta foto: Mutum-de-bico-azul_macho_by Carlos Iván Restrepo Jaramillo




