O jacu-de-asa-branca, também conhecido no Peru como pava aliblanca (Penelope albipennis), é um cracídeo exclusivo dos bosques secos da costa norte do Peru, um ecossistema marcado por forte sazonalidade, escassez hídrica e pressões históricas de conversão do solo. Trata-se de uma ave grande e esguia, de presença marcante e alto valor simbólico, cuja trajetória — da “extinção” presumida ao retorno documentado — tornou-se um dos casos mais emblemáticos de conservação no país. Mesmo com avanços expressivos nas últimas décadas, a espécie permanece vulnerável a ameaças persistentes, exigindo proteção contínua do habitat, gestão pública consistente e participação comunitária duradoura.
Identidade, aparência e traços de comportamento
A espécie mede, em geral, entre 70 e 80 cm, com peso ao
redor de 1,6 kg (podendo variar um pouco em algumas descrições). Sua plumagem é
predominantemente escura, entre o marrom-escuro e o negro, e o traço mais
característico — que inspira o nome popular — está nas oito a nove grandes
penas primárias brancas na extremidade das asas, que podem ficar pouco visíveis
quando o animal está pousado, mas brilham intensamente durante o voo. Apresenta
ainda face com pele nua em tons acinzentados a rosados e um saco gular (papada)
bem evidente, descrito como vermelho intenso ou alaranjado, elemento que
reforça sua singularidade estética.
É uma ave majoritariamente arborícola, ativa sobretudo ao
amanhecer e antes do entardecer, quando vocaliza com força e pode delimitar
território. Frequentemente é observada em pares, coerente com seu padrão
monogâmico, com vínculos mantidos ao longo da estação reprodutiva e, por vezes,
por períodos prolongados. A reprodução é naturalmente lenta: maturidade sexual
tardia, ninhadas pequenas (em torno de um a três ovos) e comportamento sensível
ao estresse aumentam a vulnerabilidade diante de perturbações e perdas locais.
Dieta e papel ecológico no bosque seco
O jacu-de-asa-branca alimenta-se de frutos, flores,
brotos, folhas, sementes e outros recursos vegetais, com registros indicando um
amplo repertório alimentar ligado à diversidade botânica do bosque seco. Em
levantamentos mais recentes, sua dieta foi associada a dezenas de plantas, com
cerca de 98 espécies vegetais registradas como parte do conjunto alimentar.
Essa amplitude reforça um ponto decisivo: a espécie não é apenas “mais uma ave
rara”, mas um agente ecológico que contribui para a dinâmica do ecossistema,
especialmente como dispersora de sementes.
Ao consumir frutos e deslocar-se por diferentes áreas, a
espécie favorece a regeneração de árvores e arbustos do bosque seco,
participando do ciclo de renovação natural. Em alguns contextos locais, sua
presença é associada indiretamente à continuidade de processos ecológicos que
sustentam a produtividade de determinadas plantas e a estabilidade de
microambientes. Em ecossistemas sujeitos a fragmentação, esse serviço ecológico
ganha valor estratégico, porque a perda de dispersores pode acelerar o empobrecimento
da vegetação e reduzir a resiliência do habitat.
Da descrição científica ao “silêncio” de um século
A história da espécie é incomum até mesmo para padrões de
fauna rara. Os primeiros registros científicos datam da década de 1870, quando
exemplares foram coletados e descritos para a ciência, associados a nomes como
o naturalista Ladislao Taczanowski e coletadores que atuaram no norte do Peru.
Pouco depois, porém, a espécie praticamente desapareceu dos registros, e entre
1877 e 1977 não houve confirmação documentada em campo. Ao longo do século XX,
essa ausência prolongada levou a comunidade científica a considerar a
possibilidade de extinção, e surgiram hipóteses alternativas, incluindo dúvidas
taxonômicas decorrentes do número ínfimo de espécimes disponíveis para
comparação.
Esse “silêncio” de um século, entretanto, não significou
necessariamente desaparecimento completo — mas sim um conjunto de fatores que
tornava a detecção improvável: baixa densidade, habitat difícil de acessar em
algumas áreas, pressões humanas crescentes e ausência de expedições regulares
em certos períodos. Ainda assim, o consenso dominante acabou sendo o de que se
tratava de uma espécie perdida.
O reencontro em 1977 e o início de uma virada
A virada ocorreu em 13 de setembro de 1977, quando a espécie
foi redescoberta na quebrada San Isidro, em Olmos (Lambayeque), a partir do
relato e da participação direta de moradores locais — em especial do camponês
Sebastián Chinchay — articulados com esforços de busca conduzidos por
conservacionistas e ornitólogos, como Gustavo del Solar e colaboradores. Esse
episódio é central não apenas por ter “provado” que a espécie existia, mas por
evidenciar um traço que se repetiria nas décadas seguintes: sem comunidade
local, não há conservação possível para uma ave que vive em paisagens
ocupadas, fragmentadas e submetidas a usos produtivos.
Após o reencontro, o desafio deixou de ser confirmar a
existência e passou a ser garantir sobrevivência de longo prazo. Os primeiros
censos e expedições posteriores registraram números modestos. Em 1978, em
levantamentos em quebradas do Noroeste, houve registro de cerca de 60
indivíduos em áreas onde a espécie foi encontrada; em 1987, revisitas a locais
semelhantes identificaram aproximadamente 97. Décadas depois, novas buscas em
múltiplas quebradas indicaram crescimento gradual, com registros como 198 indivíduos
em expedições de 2008–2009 em um conjunto amplo de áreas potenciais. Esses
números históricos são essenciais para entender o ponto de partida e a lentidão
natural do processo de recuperação.
Principais ameaças e a lógica da vulnerabilidade
O jacu-de-asa-branca enfrenta duas pressões
estruturais: perda e fragmentação de habitat e caça/captura ilegal.
A conversão do bosque seco para agricultura e pecuária, o avanço de frentes
produtivas, a extração de madeira e lenha e a degradação por usos desordenados
reduzem a continuidade do ecossistema e isolam subpopulações. Em paralelo, a
caça por consumo, oportunismo ou
práticas tradicionais em certos contextos, pode ter efeito desproporcional,
porque a espécie tem reprodução lenta e sensibilidade a perturbação.
Mesmo quando a pressão de caça diminui em alguns
territórios, a fragmentação segue impondo risco: subpopulações pequenas tendem
a sofrer com eventos climáticos locais, fogo, perda de recursos, ataques de
predadores e maior exposição a distúrbios. Por isso, a conservação eficaz exige
abordagem integrada, combinando proteção territorial, fiscalização, incentivos
a práticas compatíveis e educação ambiental.
A resposta institucional: leis, planos e políticas públicas
A trajetória de proteção ganhou base jurídica e
institucional com marcos decisivos. Uma lei nacional de 2003 (Lei N.º 28.049)
declarou de interesse nacional a conservação da espécie e proibiu caça,
extração, transporte e exportação com fins comerciais, criando um respaldo
formal importante para fiscalização e políticas públicas.
Com o tempo, a resposta passou a incluir instrumentos de
planejamento, como o Plano
Nacional de Conservação (aprovado em meados da década de 2010, com vigência
até 2021), articulado entre órgãos como o Servicio
Nacional Forestal y de la fauna
silvestre (SERFOR), o Ministério del
Ambiente (MINAM) e o Servicio Nacional
de Áreas Naturales Protegidas por el Estado (SERNANP). Esse tipo de plano é
relevante porque transforma a conservação em metas operacionais: monitoramento
populacional, ampliação de mecanismos de conservação no território de
ocorrência, reintrodução planejada de indivíduos oriundos de programas de
reprodução e envolvimento social direto no entorno do habitat.
Mais recentemente, o MINAM estruturou um projeto de
investimento público voltado à recuperação das populações e à proteção do
habitat em províncias de Cajamarca, Lambayeque e Piura, organizando ações em
três eixos complementares: promoção da conservação, estímulo a atividades
sustentáveis compatíveis e fortalecimento da gestão do entorno e da espécie.
Áreas protegidas e o papel do mosaico de conservação
Um dos fatores mais determinantes para a recuperação foi a
criação e consolidação de um mosaico de áreas protegidas e modalidades de
conservação, cobrindo frações relevantes do habitat. Entre os espaços citados
nos esforços, destacam-se áreas como o Refúgio de Vida Silvestre Laquipampa e
iniciativas de conservação privada como a Área de Conservação Privada Chaparrí,
além de Áreas de Conservação Regional em Lambayeque e Piura, criadas para
proteger subpopulações e porções estratégicas do bosque seco.
Esse mosaico tem um papel prático: áreas protegidas reduzem
pressão de caça, organizam regras de uso, criam possibilidades de vigilância e
manejo, e quando bem conduzidas transformam
a presença da espécie em um ativo para iniciativas econômicas compatíveis, como
o turismo de natureza e a observação de aves. Além disso, a proteção
territorial cria as condições mínimas para que reintroduções ou recuperações
populacionais façam sentido, porque não há ganho duradouro se os indivíduos
voltarem a um ambiente degradado e inseguro.
Reprodução em cativeiro, reintrodução e monitoramento
Outro pilar decisivo foi o trabalho de reprodução em
cativeiro e reintrodução planejada. Iniciativas pioneiras foram
estruturadas a partir do final da década de 1970 e ganharam corpo com a criação
do zoocriadero
Bárbara D’Achille, em Olmos, dedicado a formar plantéis e preparar aves
para reinserção. A lógica técnica desse trabalho é exigente: evitar
consanguinidade, garantir adaptação ao habitat, promover formação de pares
reprodutivos e realizar liberação em áreas com condições ecológicas adequadas e
ameaças relativamente controladas.
Em um período posterior, esforços de liberação resultaram na
reintrodução de dezenas de indivíduos em áreas estratégicas, com monitoramento
para avaliar sobrevivência e reprodução. O monitoramento é o componente que
transforma “soltar aves” em conservação real, porque mede se houve integração
ao ambiente, sobrevivência ao longo do tempo e nascimento de filhotes.
Registros de reprodução de indivíduos reintroduzidos, com nascimento de
filhotes nos anos seguintes às liberações, reforçaram que o método pode funcionar
quando há habitat protegido e acompanhamento contínuo.
O salto dos dados recentes: população e área de distribuição
Os dados mais atuais fornecem um quadro mais robusto da
situação contemporânea. Um estudo populacional realizado em 2023–2024 estimou
aproximadamente 858 indivíduos em vida silvestre, número que representa aumento
em relação aos 553 registrados em 2017. Além disso, foi confirmada expansão de
distribuição em 46.922 hectares, alcançando um total de 185.921,9 hectares nos
três departamentos onde ocorre: Cajamarca (15,8%), Lambayeque (39,6%) e Piura
(44,6%).
Esses números importam por três motivos. Primeiro,
demonstram que houve ganho real de população e presença territorial,
contrariando a ideia de que o caso seria apenas “sobrevivência residual”.
Segundo, sustentam que políticas e ações integradas — áreas protegidas, gestão
local, educação, reintrodução e monitoramento — podem produzir resultados
mensuráveis. Terceiro, permitem redefinir prioridades: com maior distribuição
confirmada, torna-se ainda mais importante conectar fragmentos, reduzir
pressões em zonas de expansão e garantir governança territorial nos pontos onde
a espécie está reaparecendo.
Educação ambiental e participação comunitária como eixo
central
A recuperação do jacu-de-asa-branca não se explica
apenas por lei, cativeiro e áreas protegidas. Um elemento decisivo foi a
mudança de percepção no entorno do habitat, em grande parte associada a
estratégias de educação ambiental e sensibilização. Programas
coordenados por organizações da sociedade civil e por iniciativas associadas à
conservação em áreas protegidas passaram a dialogar diretamente com caseiros e
comunidades rurais, reconhecendo que o público prioritário não era o urbano
distante, mas quem convive com o território.
Essas ações foram desde visitas educativas e campanhas em
escolas até estratégias culturais, rádio e iniciativas de comunicação
popular. Em uma etapa recente do projeto público, uma campanha de educação
ambiental alcançou cerca de 3 mil escolares, reforçando orgulho local,
responsabilidade e identificação com a ave. Esse ponto é crucial: reduzir caça
e captura ilegal não depende apenas de punição, mas de pertencimento,
informação e alternativas econômicas.
Ecoturismo, rota cultural e a força do patrimônio
simbólico
Nos últimos anos, a conservação passou também a incorporar
uma dimensão explícita de valorização cultural e oportunidades
sustentáveis. O MINAM propôs uma rota turística que articula
conservação, cultura e turismo responsável, conectando pontos de avistamento e
monitoramento, centros de reprodução e educação, comunidades rurais com
práticas sustentáveis e locais históricos ligados ao reencontro da espécie —
como a própria quebrada San Isidro, em Olmos.
Essa abordagem se fortalece quando se reconhece a espécie
como patrimônio natural e simbólico. O Governo Regional de Piura, por exemplo,
declarou a ave como “Patrimônio Regional” (2019), sinalizando que
o valor do jacu-de-asa-branca vai além do biológico: ele representa
identidade regional, orgulho e narrativa coletiva de proteção. A presença da
espécie em ações culturais, em manifestações locais e até em iniciativas de
valorização pública reforça um caminho de conservação que não separa natureza e
sociedade, mas as integra.
Em 28 de dezembro de 2025, o Governo Regional de Piura realizou
o lançamento da rota “Alas que siembran, pava aliblanca”,
articulada com o MINAM e atores locais, incluindo visita a ponto de avistamento
em área de conservação regional e atividades culturais, como apresentação do
“baile de la pava aliblanca” por estudantes. A escolha de incluir escola e
cultura na apresentação pública é, por si, um recado: conservar não é apenas
proteger, mas criar sentido social para a proteção.
Perspectivas e exigências para a consolidação da
recuperação
Os avanços são expressivos, mas não autorizam complacência.
A espécie ainda depende de continuidade institucional, financiamento e
governança territorial, sobretudo porque o bosque seco segue ameaçado por
pressões econômicas e usos predatórios. Além disso, crescimento populacional
pode ser revertido rapidamente caso haja relaxamento na vigilância, na educação
ambiental e na gestão das áreas-chave.
Consolidar a recuperação exige três frentes simultâneas: (1)
manter e ampliar mecanismos de conservação e conectividade do habitat,
garantindo que a expansão registrada se transforme em população viável; (2)
fortalecer a participação comunitária com alternativas sustentáveis reais, para
que a espécie permaneça protegida por convicção e benefício social compatível;
e (3) sustentar o monitoramento científico e a gestão adaptativa, evitando que
decisões sejam tomadas com base em impressões ou dados desatualizados.
O jacu-de-asa-branca tornou-se símbolo de um tipo de
vitória rara: a vitória construída lentamente, com ciência, política pública,
sociedade civil e comunidade local atuando lado a lado. Seu futuro depende de
que essa aliança não seja episódica, mas permanente.
Fontes: Acutalidad Ambiental, Mongabay,Gob.Pe, Conservamos por la naturaleza, El País, Naturalista UY, El Comercio, Noticias Piura, Fandom
Fotos: Jacu-de-asa-branca_by Nick Athanas; segunda foto: _by Gerlinde Taurer; terceira foto: _divulgação Chaparri Reserve; quarta foto:_by Heinz Plenge Pardo e quinta foto: _by Shirley Freyre



