A biologia e a vulnerabilidade do bufeo, o boto-cor-de-rosa boliviano


O boto-cor-de-rosa boliviano (Inia boliviensis), conhecido localmente como bufeo ou boto boliviano é um cetáceo de água doce da Bolívia, com ocorrência no Brasil, sobretudo no estado de Rondônia. Trata-se de uma espécie singular da fauna amazônica, restrita às bacias do alto rio Madeira e de seus principais tributários, como os rios Mamoré, Iténez (Guaporé), Beni e Abunã. O isolamento geográfico imposto por corredeiras e cachoeiras ao longo de milhares de anos contribuiu para a diferenciação evolutiva dessa população, reconhecida pela comunidade científica como uma linhagem distinta dentro do gênero Inia.

Características morfológicas e biológicas

O boto-cor-de-rosa boliviano é um dos maiores golfinhos de água doce do mundo, podendo atingir cerca de 2,8 metros de comprimento e pesar até 180 quilos. Seu corpo é robusto e altamente flexível, com vértebras cervicais não fundidas, o que permite ampla mobilidade da cabeça, uma adaptação essencial para a navegação em ambientes complexos como florestas inundadas.

O focinho é longo e levemente curvado para baixo, com vibrissas mais visíveis em indivíduos jovens. Na região frontal destaca-se o melão, órgão fundamental para a ecolocalização, que compensa sua visão limitada em águas turvas. A dentição é heterodonte, com dentes cônicos na parte anterior e molares na região posterior, característica que facilita a captura e o processamento de diferentes tipos de presas. Em comparação com o boto amazônico (Inia geoffrensis), o bufeo apresenta maior número de dentes, crânio ligeiramente menor e coloração geralmente mais pálida, variando do cinza ao rosado conforme idade, sexo e nível de atividade.


Distribuição geográfica e habitat

A distribuição do Inia boliviensis concentra-se majoritariamente no norte e nordeste da Amazônia boliviana, abrangendo cerca de metade da bacia do rio Madeira. A espécie ocupa uma ampla variedade de habitats aquáticos, incluindo canais principais de grandes rios, confluências, lagos de várzea, rios de águas brancas e claras e áreas sazonalmente inundadas.

No Brasil, o boto boliviano ocorre ao longo de grande parte do rio Madeira, ultrapassando antigas barreiras naturais de corredeiras e estendendo-se até proximidades do município de Borba, no Amazonas. No entanto, a construção de grandes hidrelétricas interrompeu a conectividade desses ambientes, isolando populações e comprometendo o fluxo gênico entre diferentes trechos do rio.

Comportamento e ecologia alimentar

O bufeo apresenta hábitos tanto diurnos quanto noturnos, uma vez que sua respiração é voluntária e exige emergências frequentes à superfície. Em geral, é observado sozinho ou em pequenos grupos de até quatro indivíduos, embora agregações maiores possam ocorrer em áreas de alimentação ou reprodução. Um comportamento peculiar da espécie é o chamado display sócio-sexual, no qual machos adultos utilizam objetos como galhos, pedaços de madeira ou barro para cortejar fêmeas.

A dieta é predominantemente piscívora e bastante diversificada, incluindo peixes de diferentes famílias e cerca de 50 espécies. Registros ocasionais indicam o consumo de pequenos quelônios e crustáceos. Como predador de topo, o bufeo exerce papel fundamental no controle das populações de peixes, contribuindo para o equilíbrio ecológico dos sistemas fluviais.

Importância ecológica e sociocultural

O boto-cor-de-rosa boliviano é considerado uma espécie indicadora da qualidade ambiental dos ecossistemas aquáticos, pois depende de ambientes com elevada produtividade biológica e baixa contaminação. Também é classificado como espécie guarda-chuva, uma vez que sua proteção beneficia um amplo conjunto de organismos associados aos rios amazônicos.

Além de sua relevância biológica, o bufeo ocupa um lugar simbólico importante na cultura amazônica boliviana. Foi declarado Patrimônio Natural em diferentes escalas administrativas, incluindo o Departamento de Beni e o Estado Plurinacional da Bolívia, reconhecimento que reforça seu valor ecológico, cultural e estratégico para a conservação dos ecossistemas aquáticos.

No plano sociocultural, o bufeo ocupa lugar de destaque no imaginário popular e nas tradições indígenas e ribeirinhas. Lendas, mitos e narrativas associam o animal à proteção das pessoas e dos rios, reforçando seu valor simbólico. Nos últimos anos, iniciativas de turismo responsável vêm aproveitando esse carisma de forma não extrativa, gerando alternativas econômicas sustentáveis para comunidades locais.

Ameaças à conservação

Apesar de sua importância, o Inia boliviensis enfrenta um conjunto crescente de ameaças. A construção de barragens hidrelétricas é uma das mais severas, pois fragmenta habitats, altera a dinâmica dos rios e interrompe a migração de peixes, afetando diretamente a disponibilidade de alimento. Estudos indicam que populações isoladas em reservatórios correm risco elevado de endogamia e extinção local.

Outras ameaças relevantes incluem a sobrepesca, a captura acidental em redes, o uso ilegal do boto como isca na pesca do bagre piracatinga, o tráfego intenso de embarcações e a contaminação por mercúrio proveniente da mineração. A degradação das matas ciliares, o assoreamento dos rios e a poluição por resíduos domésticos e agrícolas agravam ainda mais o quadro de vulnerabilidade da espécie.

Ações de conservação e papel institucional

A Bolívia avançou de forma significativa na institucionalização da proteção do bufeo. O país conta com um Plano de Ação para a Conservação do Bufeo (2020–2025), coordenado pelo Ministério de Meio Ambiente e Água, que estabelece diretrizes para pesquisa, monitoramento, educação ambiental, fortalecimento normativo e promoção do uso não extrativo da espécie.

Organizações não governamentais desempenham papel central nesse processo. A WWF Bolívia e a Asociación FaunAgua, em parceria com universidades e governos locais, desenvolvem estudos populacionais, monitoramento por satélite, análises de contaminação por mercúrio e projetos de ciência cidadã. Um aspecto inovador dessas iniciativas é a inclusão de pescadores como colaboradores da pesquisa, transformando antigos conflitos em alianças para a conservação.

Áreas protegidas como o Parque Departamental Iténez e diversas unidades nacionais e municipais também contribuem para a manutenção de habitats críticos, embora apenas uma pequena parcela da distribuição da espécie esteja efetivamente protegida. O envolvimento de comunidades indígenas e ribeirinhas é reconhecido como elemento-chave para o sucesso das estratégias de conservação de longo prazo.

O boto-cor-de-rosa boliviano sintetiza os desafios e as possibilidades da conservação na Amazônia contemporânea. Espécie carismática e ecologicamente estratégica, sua sobrevivência depende da integridade dos sistemas fluviais e da capacidade de conciliar desenvolvimento humano com proteção ambiental. O fortalecimento das políticas públicas, o apoio às pesquisas científicas e a valorização do conhecimento local são caminhos indispensáveis para garantir que o bufeo continue habitando os rios da Amazônia boliviana e brasileira, mantendo vivos os vínculos entre natureza, cultura e biodiversidade.

Fontes: Salve/ICMBio, Pisataua, The Society for Marine Mammalogy, Aqua Portail, River Dolphins, Aquatic Mammals Journal, PubMed, Journal for Nature Conservation, WWF Bolívia, Faunagua, WWF Proyecto Bosni, WWF Equador, WCS Bolívia, Plan de Acción Bufeo 

Fotos: Boto boliviano_Aqua Portail; segunda foto_by Fernando Trujillo; terceira foto: _by Enzo Aliaga; quarta foto: _by Mara Candice Arias e última foto: _by F.Gutierrez.jpg